GP Tour: A mais feia de todas – 27/02/2001

Pode parecer maluquice atravessar o mundo, encarar 19 horas dentro de aviões, chegar à Austrália e ter como único assunto para um texto que se pretende turístico — isso aqui se chama GP Tour, certo? — a feiura de uma credencial.
Bem, que seja perdoada a maluquice, mas vou ser obrigado a falar da minha credencial, deixando as belezas da Austrália para amanhã.

Um horror. É a FIA que emite as permanentes da imprensa escrita e todo ano, confesso a futilidade, fico ansioso para pegar a minha. Afinal, vai me acompanhar por oito meses, e é conveniente que com ela eu tenha um bom relacionamento.

Não terei, nesta temporada. O cara pago para desenhar nossos passes caprichou nesta temporada. A credencial sequer faz menção ao campeonato para o qual estou credenciado. Tem uma foto mandraque do Hakkinen no meio de um monte de microfones e só. No verso, um 3 x 4 meu distorcido, o mesmo que forneço à FIA há três anos. E nada mais. Nem um carrinho, nem uma mísera referência à F-1, exceto um minúsculo logotipo, também no verso, invisível a olho nu.

Não que seja afeito a desfilar de credencial pendurada no peito por aí. Mas às vezes acontece, e ajuda quando se vai a um pequeno comércio local atrás de adaptadores para o computador. Embora eu tenha todas as conexões possíveis, porque elas mudam de país para país, sempre esqueço em casa e sou obrigado a sair correndo para comprar novas quando chego a algum rincão distante para cobrir uma corrida. O que faz de mim um colecionador respeitável de conexões para telefones.

Com uma credencial compreensível, até o mais bronco dos vendedores sabe que está falando com alguém que trabalha na F-1, o que pode render um desconto, uma piadinha, um bom papo, depende do humor — meu e do vendedor. Mas, com essa, prevejo dias difíceis pela frente. O cartão magnético nem forma de cartão tem. É curvo nas bordas. E, laranjão, lembra alegoria de Carnaval. Dá até vergonha. Vou andar com essa credencial escondida sob a camiseta. Talvez no ano que vem façam uma coisa mais apresentável.

Dia 1– É difícil aproveitar um dia, por mais lindo que seja, mesmo que numa cidade exuberante como Melbourne, depois de passar tanto tempo em aviões e de enfrentar diferenças de fuso que chegam a 16 horas. Escrevo às 4h da quarta-feira, 14h da terça no Brasil. Nem sei direito em que dia estou, o sono ficou numa poltrona qualquer da econômica da Qantas e possivelmente vou dormir até meio-dia amanhã (ou hoje, sei lá).

Cheguei a Melbourne pela manhã aqui, peguei um carro horrendo (já vi carro feio; o meu Toyota verde bateu todos os recordes, combina com a credencial) e, como de costume, errei o caminho para o hotel. Todo ano erro, mas pelo menos cometo o mesmo erro e fica fácil de corrigir. OK, você quer uma dica turística, lá vai. Para as primeiras horas em Melbourne, antes de descansar do voo, dê um pulo na praia de Santa Kilda, pertinho do Albert Park. Tem um grill simpático, o Santa Kilda Beach, come-se uma boa porção de batatas gratinadas com sour cream e toma-se uma boa Fosters gelada.

Depois, um breve passeio pela praia, cheia de gays e mocinhas fazendo topless. É uma praia bonita, apesar do vento meio gelado. Prefiro Porto Seguro, mas vá lá. À noite, se você conseguir se manter acordado até a noite chegar, vale um pulinho no Crown, um complexo que junta hotel, cassino, lojas e restaurantes, à beira do rio. Tem um restaurante particularmente bom, o The Duck, onde dá para tomar até caipirinha de vodca, porque no ano passado ensinei o barman a fazer, enquanto esperava minha mesa. Não é uma caipirinha inesquecível, porque eles não têm limões Taiti aqui, mesmo o Taiti sendo bem mais próximo da Austrália do que do Brasil. Mas dá para encarar.

Comi carne de canguru no ano passado e pretendo repetir amanhã. Depois conto se estava bom. A batata assada que jantei hoje não merece grandes referências.

Cesta básica – É preciso se preparar para viagem tão longa, e na minha bagagem de jornalista tarimbado pode faltar tudo, menos o computador e alguns livros. O computador felizmente veio e está funcionando apropriadamente. É um Ferrari (Acer, na verdade, mas como Acer é o nome do motor Ferrari da Prost neste ano, considero lícito estabelecer algum parentesco entre meu laptop e os motores da F-1).

Dei sorte com os livros. Comprei “Autópsia do Medo”, de Percival de Souza, e “Pilatos”, de Carlos Heitor Cony, no aeroporto. Não comecei a ler o primeiro, mas o segundo já está no fim. É a coisa mais escatológica que já li, e revela uma veia humorística do Cony que eu não conhecia. Morro de inveja do Cony. Ele escreve como eu gostaria de escrever um dia. Mas não se pode ter, nem ser, tudo na vida.

Carnaval – Para terminar, algumas palavrinhas sobre o Carnaval. Não vi nenhum desfile do Rio, porque quando a primeira escola entrava na Sapucaí eu entrava num Boeing apertado para Buenos Aires. O trajeto é esse, São Paulo, Buenos Aires, Auckland e Melbourne.

Mas isso não lamento. Não me perdoo, mesmo, de não ter visto meus dois moleques fantasiados de palhacinhos em seu primeiro bailinho de Carnaval. Foi domingo, no Guarujá. E eu atrás de carros de corrida. Palhaço sou eu.

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