O CASAMENTO – 04/08/1995

Casamento é uma das coisas mais aborrecidas do mundo. Arrepio-me quando chego em casa, à noite, e noto sobre a mesa um daqueles envelopes enormes, com caligrafia rebuscada convidando Sr. e Sra. Flavio Gomes para a cerimônia religiosa etc., como se minha mulher se chamasse Flavio Gomes também (eu jamais me casaria com alguém que se chamasse Flavio). É sempre um transtorno. O terno, o nó da gravata (um dos maiores flagelos da humanidade, dar nó em gravata), o sapato, a meia, o cinto, o horário, o dia, o presente. Convidados se preocupam muito mais num casamento que os noivos. Felizmente sou chamado para poucos. Padrinho, só uma vez. E faltei, porque tinha corrida em Barcelona no mesmo dia. Enviei meu irmão como representante e num gesto de enorme generosidade ainda emprestei meu DKW para levar a noiva, o que se revelou um desastre porque o carro quebrou a dois quarteirões da igreja. Houve um problema no cabo da embreagem, que se rompeu. Largaram o calhambeque no meio da rua e a moça, toda de branco, chegou a pé, esbaforida e com a maquiagem borrada. Podem ter me xingado na hora, mas pelo menos eles têm uma história para contar. Não entendo porque romperam relações comigo. Hoje, sabadão, casam-se na Alemanha Michael Schumacher e Corinna Betsch, que passará a ser tratada de Sra. Michael Schumacher. Olá, sra. Michael Schumacher, como vai?, dirá a manicure daqui em diante. O piloto vai chegar à capela de São Pedro do Monte Petersberg, às margens do rio Reno, perto de Bonn, de helicóptero. Não sei se emprestado. O padre Heinz-Peter Schoening vai celebrar o matrimônio, o primeiro desde a construção da igreja, em 1764, de alguém que não faz parte da paróquia. As fotos foram vendidas por U$ 350 mil para a revista Bunte. A festa está marcada para um hotel que costuma servir de residência oficial aos convidados do governo alemão. É um antigo castelo com 70 quartos. A suíte nupcial custa U$ 860 por dia. Schumacher reservou todos os apartamentos para seus convidados. Como disse, não aprecio muito casamentos. Tenho horror a empadinhas, coxinhas e croquetes de carne. Odeio bolo, não gosto de champanhe e fico deprimido quando ouço música de órgão eletrônico. No meu, levei uma banda de rock e achei legal. Mas não escapei dos salgadinhos, nem do vinho branco em garrafa azul e da orgia alcoólica movida a uísque seis anos. Evitei fotógrafos japoneses com seus paletós puídos e câmeras Roleiflex espoucando flashes por todos os lados. O resultado é que o momento das alianças acabou não sendo registrado, o que motivou minha primeira crise matrimonial. Mas confesso que me sinto ligeiramente desprestigiado por não ter sido convidado para o casamento do Schumacher. A festa tudo bem, eu abriria mão. Mas queria ir à igreja. Não há nada como uma noiva, alva e feliz, encontrando um marmanjo com cara de bobo no altar. Tinha escolhido até um presente bacana para eles, uma bandeja de aço inox que sobrou do meu.

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COMO MELHORAR A F-1 – 09/06/1995

São sempre muito divertidas as discussões entre os defensores da F-1 e os new-fans da Indy para se saber qual é a melhor. Os americanóides defendem a turma de Fittipaldi & cia. baseados no argumento da competitividade e do respeito ao público, que nunca sabe quem vai ganhar as corridas até a última volta. (Em geral, o público nos EUA não sabe quem ganhou nem depois da corrida, o que não quer dizer muito, porque para americano o que importa é ter o que fazer aos domingos, e se ele puder ir a algum lugar onde um monte de gente também vai, para ver uma porção de carrinhos coloridos correndo um atrás do outro e alguns, eventualmente, se espatifando no muro, OK, o fim de semana está ganho.) Apesar de concordar com quase tudo com a mesma ênfase com que discordo, arrisco alguns palpites para melhorar a F-1, já que é dela que vivo no momento. No dia em que for para a Indy, farei algumas sugestões, também. Pois vamos a elas: 1) Pilotos com mais de 30 anos só podem se inscrever no Mundial se tiverem algum parente em outra equipe. Um sobrinho, primo, irmão ou afilhado. Se não houver ninguém na família, azar. Mude de família. 2) Criação da bandeira rosa. Ela será acionada quando houver algum acidente na pista. Até a liberação, os carros ficam em fila indiana, as diferenças de tempo são eliminadas e estarão criadas as relargadas. Não tem nada a ver com o que acontece na Indy, onde a bandeira é amarela. São cores totalmente diferentes. 3) Duas largadas: uma com os carros parados, para a volta de apresentação, e outra com os carros em movimento, assim que o diretor de prova mostrar a bandeira do Botafogo e o pace-car der um cavalo-de-pau na entrada dos boxes. Muito mais criativo, podem crer. 4) Apenas dois mecânicos autorizados a trabalhar nos carros nos pit stops. Um para reabastecer, outro para trocar os quatro pneus. Mas atenção: só um box estará equipado para o serviço. As filas serão imensas nos pits, dando tempo ao público de ir buscar um cachorro quente atrás das arquibancadas, ou uma cerveja na cozinha. 5) Número de voltas dos GPs indeterminado até momentos antes da largada. Quando todos tiverem alinhado, o diretor mostra uma placa indicando a duração da prova. Mínimo de duas, máximo de 500. O valor seria definido através de um sorteio em Brasília, com transmissão ao vivo para todo o mundo, exceto para o país onde acontece a corrida. 6) Obrigatoriedade do uso de dublês, pelo menos quatro, em todas as corridas. Um sorteio determina quais pilotos ficarão de fora por GP para dar lugar a personalidades importantes de cada país. Só no final da corrida seriam revelados seus nomes, o que é garantia de prender a atenção do público. No Brasil, por exemplo, poderiam ser escalados o Tony Ramos, a Camila Pitanga, o José Sarney e a Aracy Balabanian. Na França, François Miterrand, Platini, Jean-Paul Gaultier e Isabelle Adjani. Na Espanha, Antonio Banderas, no Japão, Kazuo, na Inglaterra, Margareth Thatcher, e por aí vai. São pequenas sugestões, modestas, nada mais. Não cobro nada por elas.

MIGUEL CHUMÁQUER – 02/06/1995

A solução está na pequena cidade de Estrela, no Rio Grande do Sul. Logo ali, pertinho de Lajeado, Encantado e Garibaldi. Dizem que em Estrela o idioma oficial é o alemão. É de se supor, pois, que tal abundância de tedescos leve à descoberta de algum parente distante de Michael Schumacher em Estrela e adjacências Quem sabe, até, de algum antepassado indiscutível. Uma investigação rigorosa conduzida por alguém com um mínimo de disposição pode salvar a Fórmula 1 para os brasileiros. Confesso que tentei, nos últimos dias, ficar com o mérito todo para mim. Abri a lista telefônica de São Paulo e encontrei ali 16 Schumachers. Alguns promissores: Franz, Fritz e Hermann. Tinha até um Ralf, igual ao irmão de Michael. Mas todos me garantiram que não há parentesco, alguns sequer assistem às corridas, outros torcem para o Frentzen. Assim, passo a bola para os gaúchos. Cabe a eles, agora, acorrer aos cartórios, aos arquivos empoeirados das paróquias, aos tabeliões, para provar ao mundo que Michael Schumacher é brasileiro. Brasileiro, sim, como o Pelé, o João do Pulo e o Cid Moreira. Que seu tataravô esteve nos pampas no fim do século passado e deu origem ao ramo familiar do qual eclodiu o alemãozinho de queixo empinado que não se cansa de ganhar corridas. Ele tinha uma mercearia, ou um abatedouro, talvez uma charqueada, quem sabe não plantava pepinos, ou, melhor, era sapateiro, dos mais conceituados. Trazida à tona a verdadeira descendência de Schumacher, é só iniciar um processo junto ao Itamaraty para naturalizá-lo. Em pouco tempo ele terá um passaporte verde e estará torcendo para o Grêmio. Pode-se pensar em mudar seu nome, também, para Miguel. Aportuguesemos seu sobrenome para Chumáquer. Vai ser fácil, igualmente, ensiná-lo a falar Xuxa (Schú-scha, repetirá o professor, à exaustão), Flamengo, acarajé e Mocidade Independente de Padre Miguel (se ficar complicado, trocamos para Portela). Depois é só colocá-lo no Sambódromo, fazê-lo comprar um Fusca turbinado, levá-lo para o Nordeste nas férias, arrumar uma casa em Angra, acostumá-lo a uma bela feijoada, a um bom rodízio, a uma casquinha de siri com caipirinha e umas bramas, até o golpe final: encaixar o novo ídolo brasileiro da F-1 no Jô, no Gugu, no Jogo da Velha do Faustão, na Gabi e no Amaury Jr. E estará pronto nosso novo Senna, aquele que vai nos redimir, que subirá ao pódio com a bandeira verde-amarela, que trará de volta o Tema da Vitória às manhãs de domingo. Mexam-se, sulistas. O Chumáquer é nosso e ninguém tasca.

CHATO É VOCÊ – 05/05/1995

Também acho que a Fórmula 1 está em crise, às vezes é um saco, mas estou de mau-humor e, por isso, tirei o dia para defender o indefensável. Devo deixar claro que isso se deve ao fato estritamente pessoal de não aguentar mais gente me dizendo ih, a Fórmula 1 acabou, nunca mais vi uma corrida, ih, esse Rubinho sei lá, ih, a Indy é que é legal, ih, depois que o Senna morreu perdeu a graça. Pois bem. Falando francamente, tinha graça na época do Senna? Imagine o cara lá em Dusseldorf, por exemplo, assistindo pela TV a temporada de 88. Só dois carros ganharam GPs. De uma equipe apenas. Um francês e um brasileiro (não esqueci a vitória de Berger na Itália, antes que alguém diga que não entendo nada). Não tinha nenhum alemão na pista. Cadê a graça? E em 90? Pense no pobrezinho perdido entre ovelhas na Nova Zelândia tendo que acordar de madrugada para ver Prost e Senna, e só eles, disputando vitórias. Lá atrás, figurinhas como Alex Caffi e Bernd Schneider, os Schiatarellas da época. Era um porre. E em 92? Mansell, Mansell e Mansell. Alguém de fora daquela ilha gelada gostou do Mundial? E em 93? Dá para acreditar que o campeonato foi legal para quem vive longe do Vale do Loire ou não come croissant? A Fórmula 1 é assim desde sempre. Como no futebol, o domínio dos grandes se repete a cada temporada. A Williams sempre será uma candidata a títulos, assim como o Cruzeiro em Minas e o Inter no Rio Grande. Nem que a linha de ataque desses times seja formada por Piaba, Zé Tijolo e Manequinho. Time grande é time grande. Alguém se lembra da Minardi ganhando um GP para ameaçar a hegemonia do pessoal de ponta? Não. A POrtuguesa também não ganha o Campeonato Paulista. Esportivamente falando, a morte de Senna equivale às aposentadorias de Lauda, Prost e Piquet. Mas se Ayrton, em vez de morrer num acidente doloroso como aquele, tivesse decidido criar galinhas em Goiás o mundo estaria resmungando que a Fórmula 1 acabou? É provável que não. Olhem friamente para esta temporada. A primeira corrida teve três vencedores. Primeiro o Schumacher, depois o Berger, depois o Schumacher de novo. Não há do que reclamar. O sujeito pagou ingresso para um GP só e viu três! Na Argentina, foi a vez do Hill ganhar e do Coulthard, um semi-estreante, fazer a pole sob um dilúvio. Em Imola, Schumacher deu uma cacetada maravilhosa, Alesi quase deu um tiro em Coulthard numa disputa memorável e o Hill ganhou de maneira impecável. Não tá bom? Não tá legal? Então vá ver corrida de Fusca, que é tudo igual e anda todo mundo junto.

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS – 07/04/1995

A Fórmula 1 não poderia escolher cenário melhor para discutir suas últimas polêmicas do que Buenos Aires. A história da gasolina da Benetton e da Williams dá um belo tango. O último tango em Paris, lembram-se? Vai ser executado na próxima quinta-feira na sede da FIA na capital francesa, mas infelizmente nem Marlon Brando, nem Maria Schneider vão estar presentes. Eles eram bem melhores do que Max Mosley, Flavio Briatore e a turminha que decide no tribunal o resultado de uma corrida. Ontem a Elf, que faz as gasolinas das equipes proscritas, desafiou os atores de plantão e que ninguém se surpreenda se daqui a alguns dias Schumacher for declarado o vencedor do GP do Brasil. É um ganha-perde-ganha que ameaça minar o que sobrou de credibilidade à F-1. Se a FIA admitir que se precipitou ao cassar a vitória do alemão, vai ter que rebolar para explicar por que não manteve o resultado da corrida provisório até que novas análises fossem feitas na Europa. Dizem que Bernie Ecclestone, o manda-chuva da categoria, teria exigido uma definição naquele domingo porque o público no autódromo não poderia voltar para casa sem saber quem ganhou o GP. Que público no autódromo? Quando saiu o resultado, lá pelas oito da noite, só estavam em Interlagos eu e o pessoal da faxina! Os jornais europeus rodaram sem vencedor. O pessoal que foi ver a corrida estava comendo pizza quando Berger soube que ficou em primeiro lugar. E eu fui dormir sem jantar por causa daquele blá-blá-blá. Se amanhã perder meu bife de choriço por causa de gasolina, de novo, prometo processar a FIA.* É digno de nota: Carlos Reutemann, anteontem, foi a única coisa interessante que passou pelo autódromo na abertura do GP da Argentina. Aos 53 anos, guiou como se fosse um garoto. Deixou a impressão de que se ainda estivesse correndo profissionalmente colocaria no bolso metade dessa molecada que hoje está na F-1. É só dar uma olhada na lista: Domenico Schiatarella, Andrea Montermini, Taki Inoue, Pedro Paulo Diniz… Se juntar todos, não dá um. Que voltem os velhinhos. Tem que acabar essa moleza de piloto se aposentar aos 40.

A FIA ACERTOU – 20/03/1995

É preciso reconhecer: a FIA deu um banho de habilidade na semana passada ao reconduzir Schumacher e Coulthard aosprimeiros lugares do GP do Brasil. Foi uma solução tão genial quanto surpreendente. Eu mesmo, na véspera, apostava comamigos que acham minha bola de cristal a mais polida do bairro que o Berger seria confirmado vencedor ,etc. Falava isso comaquele ar de enfado típico do sujeito que sabe tudo, como se o Gerhard tivesse me telefonado algumas horas antes pra baterpapo. Ainda bem que a aposta foi baixa. Perdi dois conhaques, uma caipirinha e um guaraná diet para um abstêmio maluco que torcepara a Ligier. No dia seguinte, quase caí da cadeira quando chegou por aqui o comunicado de Paris com o resultado dojulgamento. A genialidade está em satisfazer todo mundo – menos Berger, claro. Os dois pilotos ficaram felizes da vida. Quem gosta doesporte pelo esporte, também. Afinal, Michael e David não têm culpa se o pessoal encarregado da gasolina trocou os frascosna hora da análise pré-temporada. Suas equipes não deram a menor importância para o fato de perderem os pontos noMundial de Construtores, um campeonato que só é levado a sério pela Ferrari, que acabou no lucro. A Elf, por fim, saiu dessahistória toda com um atestado de idoneidade. O combustível era legal e o problema foi administrativo, não petrolífero. Ninguémpode acusar os franceses de desonestos. No máximo, atrapalhados. O que, na balança, é um saldo favorável.* Me diverti muito esta semana acompanhando o tiroteio entre Schumacher e Berger pela imprensa européia. O alemãozinho nãoperde uma oportunidade sequer de ser deselegante, apesar do raciocínio de protozoário que expôe em suas enfadonhasentrevistas coletivas. Ameba que é, Michael costuma abusar de clichês e frases feitas e raramente diz mais do que Im veryhappy quando ganha ou Im very disappointed, quando perde. Só que desta vez ele foi bem. Disse que Geraldão da Ferrariseria um grande vencedor se pilotasse tão bem quanto faz relações públicas.Berger dava a impressão de ser um cara diplomático, mas respondeu à altura. Foi até maldoso quando acusou Schumacher deestourar champanhe em Imola no ano passado. É mentira, mas não importa. Torcedor de F-1 é fofoqueiro e adora umarabugice. Do jeito que estão as corridas ultimamente, se não tiver um mexerico aqui e outro acolá, eu vou escrever sobre o quê?