Fumaça em Maranello – 11/11/2000

A divulgação da notícia, nesta semana, de que a Ferrari estaria pensando em preparar o imberbe Fernando Alonso para o lugar de Rubens Barrichello a partir de 2002 dá o que pensar. É estranho que tenha sido divulgada por um jornal, La Gazzetta dello Sport, que pertence ao grupo Fiat e é uma espécie de diário oficial ferrarista. Raramente o time é criticado em suas páginas cor-de-rosa, à Gazzetta a cúpula da Ferrari fala quando e o que quiser, seus repórteres são odiados pela concorrência por dispor de informações privilegiadas. Há duas correntes na imprensa italiana que cobre F-1. Os oficialescos da Gazzetta e os independentes do la Reppublica, do Tuttosport, do Corriere dello Sport, do La Stampa, do Il Resto del Carlino, da Radio Capital, e por aí vai. Conheço todos, e com todos me dou muito bem. Italiano é gente simpática, adora o Brasil, e se tenho amigos estrangeiros na F-1, estes são os jornalistas italianos. Muito menos por interesse jornalístico, muito mais porque é uma turma realmente maravilhosa. O autor da reportagem que vincula Fernando Alonso à Ferrari, Andrea Cremonese, é uma figura popular. Baixinho, meio corcunda, divertido, perguntador constante nas entrevistas coletivas com seu inconfundível sotaque. E, acima de tudo, um sujeito sério. Chuta-se muito na imprensa, mais ainda na F-1, e mais ainda na Itália. Ninguém está imune, porque jornalista precisa de notícia, de assunto, e muitas vezes um indício de qualquer coisa vira manchete. Há uma autocrítica da classe aqui, mas ao mesmo tempo não se pode negar que muitos desses indícios se transformam em fatos meses depois, e isso acontece todos os anos. Para ficar só nesta temporada, basta lembrar a antecipação, por vários veículos de imprensa, da contratação de Montoya pela Williams, da demissão de Wurz da Benetton, da saída de Diniz da Sauber, do empréstimo de Button à Benetton, da aposentadoria de Herbert, da aquisição de Salo pela Toyota e da desistência da Peugeot. Cremonese não chuta nem mais, nem menos que seus colegas. E trabalha num jornal permanentemente monitorado pela Fiat e pela Ferrari. Foi muito esquisita a reação da equipe à publicação da reportagem sobre Alonso no lugar de Barrichello, com seus assessores fazendo corpo-a-corpo junto a jornalistas do mundo inteiro para desmentir a notícia. Pode-se interpretar essa história de várias maneiras. Uma indireta a Barrichello, algo do tipo acelera ou se manda. Ou um descuido da direção da Gazzetta, que deixou passar uma notícia sem fundamento. Ou um vazamento inesperado e indesejável, seguido dos desmentidos que só serviram para acrescentar mais uma interrogação ao episódio. Alonso é muito jovem, embora promissor. Há outros jovens promissores por aí, como Pizzonia, Pantano, Da Matta, Raikkonen, um monte. Por que o seu nome, e não outro, foi ventilado pode parecer um mistério. Mas quando o próprio Alonso confirma que a Ferrari andou perguntando sobre seu contrato, e quando um jornal como a Gazzetta revela o interesse da equipe, é porque há uma fumacinha nessa parada. E onde há fumaça, todos sabem que fogo pode haver, também. (A propósito, não gosto dessa banalização das especulações sobre pilotos da Ferrari. Já que falei em fumaça, acho que a equipe deveria anunciar seus pilotos com faz o Vaticano com o papa. Uma fumacinha vermelha saindo do casarão do comendador em Maranello seria o sinal do time para o nome de consenso. Ferrari é Ferrari, é diferente, importante, mítica. Mas isso é tema para outro dia.) Pessoalmente, acho que é cedo demais para se especular sobre a saída de Barrichello ao final de seu contrato com a Ferrari. Ele pode fazer um Mundial brilhante no ano que vem e tudo que se escreveu antes será esquecido. Mas não descarto a possibilidade de alguém, na equipe, estar pensando num eventual substituto para o brasileiro. Assim como a Ferrari pensa, também, no que fazer se Schumacher resolver se aposentar. Na F-1, as coisas acontecem assim, em código, informação e contrainformação, boatos, chutes e desmentidos, conversas ao pé do ouvido, pilotos, empresários e equipes frequentemente usando a imprensa em função de seus interesses. Pelo sim, pelo não, Alonso ganhou notoriedade nesta semana. E Barrichello, de férias, possivelmente sem saber de nada, voltou a ter seu futuro e sua capacidade colocados em xeque. É cruel, essa Fórmula 1.

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