Team Abaetetuba – 02/05/2001

Antes de ir direto ao assunto, faz-se necessária uma pequena introdução. É voz corrente por aí que Pedro Paulo Diniz está disposto a comprar a Prost, e que anda com umas ideias loucas, como a de fazer um time genuinamente brasileiro na F-1. Claro que ninguém confirma. Ele mesmo morreu de dar risada das minhas sugestões lá em Barcelona quando a gente conversou rapidamente sobre o assunto. Mas prometi ao Pedro que iria apresentar um plano de ação caso essa história venha a se tornar verdade um dia. E como promessa é dívida, segue o tal plano:

1. Cor dos carros: amarelos com uma faixa verde no meio. Visual retrô, como os Willys dos anos 60. Gosto dessas coisas.

2. Pilotos: daqui, claro. Não sou nacionalista, mas já que a idéia é essa, uma equipe brasileira, que ela seja a porta de entrada de brasileiros na F-1. Não dá para ter a pretensão de querer virar uma Ferrari tupiniquim. Portanto, que os objetivos fiquem bem claros desde o início: não virar motivo de chacota como foi a Copersucar um dia e funcionar, de verdade, como fábrica de talentos. Não que o Brasil seja um celeiro especial agraciado pelos senhores do universo, como se apregoa, mas uns dois ou três aparecem por aí todos os anos e não são piores do que a média que corre na F-1. Hoje eu colocaria no cockpit dos meus carros, por exemplo, Antonio Pizzonia e Felipe Massa.

3. Barrichello: seria uma ótima escolha para um primeiro ano, além de uma excelente manobra de marketing. A carreira de Rubens na F-1 chegou a uma encruzilhada. A Ferrari não aposta nele, e mesmo se ficar em Maranello ele será até o fim dos tempos o segundo de Schumacher, porque assim é a vida, alguns são melhores do que outros. Se sair, dificilmente cai numa equipe grande de novo. A McLaren não o quer (rasgou um contrato assinado em 1995, pecado mortal que Ron Dennis jamais perdoou), a Williams tem Ralf, Montoya e Button, e aceitar um lugar em qualquer outra seria um passo atrás imperdoável, melhor parar de correr. Abraçar uma causa verde-amarela, no entanto, seria uma boa forma de Barrichello fechar sua história na F-1 fazendo algo realmente importante e marcante, como ajudar a plantar a semente de um time brasileiro decente na categoria. E ele iria ajudar muito mesmo, porque é experiente e bom piloto, acima de tudo. Eu só proibiria suas chocantes sambadinhas, no caso improvável de um pódio nos primeiros anos.

4. Nome da equipe: que se escolha alguma coisa em tupi-guarani. Não fui alfabetizado no idioma, mas achei umas palavras num dicionário velho (sabia que ia servir para alguma coisa, um dia) que poderiam funcionar: Jucassaba Racing (“matador”), Team Abaetetuba (“lugar cheio de gente boa”), Porangaba F1 (“beleza”) ou Ybytucatú GP (“vento bom”). E nossos pilotos não seriam pilotos, mas sim abaquares (“homens que voam”). Eu iria adorar o nó na língua dos locutores ingleses: “Lá vem o Abaetetuba do Barrichello na última volta em Silverstone!”, teriam de gritar.

5. Motorhome: tratamento diferenciado a jornalistas e convidados. Nada de pasta, carpaccio, queijo parmesão, tiramisú e café expresso. No lugar disso, feijoada aos sábados, com caipirinha, pé-de-moleque, canjica, romeu-e-julieta, queijo de Minas, doce de abóbora, cafezinho de coador de pano e rodízio aos domingos com picanha, cupim e fraldinha. Nos alto-falantes, Bossa Nova, Tropicália, Chico e Caetano, Marisa Monte, só aquilo que de bom um dia este país produziu. Veto expresso a sertanejos, funks, axés e o lixo que todos conhecem. Tenho umas idéias sobre o ônibus, também. Lembram de “Bye bye Brasil”, de Cacá Diegues? Pois é.

6. Relações com os jornalistas e convidados: só mulheres lindas fazendo assessoria de imprensa e cuidando do bem-estar dos convidados, mas nada estereotipado, como mulatas de biquínis com lantejoulas saídas de um show do Sargentelli. Apenas um cuidado especial com a estética. Somos o país da Gisele Bündchen, não da Rita Cadillac. E um compromisso inquebrantável com a verdade: jamais mentir para a imprensa e obrigar os pilotos, digo, os abaquares a dizer apenas a verdade. O carro é ruim? Que se diga. O motor quebrou? Que se explique. O piloto, digo, o abaquar errou? Que admita.

7. Patrocinadores e fornecedores: seria um erro montar a equipe fisicamente no Brasil, como fizeram os Fittipaldi nos primórdios da Copersucar. Mas o time teria de ter uma subsede, sim, perto de Interlagos. E testar lá de vez em quando. E usar gasolina Petrobras, que parece ser boa — na Williams é. E ter alguns fornecedores nacionais. Usar, de fora, só aquilo que a indústria brasileira não faz, mesmo. Patrocínio é fácil. Sabendo procurar, dinheiro é o que não falta no Brasil. No limite, apresente-se um projeto à Sudam se a coisa apertar.

Deixando algumas brincadeiras de lado, não há grandes mistérios na F-1. Há, sim, dificuldades: juntar no mesmo pacote um bom carro, um motor potente, patrocinadores fortes, equipe técnica competente, pilotos rápidos. Diniz está há quase sete anos no meio e conhece o caminho das pedras. Se a tal da equipe brasileira se tornar realidade, que seja um divisor de águas, um negócio radical e diferente. A Copersucar deixou lições e não foi um negócio sem pé nem cabeça, como pode parecer a quem não conhece direito a história da aventura fittipaldiana. Sim, foi há um quarto de século, mas há o que aprender com tudo aquilo que aconteceu.

A possível nova aventura brasileira na F-1, se conduzida do jeito certo, pode até não ganhar nada. Mas tem chance de entrar para a história, e não necessariamente como tema do Casseta & Planeta.

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