Eu, 150 – 13/04/2001

Quando eu trabalhava na “Folha”, a gente tinha a mania de fazer títulos como esse. “Senna, 65”, para dar o número de poles do cabra. Ou “Romário, 45”, os gols do Baixinho. Parecia chique. Na verdade, era fácil e cabia em qualquer espaço.
Bem, vou usar a fórmula. Afinal, neste fim de semana completo a barbaridade de 150 GPs de F-1 como jornalista. O primeiro foi em Jacarepaguá, 1988. Não sabia direito nem para que lado os carros viravam. Antes, minha relação com a F-1 limitava-se a algumas corridas vistas das arquibancadas, o que era bem mais divertido. Principalmente no Rio.

E tinha de ser bem em Imola. O 100º, se bem me lembro, foi em Buenos Aires. Fui me dar conta do número à noite e, creio, me pagaram um bife de choriço. Mas tinha de ser em Imola o 150º, esse lugar esquisito onde todos nós, jornalistas que cobrem a F-1, passamos por coisas do arco da velha.

Mas aquilo foi há sete anos. Se eu disser que Imola, hoje, me traz lembranças amargas, que me deprime, me joga para baixo, estarei mentindo. Já passou, essa é a verdade. No primeiro ano depois de maio de 1994, fui à Tamburello fazer uma reportagem e não me senti bem. Quase fui preso tentando pular o alambrado para dentro da pista. Achava, na época, que todos os anos as imagens e as situações do acidente viriam à tona. Impressão reforçada no ano seguinte, acho, quando um sujeito inaugurou uma estátua de péssimo gosto – a coisa, essa sim, mais deprimente que já vi. Parece que ainda está lá, do lado interno da curva, mas nunca mais voltei para conferir.

Bem, já passou.

Imola, na verdade, é um lugar simpático que não merece ser estigmatizado por nada. A região é lindamente melancólica e sempre gostei de vir à Itália. Come-se bem sempre, o vinho da região é maravilhoso, as pessoas são hospitaleiras, simpáticas, amistosas e divertidas.

Cobri meu primeiro GP de San Marino em 1991. Desde então, fico sempre no mesmo lugar, o Albergo Franca, em Riolo Terme. É uma cidadezinha vizinha de Imola, para o lado oposto de Bolonha, o que me livra do tráfego. O único ano em que não me hospedei no Franca foi 1994. Não significa nada, mas vale o registro.

O Franca é de um casal que virou amigo, Paolo e Patrizia. Andrea, o filho, eu vi de colo. Hoje, com11 anos, é quase maior do que eu, o que não chega a ser nenhuma vantagem.

Paolo torce para a Juventus e tem guardados os ingressos dos principais jogos a que assistiu. Esteve na Copa de 1982 na Espanha, também, e todos os anos nos sentamos para tomar uma sambuca à noite e falar do time do Telê contra o time do Paolo Rossi. Há alguns anos, ele teve de fazer um transplante de rim. Foram dias duros. Fazia hemodiálise, vivia derrubado. Hoje esbanja saúde e alegria. Fico feliz.
Patrizia, a mulher, é quem me serve um capuccino todas as manhãs. Uma simpatia, está sempre querendo saber dos meus filhos, vivo prometendo fotos que nunca trago. Sou meio desligado nessas coisas. Nesses dez anos de Franca, o máximo que trouxe para Paolo e Patrizia foi um boné da Portuguesa e uma foto de meu filho mais velho que, na verdade, estava comigo para matar a saudade e acabei deixando com eles.
Riolo Terme. É quase uma aldeia, que só funciona a partir de maio com suas pensões simples ocupadas por velhinhos aposentados que vêm para cá passar o verão. Em setembro, Paolo e Patrizia fecham o Franca e vão viajar. Nunca estiveram no Brasil. Depois da corrida, fecham o hotel até a primeira semana de maio e, no intervalo, pretendem conhecer Fortaleza, Recife e Salvador. Boa escolha.

Quando vim a Imola pela primeira vez, lembro que entre um treino e outro na sexta resolvi dar um pulo numa pracinha próxima ao autódromo. Parei numa sorveteria e tomei um “gelato” de creme com calda de morango. É uma de minhas lembranças mais doces da F-1. Naqueles tempos estava começando, não tinha muitos amigos e passava muito tempo sozinho. Eu era mais ingênuo e me encantava em vir à Europa.

O encanto, com tudo, vai acabando com o tempo. É uma pena. Acho que todos nós um dia fomos melhores do que somos. O sorvete de creme com calda de morango também.

* A Colina da Paixão, marco de Imola, em foto do ano passado.

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