Rosemeyer – 30/12/2000

Vou aproveitar minha última coluna do século para homenagear aquele que considero o melhor piloto de todos os tempos, o mais macho, intrépido, descarado, criativo e veloz. Não, não é ninguém que você conheça. O cara morreu há quase 63 anos. A mais de 400 km/h, tentando bater o recorde mundial de velocidade estabelecido algumas horas antes por um piloto da maior rival de sua equipe, Caracciola, da Mercedes. Seu nome era Bernd Rosemeyer. Rosemeyer era piloto da Auto Union, a empresa que surgiu depois da fusão de quatro montadoras alemãs, Audi, Horch, Wanderer e DKW. Seu símbolo eram as quatro argolas, que hoje representam a marca Audi, mantida viva depois que a Volkswagen comprou a Auto Union. A Audi, por sinal, mostrou recentemente um protótipo batizado de Rosemeyer, baseado no lendário Type C de 16 cilindros que Bernd & cia. pilotaram na década de 30. Nascido em Lingen, na Baixa Saxônia, Rosemeyer começou a carreira em motocicletas, pilotando BMWs e NSUs. A DKW, força no motociclismo nas décadas de 20 e 30, notou suas qualidades e foi atrás dele.

Na fábrica da Horch, em Zwickau, um revolucionário carro de corrida estava sendo construído, sob a coordenação de Ferdinand Porsche. A estrela da Auto Union na época era o austríaco Hans Stuck. Foi quando o manager da Auto Union, Willy Walb, ofereceu um teste a Rosemeyer. Bernd chegou para o teste vestindo smoking.
Quando Walb lhe perguntou por que não usava macacão, como todos os outros, o piloto respondeu: Esta é uma ocasião muito especial para mim, minha primeira experiência num carro de corrida. Por isso resolvi vir vestido a caráter. Era novembro de 1934. O teste aconteceu no velho circuito de Nürburgring, com seus mais de 20 km de extensão. Bernd já conhecia a pista, de corridas com motos. Depois de algumas rodadas, começou a fazer bons tempos e ganhou um contrato de piloto reserva.
Começou a temporada de 1935 e Walb não queria dar um carro a Rosemeyer para o GP de Avus, perto de Berlim. Mas as pressões foram grandes e ele acabou cedendo. Se este rapaz quer se matar, problema dele, avisou. Bernd largou em terceiro, mas seu motor quebrou. Na prova seguinte, em Nürburgring, ele era o quarto piloto da Auto Union. Partiu para cima dos rivais da Mercedes, passou por Chiron e Fagioli, e ficou apenas com Caracciola à frente. Foi um espanto: Rosemeyer ultrapassou aquele que era o melhor piloto da Alemanha, que se recuperou e acabou vencendo por 1s8. Mas a partir daquele dia Rosemeyer deixava de ser reserva, para se tornar o grande nome da Auto Union. Em Pescara, na prova seguinte, Rosemeyer chegou a voar sobre um barranco passou entre um poste e o parapeito de uma ponte, voltou à pista e terminou em segundo. Depois da corrida, Ferdinand Porsche foi até o local pelo qual Rosemeyer passou. Era apenas 2,5 cm mais largo que o Auto Union que dirigia.

Poucos dias depois Bernd venceria sua primeira prova, na Tchecoslováquia, com seis minutos de vantagem sobre Nuvolari e Chiron. Em sua primeira temporada completa no circuito de GPs, Rosemeyer chegou ao topo. Sua maior vitória aconteceu em Nürburgring, seu circuito predileto. Venceria depois os GPs de Pescara, da Suíça e da Itália. Em Mônaco, depois de rodar numa poça de óleo e bater numa ponte, um vaso caiu à sua frente e ele chegou aos boxes carregando a peça. Se eu não posso ficar com a taça, pelo menos levo essa aqui para casa, falou. No ano seguinte, novas vitórias e uma impressionante pole no GP da Alemanha, seis segundos mais rápido que o primeiro carro da Mercedes. E uma vitória histórica em Donington, diante de 50 mil espantados torcedores ingleses. Percebendo que estava perdendo a hegemonia nas pistas para a Auto Union, a Mercedes resolveu tentar um recorde absoluto de velocidade na autobahn Frankfurt-Darmstadt-Heidelberg. A data marcada foi 27 de janeiro de 1938, antes do Salão do Automóvel de Berlim. A Auto Union, sabendo das pretensões mercadológicas da rival, preparou um carro para fazer a mesma coisa. No dia previsto, Alfred Neubauer, da Mercedes, checou as condições meteorológicas no aeroporto de Frankfurt e foi informado de que na manhã seguinte, bem cedo, elas seriam ideais. Para o final da manhã estavam previstos ventos fortes, que poderiam colocar em risco carros andando a mais de 400 km/h. Caracciola chegou por volta das 8h à estrada e logo foi para seu carro, atingindo 432 km/h. Foi assustador, disse, ao sair do carro. Rosemeyer foi o primeiro a cumprimentá-lo. Agora é minha vez, falou. Caracciola alertou o colega sobre a previsão de ventos fortes a partir daquela hora, mas Bernd desprezou o perigo. Pouco antes do meio-dia, entrou no cockpit do carro preparado pela Audi e foi para a estrada. Quando chegou à velocidade de 434,4 km/h, uma rajada lateral de vento atingiu seu carro, que se desgovernou e desintegrou-se, matando o piloto. Caracciola, Neubeuer e Von Brauchitsch, seus rivais da Mercedes, ficaram em silêncio por longos minutos. Ele não tinha medo de nada, e isso às vezes é muito ruim. Temíamos por ele a cada corrida. Eu sabia que Bernd não viveria muito, disse Caracciola anos depois. Rosemeyer morreu aos 28 anos de idade. Naqueles tempos os caras eram pilotos de verdade. A eles, que construíram a história das corridas neste século, as homenagens deste escriba. Nem Senna, nem Schumacher, nem Lauda, nem Prost, nem Clark. Que fique para a posteridade que no distante Brasil alguém se lembrou de Rosemeyer como piloto do século. A todos, um ótimo milênio.

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