Exemplo – 07/07/2000

Serei previsível. Todo colunista de automobilismo no Brasil, esta semana, escolheu Roberto Moreno como tema. Farei o mesmo. Nós, colunistas, vivemos desesperados atrás de assuntos que valham uma coluna. Quando surge um, não podemos deixar passar em branco.

É o caso do Moreno nesta semana. Muito mais do que o dedo do Coulthard para o Schumacher, ou mesmo as novas insinuações de Barrichello depois do GP da França – que tirou o pé para o alemão ter folga nos pit stops, etc. e tal. Insinuações de Barrichello, na verdade, já estão se tornando recorrentes, ele está banalizando seu discurso, e discursos banais acabam perdendo a força.

Ao Moreno, então. Todos nós, que cobrimos F-1 desde o final dos anos 80, temos alguma história sobre o Moreno, que é chamado pelos amigos de Baixo. Nunca usei o termo, primeiro porque não sou exatamente seu amigo, e depois – talvez principalmente – porque sou mais baixo do que ele.

Roberto não ganhava uma corrida desde 88. Deve ser duro, para um piloto, passar tanto tempo sem vencer. Christian Fittipaldi e Maurício Gugelmin viveram dramas parecidos. Barrichello, idem. Não ganha uma corrida desde 91, quando disputava a F-3 Inglesa. Manter a motivação e a força de vontade intactas por tanto tempo é uma façanha. No caso do Moreno, sua última vitória, 12 anos atrás, aconteceu em Birmingham, na F-3000. Ele corria com um carro emprestado pela Reynard, todo branco. Tinha duas necessidades básicas: não bater e conseguir bons resultados, para que o dinheiro dos prêmios garantisse sua presença na corrida seguinte.
Foi campeão. Isso um ano depois de já ter estreado na F-1, na AGS, em 87. O título não lhe rendeu grande coisa em 89. Um contrato com a Coloni, apenas, apesar do bom retrospecto e de ter trabalhado também como piloto de testes da Ferrari, desenvolvendo o câmbio semiautomático inventado pelo time de Maranello.

Em 90, foi para a Eurobrun, outra equipe risível. Só conseguiu um carro de verdade quando Alessandro Nannini caiu do helicóptero, perdeu um braço, e Nelson Piquet arrumou a vaga na Benetton para o amigo. Um segundo lugar em Suzuka, em dobradinha com Nelson, foi seu grande momento na F-1.

No ano seguinte, foi demitido pela Benetton para dar o lugar a uma estrela ascendente, Michael Schumacher. Não se pode dizer que a equipe tenha feito uma aposta errada. A partir daí Roberto perambulou pela Jordan, depois Minardi, depois Andrea Moda e por fim Forti Corse. Correu por algumas das piores equipes da história, talvez a pior de todas, a Andrea, uma picaretagem de um italiano vendedor de sapatos.

No único GP que conseguiu disputar pela Andrea, o de Mônaco em 92, a equipe comemorou sua classificação para o grid como se tivesse ganho uma Copa do Mundo. Não era para menos. Meses antes, no Brasil, o carro ficara pronto momentos antes da pré-classificação. Moreno saiu dos boxes e voltou com a alavanca de câmbio na mão. Enquanto isso, numa Kombi velha, o pessoal do time circulava pelas oficinas de Interlagos atrás de peças para montar o segundo carro. No Canadá, o time só participou dos treinos porque a Brabham emprestou um motor. Na regata dos mecânicos, o barquinho da Andrea afundou… Era engraçado.

Depois dessa experiência, Moreno virou um resmungão amargurado. Correu de turismo, fez algumas provas na Indy, virou um substituto oficial de pilotos acidentados, até assinar, no começo deste ano, um contrato de verdade com a Patrick. Ganhou sua primeira corrida na categoria, lidera o campeonato, e não incluir seu nome na lista de favoritos ao título seria um equívoco.

É o que se chama, para usar um clichê abominável, de volta por cima. Moreno tem 41 anos, está longe de ser um galã, ostenta uma carreira que flertou muito mais com o fracasso do que com o sucesso. E está mostrando que provavelmente, em algum momento nesses últimos 12 anos alguém errou no julgamento que fez de sua capacidade de pilotar, de ser um vitorioso, enfim.

Bem, como se diz, antes tarde do que nunca. Roberto pode até não ganhar mais nenhuma corrida, nem conquistar o título. Mas, no mínimo, deixa para as gerações de garotos mais novos, deslumbrados com uma carreira que quase nunca é a maravilha que se imagina, uma lição de perseverança. Dá um exemplo. O que já é mais do que a maioria conseguiu.

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