O autódromo que se vinga – 05/04/2002

Não, Barrichello não ia ganhar a corrida. Não, o destino não é cruel com ele. O cara é piloto da Ferrari, a melhor equipe do mundo, ganha cinco milhões de verdinhas por ano, é bem casado, tem um filho de seis meses gorducho e sorridente, mora num belo apartamento no Morumbi, tem outro em Mônaco, só anda de carrão. Não, quem tem tudo isso não pode reclamar do destino.

Mas vai ter azar assim no inferno. Corrida no Brasil, para Rubens, seria melhor se não existisse. Poderia ser transferida para Cali, Cidade do México, Buenos Aires, Ciudad de Est. Ou para o Suriname, Tegucigalpa, Santa Cruz de La Sierra, Guaiaquil, Caracas, Havana. Tudo que pode dar errado para Barrichello dá errado em Interlagos.

Enumerando, a partir de sexta-feira: o pneu furou na primeira volta da primeira sessão de treinos livres; o controle de tração pifou na mesma sessão, ele rodou e perdeu mais de 20 minutos de treino; no sábado, o sinal ficou vermelho na hora em que saía dos boxes e a punição foi a perda do melhor tempo na classificação; no treino que definiu o grid, o carro entrava em ponto morto sozinho; e domingo, na corrida, estava em primeiro quando a “vovó” quebrou, pane hidráulica, seja lá o que for isso. Pára tudo de funcionar, esses carros de F-1 são muito bestas, qualquer coisa quebra.

Em dez GPs do Brasil, Barrichello só chegou ao final de um, faz tanto tempo que nem lembro como foi, em 1994. Nove abandonos, sete deles por má-vontade dos carros. No ano passado, bateu estrepitosamente em Ralf, mas estava piradinho porque o carro titular quebrou quando ele se dirigia ao grid. E em 96, no outro abandono que pode ser debitado de sua conta corrente, rodou na frente da maior arquibancada de Interlagos depois de largar em segundo e encher a torcida de esperança.

Rubens poderia ficar gripado todo final de março. Ou pedir para não correr no Brasil. O desânimo a cada desgraça, a volta a pé aos boxes diante dos olhares sádicos de um público que não perdoa ninguém (foto), as explicações para o inexplicável, os olhos vermelhos, o consolo da família, a dor de abrir os jornais no dia seguinte, tudo isso deve, em português dos mais cristalinos, encher o saco do rapaz.

Ele costuma dizer que, apesar de tudo, correr em Interlagos é um prazer, é o melhor fim de semana do ano. Não é. É uma droga, dá tudo errado. Tem maldição, sim. Não sou de ficar com dó de ninguém, ninguém precisa da minha compaixão. Mas domingo confesso que deu pena. Não, o destino não é cruel com Barrichello. Cruel é esse circuito que insiste em fazer sofrer um menino que cresceu trepando nos seus muros para ver carros de corrida, sonhando com o dia em que iria brilhar ali. Rubens deve ter quebrado alguma vidraça, matado algum passarinho, envenenado algum vira-lata quando brincava de calças curtas no autódromo. Interlagos está se vingando. Só pode ser isso.

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