Villeneuve assume favoritismo e diz que seu carro é perfeito – 05/03/1997

Deram corda para ele, agora aguentem. Jacques Villeneuve, cantado em prosa e verso como favorito ao título mundial de Fórmula 1 deste ano, resolveu assumir a condição de maior candidato à conquista. Na noite de hoje, quando começam os treinos para a primeira etapa do campeonato, o GP da Austrália, o canadense da Williams vai querer comprovar o que vem alardeando nas últimas semanas: que seu carro é nada mais nada menos do que perfeito e, por isso, o campeão será ele mesmo.

O excesso de confiança provém da lógica villeneuviana: Eu já conheço bem minha equipe, estou adaptado à Fórmula 1, me entendo perfeitamente com engenheiros e mecânicos, já andei em todos os circuitos e meu carro é o melhor de todos. O meu companheiro de equipe está chegando agora, tudo representa um novo mundo para ele, e por isso será mais fácil para mim.

No fundo, faz sentido. Jacques, é claro, se esquece de mencionar os mais de 5.000 km de testes feitos por seu novo parceiro na Williams, o alemão Heinz-Harald Frentzen, mas releve-se a omissão – até porque em 95 Villeneuve teve a mesma preparação e levou chumbo de Damon Hill no ano seguinte. Só que ele nem lembra que existem outras equipes, como a Ferrari, a Benetton e a McLaren. E outros pilotos, tipo Michael Schumacher, Jean Alesi, Gerhard Berger, Mika Hakkinen e David Coulthard. Gente que poderia, sem maldade nenhuma, atrapalhar seus planos de ganhar o título com um pé nas costas. Mas Jacques não se abala. Ainda seguindo sua lógica quebequiana, resume em uma frase as razões que o levaram a se autoproclamar campeão por antecipação: O único defeito do nosso carro é não ter defeitos. Como não conseguimos encontrar nada errado para corrigir, somos incapazes de dizer em que sentido poderemos progredir.

Caramba! Então, se é assim, é melhor nem começar o campeonato, dirão os mais afoitos. Bem, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Na verdade, a Williams pode ter feito, como fez, um baita carro. Mas vai enfrentar algumas dificuldades na temporada que começa à meia-noite de sábado (horário de Brasília), com a largada para as 58 voltas do GP australiano (o grid será definido a partir das 23h de sexta-feira, já que a diferença de fuso horário para Melbourne é de 14 horas).

O maior desfalque do time inglês em 97 é Adrian Newey, um Professor Pardal que radicalizou o conceito aerodinâmico do bico alto na Williams, algo copiado por todo mundo. Brigado com a equipe, porque recebeu uma proposta milionária da McLaren e a Williams não o liberou, o projetista não vai trabalhar no desenvolvimento do FW19. A demissão de Hill, em que pesem as críticas que muita gente faz ao campeão mundial, também pesa – não se deve esquecer que Damon foi um dos maiores responsáveis pela transformação dos carros da Williams em máquinas quase imbatíveis. De qualquer maneira, Jacques e Frentzen dispõem, hoje, do melhor equipamento que a F-1 pode produzir. Cabe aos adversários sair à caça. Com tais ingredientes, no lindo cenário do Albert Park, em Melbourne, o mundo começa a descobrir neste fim de semana se o canadense grunge que usa boné do Mickey é só um falastrão, ou se sua lógica é daquelas que nem o sr. Spok contesta. A resposta será dada na pista.

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