OINC-OINC – 15/11/1996

Coisa gozada. Quarta-feira passada fui ao Morumbi assistir Portuguesa e Palmeiras, ganhamos fácil, e na saída do estádio levei um pontapé de um palmeirense cretino só porque eu estava com a linda camisa do meu time.

No dia seguinte viajei para os Estados Unidos para torrar uma grana e muita gente ligou meu sumiço ao pontapé suíno. Teve gente que achou que eu estava internado no Albert Einstein.

Não estou, mas depois de seis dias de Miami, seria o caso. Cheguei com a síndrome do shopping, porque Miami e redondezas nada mais é do que um imenso shopping cercado de estacionamentos.

Os caras só vendem e compram, ninguém faz mais nada além disso. E vendem as maiores idiotices do mundo, como um bip que apita se você não abaixa a tampa da privada, um chaveiro onde você grava o lugar onde parou o carro para não se esquecer, um haltere que quando levanta conta “one-two-three”… Comprei os três.

Voltei para votar nesta sexta-feira e na minha mesa repousavam vários faxes. Pelas estatísticas (os americanos adorariam), 36,4% eram mensagens de estimo as melhoras, 21,9% sobre Fórmula 1, 33,7% sobre corridas em geral e o resto era engano. Vamos, então, aos 21,9% de Fórmula 1.

Primeiro, da Sauber. Segunda-feira, a equipe suíça anunciou uma parceria com a Ferrari para ter os mesmos motores V10 da equipe italiana no ano que vem. Um acordo de transferência de tecnologia. No dia seguinte, a Ferrari cancelou o trato, porque não gostou do anúncio precipitado.

Quinta-feira, dia 14, o Hill fez o primeiro teste com o pessoal da Arrows, em Suzuka, usando um carro Ligier com pneus Bridgestone. Bateu e arrebentou o carro de testes. Começou bem. Também na quinta, a “Auto, Motor und Sport”, revista alemã, disse que a BMW e a Porsche vão voltar à F-1. A BMW com a Williams e a Porsche com a Benetton, ambos a partir de 1999. Ainda segundo a revista, em 98 as duas equipes deverão usar os motores Renault, mesmo com a fábrica afastada da categoria. Registrado.

A Minardi, sexta-feira da semana passada, fechou com a Hart e vai ter esses motores em 97. Tarso Marques pode correr pela equipe se der certo uma negociação tentada por Flavio Briatore: mandar o Alesi para a Jordan e colocar no seu lugar o Giancarlo Fisichella, que por sua vez está escalado para disputar o próximo Mundial na Minardi.

E é só. Fui para Miami, trouxe um monte de quinquilharias, comprei uma TV que não sei se funciona, comi centenas de asas de frango e hambúrgueres, voltei e coloquei o noticiário em dia.

Tchau e até a semana que vem, porque agora vou chutar um palmeirense pra ver se ele faz oinc-oinc.

Advertisements

BALESTRE FICOU GAGÁ – 08/11/1996

Todo mundo se lembra de Jean-Marie Balestre. Há sete anos ele se transformou no inimigo número 1 do Brasil, ele e seu protegidinho, Alain Prost. Lembro que naquela época eu vivia discutindo com meu irmão mais velho, fã de carteirinha do nanico, tinha até um pôster no quarto dele. Não que eu fosse um sennista histérico, como tantos que conheci, mas para contrariar o irmão mais velho a gente torce até pro Mansell. E torcer pro Senna era fácil, o homem ganhava tudo etc. tal.

O auge do ódio nacional a Balestre ocorreu no final de 89, depois daquela corrida histórica de Suzuka. Senna ia passar Prost na chicane, que jogou o carro em cima, abandonou e ficou roendo as unhas até o final da corrida, porque Ayrton foi empurrado pelos comissários, cortou a chicane, trocou o bico, saiu dos boxes como um louco, ultrapassou Nannini na mesma chicane e ganhou o GP do Japão numa recuperação memorável.

Ganhou e não levou. A direção de prova, com razão, desclassificou Ayrton porque ele recebeu ajuda externa e na volta da batida retornou à pista pela área de escape. Foi uma desclassificação, do ponto de vista legal, absolutamente correta. Do ponto de vista filosófico, injusta — principalmente porque Prost, o vilão da história, conquistou o título por causa da desclassificação de Senna.

O Brasil achou e elegeu o culpado rapidinho: Balestre, francês como Prost, presidente da FIA e da extinta Fisa, a quem respondia a direção de prova. É claro que Balestre não colocou o dedo na decisão de desclassificar Senna, nem precisava, porque a situação de ilegalidade era muito clara. Mas nesta semana, sem mais nem menos, Balestre resolveu dizer que deu uma mãozinha para Prost. Senna, na época, acusou o dirigente de manipular o campeonato, levou um gancho de seis meses que só não foi cumprido porque ele pediu desculpas publicamente.

As declarações de Balestre agora dão razão a Senna, dirão os sennistas. Balestre está gagá, respondo eu. Velho, esquecido, encostado num cargo decorativo da FIA, Jean-Marie, que no convívio pessoal é um sujeito sensacional, engraçado, espirituoso, resolveu aparecer. Quis dizer que quando era presidente determinava quem podia ou não ser campeão. Bobagem. Balestre nunca teve tamanho poder. Ele poderia entrar para a história apenas como o bruxo autoritário e espalhafatoso que esteve em Interlagos, em 90, todo vestido de preto, dizendo sentir prazer ao enfrentar a massa enfurecida. Era um pândego. E seu lugar na história também estava garantido, sobretudo, pela incansável luta por maior segurança dos carros e dos autódromos. A Balestre muitos pilotos devem sua vida.

Mas não. Balestre resolveu falar mais do que devia. Perdeu uma grande chance de ficar calado.

O ABUTRE FELIZ – 03/11/1996

Já vi algumas tragédias e talvez por não gostar delas resolvi um dia que iria trabalhar com esportes, futebol, corridinhas de carros, joguinhos olímpicos, essas coisas que no máximo geram meia dúzia de lágrimas despretensiosas por uma vitória ou uma derrota.

Pouco mais de dois anos atrás dei de cara com a maior desgraça de todas, aquele fim de semana cinzento de Imola e tudo que aquele muro representou. Foi quando vi pela primeira vez alguém morrendo na minha frente, sensação desagradável, diga-se. E no dia seguinte vi o segundo morrendo, o que já era o bastante para trinta anos de vida, minha cota estava esgotada.

Anteontem eu estava acordando, às oito e meia da madrugada, quando ouvi no rádio o repórter Aluane Neto, da Jovem Pan, que sobrevoava a cidade para dar informações sobre o trânsito, fazer um dos relatos mais dramáticos que já ouvi. Na verdade foi minha mulher, já acordada, quem levou a notícia aos meus neurônios adormecidos. Caiu um avião, ela gritou do banheiro. Como caiu um avião?

Nós, jornalistas, temos pouco do que nos orgulhar, e mesmo o único orgulho, de ser jornalista, é muitas vezes discutível. Mas é o que nos resta, enfim. Em São Paulo, além de escrever sobre corridas de automóveis, sou também o que se chama de âncora de um noticiário diário na mesma Jovem Pan. Meu programa começa às cinco e meia da tarde. O resto do dia me considero um repórter, gosto da coisa, de falar para muita gente ouvir, ou ler.

E foi como repórter que em quinze minutos levantei, tomei um café morno, uma chuveirada, montei na minha moto equipado apenas com um telefone celular que quase nunca funciona e saí de casa feito louco. Moro mais ou menos perto do aeroporto de Congonhas, uns dez quilômetros, no máximo, de onde caiu o Fokker da TAM, que até aquele momento, quinze para as nove, era um jatinho, ou um Boeing, ou ainda um Jumbo, ninguém sabia exatamente. Eu não sabia nem onde tinha caído.

Passei quatorze horas no ar, com um microfone na mão e um fone no ouvido. Vi corpos carbonizados, mutilados e destroçados. Vi sangue e destruição, senti o cheiro da morte e da vida dos que se salvaram, falei com gente que nunca mais vou ver, conheci o drama de pessoas que nada têm a ver com minha vida, minhas viagens, autódromos, hotéis e motores.

Não sei bem porque estou falando de uma experiência tão pessoal, que poderia ficar só comigo, afinal quem se importa com o que pensa um cara que passa o ano atrás de pilotos? Voltei para casa à meia-noite, olhei no espelho e me perguntei por que, diabos, não derramei uma lágrima por cem mortos. Por que, caramba, não fiquei sequer chocado ao ver restos de carne queimada que um dia foram vidas, como a minha, como a sua. E, sobretudo, me perguntei por que, no fundo, sentia uma satisfação muito íntima de ter cumprido o que acho ser um dever, por mais sórdido que possa parecer esse pensamento.

E confesso que não me culpei por nada, nem pela ausência quase absoluta de sentimentos, nem pela frieza da ação, confesso que dormi como sempre durmo, que jantei sem nenhum embrulho no estômago, e que acordei no dia seguinte como sempre acordo, atrasado, correndo, telefonando, lendo os jornais enquanto mastigava uma torrada com requeijão. Não me culpo, porque sei que não sou um abutre ávido por tragédias, e porque em um momento, em apenas um, me senti humano. Foi quando olhei, no escuro, a janela aberta de uma casinha geminada, o quarto que sobrou debaixo da turbina, com o vento batendo de leve nas cortinas simples de gente pobre, um beliche e um berço, intactos. Dali, eu soube, saiu um bebê de um ano e meio vivo, inteirinho da silva. Isso me deixou feliz. É um alento saber que ainda se pode ficar feliz por alguma coisa.

OS PORTEIROS DEPRIMIDOS – 25/10/1996

Pouca gente sabe, muito pouca gente, mas neste fim de semana em São Paulo acontece uma corrida sensacional, um evento internacional da FIA, com 12 ex ou atuais pilotos de Fórmula 1, gente como Alessandro Nannini, Christian Fittipaldi, Giancarlo Fisichella e Jan Magnussen. São 25 carros de três gigantes da indústria automobilística mundial, a Alfa Romeo, a Mercedes-Benz e a Opel. Eles têm câmbio semi-automático, controle eletrônico de tração e suspensão ativa. Tudo que a F-1 proíbe, o cúmulo da tecnologia, se me permitem a piada.

Estou em Interlagos neste momento. Faltam sete minutos para as três da tarde na sala de imprensa do autódromo. à minha frente, no fundo da sala, vejo três jornalistas alemães conversando desanimados. à direita, um brasileiro. E eu. Cinco no total, para uma sala de imprensa onde cabem, pelo menos, 200. Sete meses atrás, aqui mesmo, uma multidão batucava freneticamente os teclados de seus computadores logo depois do primeiro treino para o GP do Brasil de Fórmula 1.

Interlagos vive neste fim de semana talvez o maior exemplo de desperdício de sua história. Nunca um evento tão bom e importante foi tão mal organizado e divulgado. O ingresso mais barato para domingo custa 72 reais. Para os três dias, 135. Um roubo. Nas arquibancadas, ninguém. Já assisti jogo da Portuguesa terça-feira à tarde no Canindé com muito mais gente.

Até os porteiros e seguranças estão deprimidos. “Não tem ninguém para barrar na entrada, não dá para implicar com nenhum chato. Ninguém sabe que tem essa corrida aqui”, disse um deles, que todos os anos me pára na porta do autódromo para ver minha credencial e ainda faz cara feia. Bem feito pra ele, vai passar três dias deprimido, tomara que chova bastante.

A culpa toda é dos organizadores, representados pelo húngaro naturalizado brasileiro Tamas Rohonyi, o mesmo que cuida da F-1, o homem de Bernie Ecclestone no Brasil. Não gastou um tostão em divulgação ou promoção, não organizou nenhum evento de apresentação, não fez nada, e ainda quer cobrar preços malucos, que ninguém vai pagar.

Interlagos vai estar às moscas amanhã. Ninguém vai ver o Emerson dando uma volta num Mercedes marrom lindo de morrer, que antes da largada será entregue ao seu sobrinho Christian. Ninguém vai ver o Tony Kanaan, vice-campeão da Indy Lights, com seu Opel Calibra que parece a supermáquina daquele seriado da TV que nem sei se existe mais. Azar. O ITC acaba no ano que vem, já que a FIA estragou esse campeonato, nascido como DTM na Alemanha com corridas que arrastavam 100 mil pessoas aos autódromos europeus. Azar. Eu pelo menos vi. E não dá para dizer nem que é coisa de brasileiro, que não sabe fazer as coisas direito. Desta vez o sujeito que estragou tudo é húngaro.

Antes de terminar: acabou de tocar o celular, o Ivan, um amigo que está aqui na arquibancada, no setor D. “Flavinho, o que tá acontecendo? Tem eu e um casal na arquibancada toda!” Nada. Não tá acontecendo nada.

PAI GOMES DE OGUM – 18/10/1996

Sabe aqueles caras que jogam búzios, adivinham o futuro no tarô, têm visões extraordinárias, preveem terremotos e doenças de artistas? Pois é, todo começo de ano eu coloco um turbante, jogo o peixinho na pia, viro o aquário de cabeça para baixo e me transformo no Pai Gomes de Ogum, o homem que faz previsões para a temporada de F-1. A clientela é escassa, mas rende algum.

Hoje resolvi buscar na memória empoeirada de meu computador as bobagens que disse no início de 96. Até que acertei algumas. Da Benetton, por exemplo, disse que precisaria se acostumar a viver sem o Schumacher e que lutaria para provar que ainda era grande. Disse também que o Alesi faria muitas besteiras e que o Berger ia ser tratado como segundo piloto. Qualquer um diria o mesmo, mas acertei, afinal.

Sobre a Williams: A mais forte candidata ao título, escrevi. Mas para isso também nãoprecisava ser adivinho. Do Hill, falei que seria a última chance, e que se não fosse o campeão, era melhor parar. De Villeneuve: Vai ganhar corridas, mas ainda não pensa no título. Fui bem, mas a Williams era mais fácil ainda que a Benetton.

A Ferrari, segundo meus búzios, iria quebrar bastante nas primeiras corridas, mas venceria algumas na segunda metade do ano. Acertei na mosca, mas errei feio quando disse que o Irvine iria perturbar o Schumacher. Não fez nem cosquinha. Já a McLaren faria uma temporada melhor que a de 95. De fato fez: 49 pontos contra 30, mas ficou no mesmo quarto lugar. E eu também falei que o Coulthard ia fazer um campeonatão, para provar que a Williams errou ao trocá-lo por Villeneuve. Não fez nada.

Errei de novo na Ligier: Quer voltar a ganhar corridas, mas não será agora, escrevi. Panis venceu o GP de Mônaco. Sobre o Pedro Paulo, não arrisquei dizer nada. Mas sobre o Rubinho e a Jordan, fui otimista demais. Disse que ambos lutariam por pódios, e não lutaram. Falei também, sobre Barrichello, que ou ele vai muito bem e arranja um lugar numa equipe grande, ou desiste e vai parar na Indy. Nem uma coisa, nem outra. Ficou na F-1. Mas que falou em ir pra Indy, isso ele falou que eu ouvi.

Chutei que a Sauber ia lutar por pódios, mas acertei apenas em parte, porque o terceiro lugar do Herbert em Mônaco não vale. E disse que o Frentzen queria ser o melhor das equipes médias e que iria conseguir. Errei nos números, mas o Frank Williams concordou comigo e contratou o alemão.
O resto era fácil. A Arrows vai lutar por um pontinho quando todo mundo quebrar. Marcou um na Argentina. Com Mika Salo, a Tyrrell deve marcar alguns pontos em 96. Fez cinco. Da Minardi, disse que lutaria com a Forti pela lanterna do campeonato e que ficaria fora de algumas provas. Não previ a falência da Forti, que era uma barbada.

No balanço, o aquário e o turbante fizeram um bom trabalho. Poderia ter ousado afirmando que o Hill seria o campeão, embora eu tenha dito numa palestra em maio que quem ia ganhar era o Villeneuve, e um jornal registrou — isso pega muito mal. Mas tudo bem. Anteontem, animado com o índice de acertos, coloquei o turbante, o peixinho de nome Wando (não sei se é macho, em todo caso, achei legal ter um peixe chamado Wando) voltou à pia, e me concentrei para ganhar na Supersena. Corri à lotérica e joguei no 04-23-28-31-32-33. Errei, claro. Isso significa que no ano que vem vou ter que fazer previsões de F-1 de novo.

NOSTALGIA – 11/10/1996

É, acaba hoje. Hoje é dia, ou melhor, noite de juntar uma tchurma em casa para lembrar os bons tempos, aqueles tempos em que a gente se juntava para ver o Senna ser campeão em outubro, sempre no Japão. Creio que no ano passado, exatamente nesta época, escrevi a mesma coisa. Mas é inevitável a lembrança de Suzuka de madrugada, o Galvão Bueno e sua voz grave, a sensação de que algo muito importante estava para acontecer do outro lado do mundo. E de fato acontecia, sempre pintava um campeão por lá.

Anos melhores virão, escrevi aqui no ano passado. Vieram. Esta temporada foi bem melhor que a de 95, o Schumacher encantou com a Ferrari, a decisão ficou para a última corrida, os ingredientes dramáticos aí estão, um quase campeão demitido, um estreante meio mascaradinho, mas sem dúvida rápido, enfim, o Mundial de 96 foi legal, não metam o pau, aliviem, porque a F-1 está buscando seus caminhos.

Houve maus momentos, corridas chatérrimas, treinos de sexta-feira sem a menor emoção, mas houve também a ultrapassagem do Villeneuve em Portugal, o alemão na chuva em Barcelona, a festa inesquecível da Ferrari em Monza, a vitória de Michael em Spa, a chegada de seu irmão Ralf, a demissão de Hill e a surpreendente contratação pela TWR, notícia, enfim, não faltou.

Mas no Brasil ainda me perguntam todos os dias quando teremos um piloto de novo, etc. e tal. Não sei, respondo sempre, não sou agente de pilotos, olheiro, descobridor de talentos, funcionário do governo, nem embaixador. Sou um mero jornalista, cuja função é mostrar a algumas pessoas no meu país o que acontece nessas corridinhas por aí. Gosto do que vejo e acho que o espetáculo é bom, sejam os protagonistas brasileiros ou aborígenes, alemães ou esquimós.

Esta noite, mais uma vez, sai um campeão mundial. Quem não viu nenhuma corrida este ano porque são todas muito cedo, domingo de manhã é duro de levantar, assista hoje. A F-1 é bela, disputada, emocionante. Já foi mais, OK, mas o mundo também já foi muito melhor do que é, e nem por isso deixamos de viver.

MARMELADE – 04/10/1996

Me liga um amigo inglês. Anda faltando assunto por lá, o Hill já assinou, as equipes grandes já definiram seus pilotos para 97, e por isso o cara me ligou. Não que buscasse alguma novidade sobre os pilotos brasileiros, que andam meio por baixo, não são notícia. Ligou para bater papo, jogar conversa fora. Lá pelas tantas ele perguntou o que eu achava da decisão do campeonato, em Suzuka. “Oh, is gonna be a marmelade”, disse eu com segurança, forçando um sotaque londrino que resultou em algo parecido com o que se ouve no interior de Ohio.

Ele, claro, não compreendeu o exato sentido da palavra “marmelade”, uma tradução livre do doce de marmelo que conhecemos por aqui como marmelada, e que pode ser entendido também por conluio entre os participantes de um jogo ou competição, a fim de que o resultado seja favorável àquele a quem convém sair vencedor. Não tive saco para traduzir. Não sei nem como diz “conluio” em inglês. “Marmelade!”, repeti. Marmelo’s sweet, do you know what I mean?

Ele desligou sem entender nada, mas prometeu que iria usar minha declaração numa enquete que estava fazendo com jornalistas do mundo inteiro sobre a disputa Hill x Villeneuve. “It will be a marmelade”, says Brazilian Journalist. Já imagino o título no jornal dele, sob uma fotinho três por quatro que sai todo ano num livrinho chamado “Quem trabalha na F-1”, foto do tempo em que eu tinha mais cabelos e, de chinfra, usava uma boina igual à do Mansell.

Milhares de leitores vão ler o que eu acho e ficarão com a palavra na cabeça: marmelade. O que será marmelade?, perguntar-se-á o próprio Hill ao abrir o jornal antes de embarcar para Suzuka. Por via das dúvidas, vai guardar o recorte no bolso para perguntar a algum jornalista amigo no Japão. Ninguém conseguirá ajudá-lo. Mas ao final da corrida, depois de quebrar o motor inexplicavelmente e assistir à conquista de Villeneuve, convocará a imprensa para uma coletiva e, furioso, brandindo um microfone, exclamará: “It’s obvious! It was a marmelade!”. E os dicionários ingleses não poderão deixar de registrar o termo em suas próximas edições.