Diário de Viagem: anos de 1996 e 1997

JAPÃO (12.10.1997) – Suzuka, Brasil

O GP do Japão sempre foi um dos mais complicados para os jornalistas do mundo inteiro, que atravessam o planeta para chegar à pequenina Suzuka, a mais de 400 km de Tóquio. Há a barreira da língua, quase intransponível. É lenda a história de que muitos japoneses falam inglês. Ninguém fala. Nos hotéis, via de regra, os funcionários sabem, no máximo, contar até dez e dizer good morning.

A fonética do idioma é muito diferente e o falar inglês torna-se uma tarefa penosa para a maioria dos japoneses. Num lugar como este, então, é virtualmente impossível se comunicar. Se não bastasse, há as distâncias e a precariedade de acomodação. Por isso, há anos que é assim, a imprensa se espalha por cidades como Tsu e Yokaishi, a uma hora e meia, de ônibus, do circuito.

Azar de todo mundo, menos dos brasileiros. Depois de uma década, descobrimos, terça-feira, que em Suzuka está a mais numerosa comunidade brasileira do Japão, com cerca de cinco mil descendentes trabalhando nas fábricas da região. São 200 mil no país. Aqui há açougues, pastelarias e restaurantes onde se fala português. A turma faz baile de carnaval e vai em caravana a Nagoya assistir, por exemplo, a um show de Leandro & Leonardo.

Eu estava com uma reserva em Tsu, mas nem vi a cara do hotel. Na chegada, no aeroporto, conheci o Giba, um rapaz de Curitiba que trabalha para uma empreiteira que coloca brasileiros nas fábricas locais. Há seis anos no Japão, ele já nem passa mais por estrangeiro. Fala japonês sem sotaque, assim como Cristina, sua mulher, e a Hitome, sua filha, uma linda garotinha de sete anos. Giba me convidou para ficar em sua casa, a um quilômetro da pista. Aceitei.

Ganhei uma família no Japão. A F-1 tem dessas coisas. O Giba, o Arnaldo, seu irmão, a Vânia, que é cunhada, os amigos David e Farol (se chama Renato, mas ninguém o conhece pelo nome aqui), o Daniel, que é gerente do boliche da cidade… Há cinco dias eles praticamente não dormem, mudaram seus turnos de trabalho para, durante o dia, fazer companhia a mim e aos outros quatro brasileiros que estão aqui para cobrir a corrida.

Já tenho até a chave de casa, faço meu café da manhã e vou de bicicleta para o autódromo. À noite,
assisto à novela das oito e ao Jornal da Globo na TV. Vi até o jogo do Vasco com o Cruzeiro, sempre com um dia de atraso, mas o que é um dia, afinal?
Com eles, descobri os fascínios do Japão e seu dia a dia. Não há espaço neste texto para contar tudo que já aprendi e passei a entender sobre este país, o japonês e seus descendentes, em tão pouco tempo. Parece que vivo aqui há anos.

Tudo, da comida à educação, das regras de trânsito aos sistemas de saúde, das reverências ao gesto simples de tirar os sapatos ao entrar em casa, tudo é particular e diferente do nosso jeito ocidental de encarar o mundo e a vida.

Não é a primeira vez que venho ao Japão. Mas pela primeira vez tenho a chance de viver o país. E, mais uma vez, constato que o brasileiro, esteja onde estiver, é de uma generosidade do tamanho do universo, tenha ele olhinhos puxados ou não. Você, que me lê agora, talvez não faça ideia do que é ter um amigo como o Giba do outro lado do mundo. Paga tudo, as horas intermináveis em aeroportos e aviões, a distância de casa, os dias longe dos amigos e da família, aquilo que a F-1 exige daqueles que a seguem.
Arigatô, Japão.

LUXEMBURGO (28.09.1997) – Bazar do Gomes

Acho que ainda vai dar tempo, só vou embora segunda-feira. Mandei um anúncio para os classificados do jornal local, uma gazeta de Nürburg, propondo a troca de algumas mercadorias. Minhas luvas de lã novinhas em folha por uma jarra de cafeteira, que a minha quebrou. Um gorro, igualmente de lã, marrom-café, por uma caneca de cerveja. Pode ser usada.

Comprei também um cachecol, que não usei, claro, e aceito em troca dois potes de geleia, ou então uma lata de Ovomaltine nova. As ceroulas e as duas camisetas térmicas, isso vai num pacote só, estou trocando por cartões postais ou então uma coleção de selos, que nem precisa ser muito numerosa.

Pelas botas com forro de pele, estas um pouco mais caras, espero conseguir um despertador, que pode ser de campainha, ou uma vitrola, que anda difícil de arranjar. As pastilhas para garganta, o protetor dos lábios e os comprimidos para gripe, troco por três tubos de pasta de dente, sabor menta.

Como no ano passado, cometi a burrada de achar que faria frio neste fim de semana. Esta região da Alemanha é uma terra de pinguins no início do outono, pelo menos foi assim há dois anos, quando desembarquei em Nürburgring de camiseta e bermudas, vindo de Portugal, e congelei.

Desta vez, preparei-me. Em 96 exagerei, confesso, porque a corrida foi disputada em abril, estava quente. Mas neste ano não tinha erro, final de setembro, o Villeneuve disse assustado, semana passada, que ia fazer zero grau, com um pouco de sorte até neve a gente veria.

Comecei a desconfiar no começo da semana, depois de três dias em Viena. Fez muito calor e só usei a jaqueta creme de teimoso, para justificar a compra (esta vou levar para o Brasil e não foi anunciada). Na terça-feira, vi uma reportagem na TV direto de Nürburgring, a torcida chegando para acampar em mangas de camisa, sandálias, sol e um céu azul de doer. Alertei o Galvão Bueno, que estava no mesmo hotel, mas era tarde, ele já tinha comprado uma coleção de suéteres e dois pares de luva, além de um casaco de couro.

Não sei se vou conseguir minhas trocas. Nesse calor aqui, derreto se usar luvas, gorro e cachecol. Ser não puder me desfazer de nada, podem se preparar que farei um bazar em São Paulo. O Galvão, parece, está pensando em promover um no Rio, também. Preços módicos, venha correndo.

ÁUSTRIA (21.09.1997) – Vaquinhas e leite fresco

Sou a favor de pelo menos uma corrida nova por ano. Estou adorando a Áustria. Estive por aqui no mês passado, é verdade, visitando a Salzbourg de Mozart e a requintada Viena dos palácios e das valsas. Mas Zeltweg é outra história, claro, um vilarejo de dez mil habitantes. E embora não tenha castelos, nem teatros, é um cenário que faz bem para a alma.

Montanhas, muito verde, vaquinhas pastando na entrada do autódromo enquanto lá dentro máquinas de milhões de dólares aceleram os sonhos de seus pilotos… Sol, céu azul, poluição zero, gente simpática e louca para agradar, afinal é a primeira prova por estas bandas nos últimos dez anos. Festinhas, jogos de dardo no meu hotel Schweizerhof, uma pensão meio vagabunda sem banheiro no quarto, mas não faz mal.
É um GP rural, como Nürburgring ou Spa, o verdadeiro espírito da Fórmula 1. Milhares de pessoas de todos os pontos da Europa montam em seus trailers, armam suas barracas e passam três dias se conhecendo, tomando cerveja, comendo salsicha e vendo carros de corrida nas horas vagas.

De manhã, todos os dias, antes de vir para a pista, paro numa fazendinha que vende leite tirado na hora, forte, saboroso, vital. Custa dez schilings o copo, menos de um real, e é uma delícia. Dá vontade de ir a pé para o circuito, colocar um chapéu de feltro verde e meias brancas até os joelhos, suspensórios de tirolês, são apenas três quilômetros, o que só não faço porque tenho que carregar muito equipamento.

Mas é uma delícia, mesmo sem as caminhadas, que um dia vou fazer. Corrida nova, circuito desconhecido, paisagens diferentes, isso tudo é um combustível não só para nós, jornalistas, como também para pilotos e equipes, cansados de visitar sempre os mesmos lugares. Até a briguinha entre Zeltweg e Spielberg é legal. Spielberg é uma vila de dois mil pacatos habitantes em cujos limites foi construída a pista. Zeltweg, vizinha, batiza informalmente o autódromo porque em 63, quando a F-1 fez sua primeira corrida na região, o circuito ficava mesmo na cidade, num pequeno aeródromo.

Consagrou-se o nome, e o pessoal de Spielberg não gosta muito da ideia. Essas historinhas, pequenos casos, querelas entre aldeias, essas coisas fazem da F-1 um espetáculo mais humano. A Áustria é uma beleza, assim como a Holanda, a Bélgica, o interior da Europa, a Europa que não é Londres, Paris, Milão ou Barcelona. Nessas horas, trabalhar nesse negócio aqui dá gosto.

E ainda tem a corrida, hoje. Legal. Depois dela, volto ao velho Schweizerhof. Tenho um match de dardos importante, esta noite. Adotei um estilo irlandês do Ulster, disseminado em Belfast, de lançar os meus em parábola, buscando sempre o triplo vinte. Se você não faz ideia do que é isso, aprenda a jogar dardos e conversamos depois.

ITÁLIA (07.09.1997) – Regime, só segunda-feira

Comecei um regime segunda-feira passada. Como é sabido, segunda-feira é o Dia Universal do Começo do Regime, e a última segunda foi ainda mais apropriada, porque era dia primeiro. Nada muito grave. Adquiri uma barriguinha indesejável nessa vida de aeroporto-hotel-autódromo-restaurante e resolvi eliminá-la da maneira mais fácil: fechando a boca.

Foi tudo bem no primeiro e no segundo dia, grelhado com alface no almoço, sopinha à noite. Mas aí embarquei para a Itália, onde pude constatar, como se isso fosse alguma novidade, que é impossível fazer dieta num país como este.

Primeira noite, jantar no restaurante do hotel, porque já era tarde e ia ser difícil encontrar alguma coisa aberta. Na Itália, não tem jeito. Tem que comer entrada, primeiro prato, segundo prato, sobremesa e café expresso, o melhor do mundo. E o diabo do hotel tinha um restaurante excepcional.

Quando você vier até aqui, saiba que pedir apenas um pratinho de penne ou tortellini solitário ao garçom é quase uma ofensa. Como assim? Nem um carpacciozinho? Um escalope de vitela com funghi? Não quer mesmo um tiramisù? Um risoto no champanhe?

Come-se demais, bem demais, digo, na Itália. E não dá, igualmente, para radicalizar na bebida, aquele negócio de quem faz regime, só água mineral, sem gás. Vinho italiano é muito bom. E álcool engorda, todo mundo sabe. Que venha o vinho, fazer o quê?

Resultado: suspendi meu regime temporariamente. O próximo dia primeiro que cai numa segunda-feira é em dezembro. Tempo suficiente para que eu me recupere de quatro dias de Itália. Porque anteontem à noite fui a uma trattoria espetacular, La Bucca del Lupo, e, como no hotel, devorei três pratos, sobremesa e, de quebra, um digestivo, uma sambuca, nada muito pesado.

Hoje à noite está agendada uma visita ao Bice, onde, dizem, come-se de joelhos, de tão boa é a massa. Ainda tentei evitar as pastas, que também engordam, tudo que é bom engorda, e fui a uma churrascaria ontem, isso mesmo, fui comer carne no Porcão, dos mesmos donos daquele rodízio no Rio. É legal, dá para tomar caipirinha e os garçons são todos do Paraná ou do Rio Grande do Sul. Além do mais, as recepcionistas, brasileiras, são muito bonitinhas. E carne, como também é sabido, não engorda. A não ser que você coma maionese, farofa e banana à milanesa junto. Mas, estando em Milão, como não comer banana à milanesa? Acho que engordei. Pra falar a verdade, abusei um pouco do cupim, foi isso.

BÉLGICA (24.08.1997) – Casacos belgas

Tenho uns dez casacos em casa, contando jaquetas, “trench-coats”, capas de chuva e blusões em geral. Oito deles comprei aqui, em Spa-Francorchamps, num shopping improvisado em barracas na entrada do circuito. O problema é que sempre esqueço de trazer agasalhos, as corridas na Europa são realizadas sempre no verão do Hemisfério Norte, enfim, é problema meu se sempre esqueço que estou indo para Spa.
E a Bélgica é a Bélgica. Chove todos os anos, não tem erro, se houver uma única nuvem sobre a Europa, ela estará sobre a Bélgica, ou, mais precisamente, sobre Spa e Francorchamps, duas cidadezinhas simpáticas ligadas por uma estrada que faz parte de uma pista de Fórmula 1.

E faz frio, também. Por isso, todos os anos compro um casaco qualquer aqui, por mera questão de sobrevivência. É rotina. Saio do meu chalé (corrida meio campestre, essa aqui) congelando, debaixo de um toró, chego ao autódromo e compro a primeira coisa que encontro capaz de me aquecer um pouco.
Teve um ano em que essa primeira coisa foi uma jaqueta da Pacific Racing, o que afinal acabou virando uma peça de coleção, já que a equipe nem existe mais. Me contaram que foi a única vendida até hoje, porque naturalmente ninguém é louco de comprar sequer um boné da Pacific, o que dizer de uma jaqueta, ainda mais de lã grossa, daquelas que pinicam.

Tenho também uma capa com a foto do Nigel Mansell sem bigode nas costas, mas essa, confesso, usei um dia só e tentei trocar porque não sou palhaço. A moça que vendeu não aceitou de volta. Argumentei que não sabia da foto e ela me mandou procurar o Procon. Tive que gastar uns francos belgas a mais para comprar algo menos ridículo, um casacão preto, meio antiquado, com as cores antigas da Lotus, preto e dourado. Fiquei parecendo um agente funerário, mas era melhor que o Mansell sem bigode.

Neste ano, quando fazia a mala às pressas para embarcar rumo a Frankfurt (e de lá, de carro, 300 km até Spa), lembrei que estava indo para a Bélgica, e não para Mônaco ou Magny-Cours, lugares quentes, ensolarados. Malandrão, catei o casaco piniquento da Pacific, o fúnebre da Lotus, uma jaqueta (essa eu nem lembrava que tinha) azul turquesa da época da Leyton House e um guarda-chuva sensacional, ele não abre direito, mas tem Andrea Moda escrito num dos cantos. Cheguei aqui armado até os dentes.

Está um calor dos diabos. Mesmo na sexta, a chuva que caía vinha quente do céu, dava para fazer chá. Ontem, sábado, fez sol o dia inteiro. E eu não trouxe camisetas, nem bermudas, nem bonés, nem mesmo um tênis — só botas. Fui obrigado a comprar tudo nas barraquinhas, até uma T-shirt com o Villeneuve estampado. Perguntei se não tinha alguma pré-cabelo amarelo, mas não tinha. Ainda bem que aqui ninguém me conhece.

HUNGRIA (10.08.1997) – Meu relógio soviético

Minhas duas últimas semanas têm sido uma espécie de viagem no tempo. Como resolvi ficar na Europa depois do GP da Alemanha, escolhi destinos da antiga Cortina de Ferro para matar a vontade de brincar de espião dos livros de John Le Carré. É preciso certa imaginação, claro, para enxergar o Muro de Berlim onde não existe mais nada dele. Ou, então, para se sentir perseguido por um agente da Stasi no metrô de Leipzig, ou numa estação de trem cinzenta em Dresden.

A Hungria, onde estou, já não me fascina tanto. Estive aqui pela primeira vez em 91, quando os regimes socialistas caíam feito um castelo de cartas, e lembro que ainda deu para ficar encantado por alugar um Lada e ver milhares de Trabant circulando pelas ruas de Budapeste.

Isso tudo é passado, porém. Hoje virou bagunça, quando se olha para a Europa Oriental com olhos nostálgicos de um tempo em que ser comunista tinha lá seu charme. Um húngaro me contou que o primeiro comércio ocidental aberto em Budapeste foi uma loja da Adidas, e que no dia da inauguração as filas davam voltas no quarteirão. É ou não é o máximo? Agora tem um McDonald’s em cada esquina.

De qualquer forma, senti-me na década de 60 ao tentar entrar na Tchecoslováquia sem visto no passaporte. OK, República Tcheca, vá lá. Estava num trem sombrio quando os policiais tchecos, rudes e gelados como rochas, me mandaram descer na estação seguinte, ainda em território alemão. Adorei. Tirei uma foto do lugar, saído de filme preto e branco, uma estação caindo aos pedaços nos confins do que era a Alemanha Oriental.

Não fui a Praga, em consequência, mas não me importei. Àquela altura, já carregava na mala, de um jeito meio clandestino, confesso, duas preciosidades que comprei de um camelô em Berlim — e que felizmente os guardas não encontraram, creio que teria problemas para explicar sua aquisição: um pedaço do Muro, que ele me garantiu ser verdadeiro e veio até com um carimbo que confere certa autenticidade à peça, e um magnífico relógio de parede. Este, segundo o vendedor, é russo e estava num antigo submarino nuclear do Pacto de Varsóvia. Funciona à corda, mas ele me mandou ter cuidado. Há chances de que algum tipo de radiação ainda possa ser emitida. Bárbaro, não vejo a hora de contar minhas aventuras aos amigos quando voltar a São Paulo, em noites regadas pela boa vodca da terra de Lenin.

ALEMANHA (27.07.1997) – Os sem-parking

Ligo para São Paulo e me informam, sexta-feira, que o país está numa confusão danada, passeatas por todos os cantos, sem-terra, sem-teto, sem-metrô, sem-carro-importado, sem-salário, sem-emprego, sem-nada e sem-tudo. Nada mais justo, tratando-se de Brasil. E nada mais antigo, afinal não saí daí há uma década, mas no meio da semana. Já sabia das passeatas e dos movimentos, e quero mais é que as pessoas se manifestem mesmo, viver no Brasil está ficando impossível.

Vou passar 20 dias na Europa, emendar duas corridas, Alemanha e Hungria, e pelo menos terei alguns momentos de paz. Nada de Sérgio Motta, FHC, greve da PM (é um absurdo como os policiais ganham mal), Xuxa, Zagallo, Fantástico, Celso Pitta, precatórios e venda de votos. É incrível como o Brasil tem coisas ruins, também. Autoexílio. Faz bem, de vez em quando.

Sei que daqui a alguns dias vou sentir falta de tudo isso. Pensarei no caso quando estiver rodando com meu Audi alugado por estradas sem buracos, ou enquanto estiver parado no trânsito com o vidro aberto e meu relógio para fora da janela, sem medo de ser assaltado. Ou ainda ao caminhar pelas ruas de Viena, ao atravessar na faixa de pedestre, sem me preocupar em ser atropelado por um motoqueiro alucinado sem placa.

Provavelmente, daqui a duas semanas, estarei morrendo de saudades das passeatas na avenida Paulista e vou propor um movimento entre os jornalistas que cobrem a Fórmula 1, que andam muito aborrecidos com algumas medidas tomadas pela organização das corridas. Desde o ano passado, empurram-nos, os jornalistas, para estacionamentos cada vez mais distantes das salas de imprensa.

Os espaços estão sendo ocupados pelos equipamentos da TV digital do Bernie Ecclestone, o que faz de nós um grupo de “sem-parking”, uma nova categoria massacrada pelo poder econômico. Somos submetidos a uma ditadura de estacionamentos longínquos e “vans” que nos levam até os autódromos. As salas de imprensa estão sendo rigorosas também com seus horários, até as linhas telefônicas são cortadas no encerramento do expediente. Somos “sem-linha”, também.

Faremos uma passeata em Budapeste, na hora da largada, pelo meio dos carros parados no grid. Carregaremos faixas e cartazes pedindo nossos direitos. Aceitamos deixar nossos carros longe, desde que tenhamos sanduíches e cafezinho de graça. Queremos ser bajulados, também. Bonés, camisetas e chaveiros das equipes em cotas quinzenais. Hotéis mais baratos e quartos individuais. Jantares e festas em todas as corridas. Reivindicações básicas, sem negociação.

Chega de ser explorado. É preciso alguma vantagem para cobrir Fórmula 1, algo mais do que aviões e aeroportos. Queremos mordomias e adicional de periculosidade para ter que aguentar o mau-humor dos pilotos e dirigentes o ano inteiro. Vou-me transformar num líder entre a imprensa. O poder que se prepare. Jornalista unido jamais será vencido, como diz meu amigo aqui do lado, com a camiseta do Che Guevara e um passaporte finlandês. “É preciso fazer alguma coisa, porque o mundo está muito chato”, ele diz. Tem razão. Vou sugerir que se mude para São Paulo.

INGLATERRA (13.07.1997) – Diário de Viagem

Pela primeira vez desde que acompanho a Fórmula 1, abri mão de ficar num hotel para a corrida de Silverstone. Tinha até um muito legal em Northampton, a 35 km da pista, eu conhecia a recepcionista e o cara que fazia minhas torradas pela manhã. E o gerente, que sempre reservava um quartinho com janela para a rua principal da cidade, quarto antigo, com carpete no banheiro.

Mas era um inferno chegar ao autódromo, embora no ano passado eu tenha descoberto um caminho pelo meio das fazendas que me tirava da A43, a “Estrada para o Inferno”, como a chamava o cantor Chris Rea, um fanático por Fórmula 1. Reza a lenda que ele compôs a canção “Road to Hell” parado num congestionamento-monstro para Silverstone, anos atrás. Sempre foi assim: 150 mil pessoas vão para a pista de carro, não há outro jeito, pela mesma estradinha, a A43. Tempo médio para percorrer 30 km: três horas. Um inferno.

São estranhos esses ingleses, porque há outros caminhos, mas eles não sabem. Ainda bem, porque assim eu continuo pegando pista livre nas minhas fazendas. E de onde me hospedo neste ano, não são mais do que 15 minutos. Loucos, esses ingleses. Adoram um congestionamento.

Mas não é sobre o inferno da estrada que quero falar, mas sim de Samantha. Samantha é a garotinha que dorme no quarto onde estou. Aluguei, com uns amigos, uma casinha adorável em Towcester, a 8 km da pista. Casinha inglesa, de tijolinhos e quadros de cavalos e caçadas nas paredes. Típica, com lareira e janelinhas brancas e grama muito verde.

A família nos deixou a casa e a mim coube o quarto de Samantha. Ela deve ter uns oito anos. Seu quarto tem papel de parede decorado com ursinhos, quadrinhos do Dumbo e dos 101 Dálmatas e um urso Puff (lembram?) sentado numa cadeira.

Vi o retrato de Samantha na geladeira. Acho que nunca vou conhecê-la pessoalmente, mas queria dizer a ela que adorei seu quarto de criança. Cometi até a indiscrição de abrir a primeira gaveta da sua cômoda branca laqueada, sabe como é, a gente conhece as pessoas por seus objetos e hábitos, e embora seja muito nova, é claro que Samantha tem seus hábitos.

Ela tem um walkman colorido, por exemplo, e vários elásticos de todas as cores para prender seus cabelos lisos e negros. E adora lápis coloridos, tem uma coleção imensa. Não abri o guarda-roupa, até porque já vi seu uniforme da escola na foto, saia azul-marinho, camisa branca e um lencinho vermelho no pescoço. E não fica bem espiar as roupas de uma mocinha, convenhamos.

Estou dormindo na sua cama e com seu travesseiro. Todos os dias, de manhã, abro as cortinas para o sol encher de luz aquele lugar sagrado, um quarto de criança, que faz-me sentir um garoto de novo. Tenho muito a agradecer a Samantha. Ganhei uma nova amiga, e vocês não fazem ideia do que é isso quando se viaja tanto, quando é necessário conviver com desconhecidos nos lugares mais malucos do mundo para sobreviver.

Vou deixar um presente para ela. Li, numa cartinha que ela escreveu para o pai, provavelmente um trabalho de escola (está colada na parede da cozinha, a cartinha), que ela adora o inverno porque gosta de fazer bonecos de neve e porque gosta de sua casa quentinha, mesmo quando faz muito frio lá fora. Nada mais singelo e encantador. Não posso lhe dar um boneco de neve, Samantha. Mas vou achar alguma coisa para te agradecer.

FRANÇA (29.06.1997) – Banho de supermercado

Eu já não tinha mesmo muita roupa para trazer à França. Na semana retrasada, tungaram minhas malas em Miami e fiquei sem lenço, sem documento, sem calças e sem meu canivete suíço. Mas tudo bem, porque na Europa é verão, e neste fim de mundo faz muito calor nesta época do ano. Umas duas bermudas, uma calça jeans, a que sobrou, com um remendo de festa junina nos fundilhos, algumas camisetas e passaria tranquilo pelo GP da França até recompor meu guarda-roupa.
Bem, só não está nevando. Chove o tempo todo e quando a temperatura passa dos 15 graus é motivo de festa. Cadê o verão? E o inverno, no Brasil? Saí de São Paulo com 30 graus! O que está acontecendo com o mundo?

Claro que as bermudas não serviram para nada, nem para dormir. E por isso passei a manhã de sexta-feira num hipermercado comprando roupas. Nada de butiques caras, porque se me assaltarem de novo eu peço licença e mudo de planeta. Uma muda de roupas para a agitadíssima Magny-Cours não custaria tanto assim, afinal.

Aí apareci no autódromo de jaqueta nova e me perguntaram se tinha comprado na GAP, e esse suéter, é de Paris? Falei que tomei um banho de loja no Carrefour e não acreditaram. Devia ter dito que era Giorgio Armani, e ficava com fama de bacana. Não faz mal. Gostei das minhas roupas de supermercado, são quentinhas e aconchegantes. Aproveitei para adquiri um gravador novo, que o meu também ficou com os amigos da Flórida. E comprei até sabonetes, que os daqui duram mais que os daí.

Tirando isso, o tempo, o frio, a chuva, as botas molhadas, a lama e o meu carro que não anda (motor turbo diesel, faz um barulho dos diabos, mas acelera menos que uma lambreta), o resto está OK. A França é um bom país, o segundo melhor do mundo para se viver, segundo a ONU, e no ano que vem tem Copa do Mundo aqui. É um ótimo lugar para se fazer uma Copa, bem melhor que os Estados Unidos.

Problema mesmo, só o trânsito de Paris. Para vir até aqui, é preciso atravessar a cidade até chegar à autoestrada. Trinta quilômetros em uma hora e meia. E a gente reclama de São Paulo. Só que em Paris, olha-se para um lado e vê-se a Torre Eiffel ao longe; forçando a vista, as luzes de Champs Elysèes. Em São Paulo, tem o rio Tietê de um lado e um Singapura do outro. É uma diferença considerável. No mais, são três horas de asfalto liso e estradas sinalizadas, vilarejos com floreiras nas janelas e campos de trigo, girassóis e milho. Isso tudo descansa a vista e a alma. Esqueço até o frio e a chuva, Miami é outro mundo, o Brasil também.

CANADÁ (15.06.1997) – O melhor país do mundo

Eu ia contar hoje a epopeia, talvez epopeia seja um exagero, a aventura aérea para se chegar a Montreal, quarta-feira passada. Até Nova York, é um voo normal, avião grande, horas intermináveis, comida meia-boca, filme que já vi, nada de novo. É preciso parar nos Estados Unidos para vir ao Canadá, pelas companhias aéreas brasileiras. No aeroporto JFK a gente pega uma conexão, normalmente de empresas canadenses.

Até aí tudo bem. Passaporte, bagagens, alfândega, check in. Mas havia uma informação, não confirmada, de que o avião que a gente ia pegar até Montreal não era propriamente um Boeing. Somos um grupo de jornalistas brasileiros, que nos anos Senna tinha mais de 20 profissionais. Quarta-feira, na fila do check in, éramos cinco. Dois já estavam no Canadá e outro pegou um carro em Nova York e foi dirigindo.

Um deles morre de medo de avião pequeno. E lá fomos nós para o portão de embarque. Não havia avião nenhum no “finger”. Lá embaixo, um teco-teco de 34 lugares, impulsionado a hélice. Eu, que não tenho o menor problema com aviões, iniciei o terrorismo psicológico. O tempo está ruim (estava um sol danado, na verdade), esse negócio é antigo, tem uns 30 anos, olha só o nome do avião!, Saab-Scania, esses caras só fazem carro e caminhão, não vamos chegar nunca!

E o cara (não vou dizer o nome) não queria embarcar. Vamos de carro. Vamos mudar o voo. Nada disso, respondia eu, se formos vamos todos juntos. No mínimo, dá manchete de jornal. Cinco jornalistas desaparecem nos Grandes Lagos. Dá até Jornal Nacional. Lá dentro, um charutinho, eu, nanico, batia a cabeça no teto. O medroso queria tirar as malas do bagageiro. Não tem malas, avisei. Vão em outro avião, por causa do peso.

O pânico era absoluto. Quando eu vi o piloto, avisei ao medroso que conhecia o cara, era motorista de táxi em Miami no ano passado. Antes, ao passar pelo portão de embarque, chamei a atenção para o fato de a funcionária ter me desejado boa sorte, em vez de boa viagem. Ele quase morreu.

O voo foi tranquilo. Nem sacodiu. O medroso só ficou pálido quando eu apontei uma fumaça estranha na hélice esquerda. Esse avião é legal porque voa com um motor só, disse. Não havia fumaça nenhuma, mas ele não despregou o olho da janela.

Não ia contar essa história, porque ela é banal. Na verdade, ia falar do Canadá, pela quarta vez seguida escolhido o melhor país do mundo para se viver, por um relatório da ONU. Um lugar bacana, rico, próspero, civilizado. Mas que tem um inverno de matar. Só venho ao Canadá no verão, por isso concordo com a ONU. Não sei se acharia o mesmo debaixo de neve, 32 graus abaixo de zero. Tudo bem. Se você vier um dia, escolha junho e julho. E não deixe de pegar o teco-teco. Em tempos de poucas emoções, dá até para escrever uma crônica.

ESPANHA (25.05.1997) – Depressão virtual

Ando meio deprimido nas últimas semanas e minha mulher ralha comigo, é fácil ficar deprimido em Mônaco ou Barcelona, quero ver é ficar deprimido aqui, em São Paulo. O que acontece é que as distâncias estão diminuindo muito, e o que há alguns anos significava um exílio-relâmpago, uma fuga de uma semana da nossa realidade absurda, já não é mais.

Alguns anos atrás, ansiava por entrar no avião, na volta, para pegar um jornal já velho de um ou dois dias. Eram os tempos do impeachment, do PC, do desmoronamento daquele castelo de cartas marcadas e imundas que acompanhei com tanto prazer e deleite até cair de podre.

Naqueles dias era possível se desligar totalmente daí, ou, no máximo, receber notícias incompletas, atravessadas, que só serviam para me deixar mais ávido por detalhes, louco para chegar e saber. Eu não costumava telefonar demais para o Brasil, as ligações eram mais caras, tudo era mais distante e difícil.

E foi outro dia, parece muito mais. Hoje, cinco anos depois, se tanto, chego a um autódromo pela manhã e entro na Internet. Leio tudo que aconteceu no dia anterior, recebo e engulo cada escândalo, cada barbaridade, cada cadáver, como quem toma um café e come uma rosquinha.

Envio e recebo mensagens, telefono e acho fulano no celular, não há fronteiras. É ótimo, você pode pensar. É uma droga. Quando volto, nem preciso perguntar ao amigo que não vejo há uma semana o que aconteceu nestes dias?, porque já sei, e é a mesma merda de sempre, e já não há o que falar.

Três sem-teto mortos em São Paulo, mais um sujeito que aparece dizendo que comprou resultados de jogos de futebol e participou da máfia da loteria (e quando eu chegar, segunda-feira, ele estará flanando por aí, livre como um passarinho), rebeliões em presídios de norte a sul, deputados do Acre vendendo votos, ministro esbravejando histérico, o que de novo, enfim, acontece no Brasil?
Nada.

É por isso que fico deprimido. A Internet, meu modem, meu computador que permite até ouvir rádio, o rádio que me acorda em casa, a dez mil quilômetros daqui, que dá a hora certa e a situação do trânsito, tudo isso, que poderia me aproximar do Brasil, ajudar a matar a saudade, só faz me distanciar do meu país, do país que está cada vez mais longe de ser o país que eu queria.

Depressão virtual, era o que faltava.

MÔNACO (11.05.1997) – Que se dane o Brasil

Ficar batendo na história do charme e do glamour, das mulheres bonitas, das Ferrari e dos Rolls-Royce nas ruas, do cassino, do Festival de Cannes logo ali, tudo isso já ficou velho para se falar do GP de Mônaco. E causa inveja, por isso não vou falar mais nada sobre o assunto, nem sobre a loiraça de minissaia que está passando aqui embaixo da minha janela num Aston Martin 58 conversível. Nem sobre a festa de ontem à noite no iate de um milionário árabe, para a qual fui convidado, diga-se, tudo de graça, dança do ventre, um harém à beira-mar, etc. e tal. Nem sobre o Porsche que eu aluguei — porque aqui, menos do que Porsche o pessoal olha torto.

Todo ano, quando venho a Mônaco, sou obrigado a ouvir resmungos ressentidos de amigos e conhecidos, que sempre vêm com aquele papo xarope, pô, vai pra Mônaco, vida dura, hein?, e que todos os anos, igualmente, surpreendem-se ao me ver com a mala indo para o aeroporto na terça-feira da semana da corrida, ué a corrida não é só no domingo?, por que já está indo?, vai aproveitar, não? Eu normalmente não perco meu tempo explicando que aqui tem treino na quinta-feira e respondo que estou indo um dia antes porque tenho que pagar o condomínio e as contas de luz e telefone no meu apartamento vizinho ao do Villeneuve. É o bastante para encerrar a conversa.

Outros me perguntaram com frequência, nos últimos dias, alguns mais de uma vez até, se eu iria para a Indy no Rio, e eu respondi que não, que ia para Mônaco, e fui obrigado a ouvir as mesmas gracinhas de sempre. Para não deixar passar a oportunidade, decidi dizer que entre Jacarepaguá e a Riviera Francesa optei pela segunda, o que desperta ainda mais resmungos e ressentimentos.

Mônaco é melhor que Jacarepaguá, claro, aqui não tem favela, não tem Cidade de Deus, nem PM espancando pobre, nem juiz de futebol ladrão, nem essa história malcheirosa da venda da Vale, não tem trânsito maluco ou pessoas mal-educadas jogando lixo nas ruas, essas coisas que fazem do Brasil um subpaís.

Já disse, e quem não leu fique sabendo, que odeio achincalhar o Brasil, meu país, onde nasci e vivo, de onde nunca vou sair. Mas já disse também que não vou mais perder meu tempo defendendo o indefensável, os precatórios e o salário mínimo que aumentou oito reais, os selvagens que queimaram o índio vivo ou os fazendeiros que usurparam terras a vida inteira e não admitem que tem gente que precisa plantar para viver e comer.

Quero que o Brasil se dane, minha parte faço pagando meus impostos que vão para o bolso de um gatuno qualquer e votando em quem eu acho que pode transformar isso daí em algo habitável. Enquanto isso, e enquanto puder, venho para Mônaco na hora que me der na telha. Pelo menos sacia minha vontade de viver num lugar civilizado, alguns dias por ano, que seja.

SAN MARINO (27.04.1997) – O lixo do mundo

Minha irritação com as pessoas, especialmente os brasileiros, que falam mal do Brasil sempre foi industrial. Há anos viajando pelo mundo, correndo atrás da F-1, teria até um monte de motivos para achar que o meu país é um lixo. Afinal, a F-1 só passa por lugares civilizados, a velha Europa, o Japão, a Austrália, o Canadá, até a Argentina, vizinha que a gente conhece tão pouco.

Há anos gasto meu tempo e vocabulário tentando defender o Brasil. Mas meu orgulho tem sido despedaçado ultimamente e os acontecimentos — tudo que a gente lê nos jornais, ouve no rádio, vê na TV, sente na pele — estão fazendo do Brasil um país indefensável.

Como explicar, por exemplo, Eldorado dos Carajás? OK, a miséria, os conflitos inevitáveis de uma questão agrária secular, as pessoas não entendem direito, mas aceitam com alguma comiseração. E o Carandiru? Bem, é claro que foi uma carnificina, mas você tem que levar em consideração a tensão do momento, presos violentos… dá para ser perdoado, afinal eles aqui tiveram Napoleão, Hitler, não ficam muito atrás nas barbáries históricas.

Diadema? É duro, tenta-se argumentar que é uma exceção, mesmo não sendo, todos sabemos, mas afinal é o meu país, não gosto de vê-lo sendo tratado como uma terra de selvagens, animais incontroláveis. Só que agora teve essa do índio queimado vivo, esse ato abominável, cometido por bacaninhas de classe média, cretinos filhos do poder e da elite que tudo pode e tudo faz.

Eu estou com um gosto amargo na boca. A cada duas semanas saio do meu paraíso tropical, das morenas gostosas, das praias libidinosas, do sol o ano inteiro, do Caetano e do axé, da bunda da Carla Peres, do futebol de Romário e Bebeto, para o que se imagina serem países sombrios, frios no clima e na alma, de gente que não tem amigos e se mata no metrô de Estocolmo. É tudo um grande equívoco. Sombrio é o Brasil, que queima mendigos nas ruas, que mata crianças de fome e de crack, o Brasil da polícia imoral, dos políticos imorais, de um povo cada vez mais imoral. Nós somos um país imoral.

Aqui, na Europa, as pessoas sorriem. Em Riolo Terme, uma cidadezinha onde me hospedo, ao lado de Imola, os velhinhos andam de bicicleta e tomam café expresso em mesinhas na calçada. As crianças brincam num parquinho de diversões ingênuo na frente do meu hotel, que não é a Disney dos nossos sonhos, dos sonhos medíocres do brasileiro que compra TV em Miami, um parquinho que tem um carrossel e um bate-bate. E sorriem, felizes.

Os jovens andam de bicicleta de dia, de noite, de madrugada. O policial, civil, diz bom dia e boa tarde. Não te arrebenta a cara, nem te mata, se não gostar de seu carro velho. É assim na Itália, na França, na Inglaterra, na Alemanha, na Espanha, em Portugal, na Bélgica, na Áustria. E o que eles têm que nós não temos? É simples: tudo. Somos mesmo um lixo, é duro de admitir.

ARGENTINA (13.04.1997) – Globalización

Costuma-se dizer por aí que o melhor termômetro de um país são seus motoristas de táxi. Em meia hora de conversa no meio do trânsito, dá para ficar sabendo de tudo, apurar o ânimo da população, conhecer os vilões e heróis do momento, os resultados do futebol e o resumo da novela na noite seguinte. Em Buenos Aires, essa característica dos condutores é ainda mais visível. E além de não fugir de nenhum assunto, os taxistas portenhos são maniqueístas: torcem para o River ou para o Boca, amam ou odeiam Maradona, veneram ou desprezam Evita.

E foi por isso que saí tão ansioso do saguão do aeroporto de Ezeiza, quarta-feira à noite. Raramente pego táxis no exterior, mas como por aqui estão faltando carros para alugar, recorri a um desses pretinhos com capota amarela, marca registrada de Buenos Aires, para me levar ao hotel. Vi “Evita” no cinema uma semana atrás, e com o filme na ponta da língua preparei-me para uma discussão acalorada com a vítima — ou motorista, como queiram. Se ele fosse a favor, eu seria contra, e vice-versa.

Mas dei azar, como de costume. “Brasileiro?”, me perguntou o senhor dos seus 50 anos, algo calvo, bochechas rosadas. “Si”, respondi em perfeito espanhol. E antes que pudesse citar Madonna para iniciar o embate, o homem engrenou o papo, num português meio atravessado. Contou que morou 17 anos no Brasil, que a mulher é brasileira, os cunhados e sogros também, e um dos filhos, parece. Viveu em Brusque, Santa Catarina, “barriga verde!”, disse, soltando uma gargalhada.

Ainda tentei achar um gancho para malhar o Antonio Banderas, mas não deu tempo. Hugo, este é seu nome, começou a perguntar sobre o Avaí e o Figueirense, enquanto eu, em vão, tentava mudar o eixo da conversa dizendo não gostar de futebol. Ele brincou: “Também, torce para a Portuguesa!”, acusou, apontando com o indicador o glorioso escudo da Lusa pregado na minha mala de mão.

Apelei para o último recurso, que faria de mim um ser politizado e, portanto, distante das discussões cotidianas do futebol. “Soy periodista”, intimei, mais uma vez sem sotaque. Foi o fim. Ele sacou de um maço de fotos e vibrou: “Periodista! Conheço um monte no Brasil, olha aqui o Luciano do Valle, o Tatá, o Sílvio, o Pascoal, sempre levo esse pessoal da Bandeirantes pra lá e pra cá quando eles vêm a Buenos Aires, já segurei até o guarda-chuva no campo para o Ely Coimbra!” Era verdade. Estava lá o Hugo com o Luciano, com o Sílvio Luiz, com o Oswaldo Pascoal, com o Otávio Muniz e, para minha inveja, com o Rivelino e o Tostão.

Fracassei em minha ideia inicial de esculhambar e/ou santificar Evita e Madonna, Perón e Banderas, a velha ditadura militar argentina e as costeletas do Menem, Maradona e Passarella. É culpa do Mercosul. O taxista conhece o Tostão melhor do que eu e assiste ao Jornal Nacional na TV a cabo. Fala da Xuxa com a mesma intimidade que qualquer baixinho no Brasil, sabe tudo sobre Diadema e Cidade de Deus e tem opiniões bastante críticas sobre a CPI dos precatórios. Globalização, dizem alguns. Ou, como se fala por aqui, globalización.

1996

PORTUGAL (20.09.1996) – Ó pá!

Portugal, Portugal. Vinha eu para esta terra num voo da TAP e a senhora ao meu lado diz ao marido: “Ó pá, dê-me aí um outro escutador porque este meu só fala estrangeiro”, e o marido, com elogiável discernimento, não providenciou a troca do fone de ouvido e apenas disse à esposa para que mudasse de canal, e enquanto a situação não se resolvia eu pedi ao comissário para mudar de lugar.

Portugal, Portugal. Chegando a Cascais, um lindo balneário colado ao Estoril, passei diante do Jardim dos Frangos e da sapataria Expresso Rápido, e quando cheguei a um restaurante com mesas na calçada, surpreendi-me com a informação na porta: “Ar-condicionado. Dentro.” É claro.

Nada disso é mentira, e confesso que não me irrita, nem sequer desperta a tentação de contar piadas de português aos meus amigos de cá, que são muitos e amáveis, colegas de profissão, antigos funcionários do autódromo, porteiros de hotéis, todos movidos a uma lógica especial, especialíssima. Perguntei ao garçom se ele tinha bolinhos de bacalhau e ele respondeu que não, e o senhor sabe onde tem?, e ele: do outro lado da rua há um restaurante, se eles tiverem lá, tem. OK.

Pois aqui não se diz alô ao telefone, mas sim estás?, ao que se escuta do outro lado da linha estou, claro, porque se não estivesse não atenderia ao telefone, não há dúvidas quanto a isso.

Eu só não entendo mesmo a expressão ó pá!, usada no início e no final de quase todos os diálogos, sem um sentido definido, talvez equivalente ao paulistano e deselegante ô meu, mas não sei ao certo se é isso mesmo, porque sua utilização parece mais difundida e polivalente, vale para tudo. Quando vier a Portugal, ó pá, não esqueça de repetir a todo instante ó pá. Ó pá pra lá, ó pá pra cá, e vamos em frente, afinal viemos todos daqui, meu amigo.

ITÁLIA, Monza (06.09.1996) – O cachorro e o policial

Andei fazendo as contas e conclui que de 89 para cá vim à Itália 12 vezes. São duas corridas por ano, uma em Imola e outra em Monza, e estive na maior parte delas. Sempre desembarcando no aeroporto de Malpensa, que fica a uns 50 quilômetros de Milão, aqui do lado, uma cidade interessante, cheia de gente elegante, com um trânsito caótico e uma absoluta ausência de ruas paralelas. É o melhor lugar do mundo para se perder, depois de Roma da Lapa.

É engraçado descer em Malpensa. A Itália, como se sabe, é muito parecida com o Brasil, no que tem de bom e ruim. O mau-humor dos policiais que checam o passaporte, por exemplo. Para evitar problemas, normalmente eu me fantasio de jornalista especializado em F-1 assim que saio do avião: boné da Ferrari, camiseta da Williams e dezenas de adesivos pregados na mala de mão, da Minardi, da Jordan e até da Forti. Mesmo assim, a primeira pergunta, meio resmungada, em italiano, é: “O que você veio fazer aqui?”
À resposta óbvia, vem a réplica: “É a primeira vez na Itália?” Os carimbos não deixam dúvidas, mas o policial do lado de lá do guichê se recusa a identificar as marcas que provavelmente ele mesmo deixou nas folhas do meu passaporte alguns meses atrás.

Passada esta barreira, vem a fila da alfândega. Enquanto as bagagens rodam na esteira, um pastor alemão vai de passageiro em passageiro, arfando, seguro por um soldado do exército que fica batendo nas malas e dizendo “cheira aqui”, “agora aqui”. Se o cão late, meu amigo, pode esperar pelo pior.

É sempre o mesmo cachorro, e todo ano ele late para a minha mala. Creio que o animal em questão foi treinado para farejar drogas, mas todo ano implica com a minha mala, embora eu não use drogas e se usasse não carregaria na mala, depois de assistir “O Expresso da Meia-Noite”. Ultimamente tenho procurado não trazer nem perfume para não magoar o faro delicado do pastor alemão, que acredito ser naturalizado italiano.

Depois que ele late, como todos os anos, vou para a salinha e o policial, também sempre o mesmo, pergunta se eu fumei maconha antes de embarcar e é claro que respondo que não. Não e ponto final. Uma vez fui fazer gracinha e disse que jamais levaria drogas numa viagem de avião, de trem quem sabe, e o cara não gostou. Revistou até minhas cuecas e não encontrou droga nenhuma, quer dizer, não a que ele imaginava, mas deixa pra lá.

Agora só volto à Itália em maio do ano que vem, para o GP de San Marino. Vou descer no mesmo aeroporto e já penso em trazer um osso, quem sabe um pacote daquelas comidas de cachorro que os fabricantes garantem ter gosto de bife. Ou talvez traga um bife de verdade. Tudo para que pelo menos os latidos do cãozinho não sejam em vão. Quero ver a cara dele, do policial, ao abrir a mala e achar uma peça de alcatra. Ou vou preso, ou fico com o cachorro.

BÉLGICA (23.08.1996) – No caminho, as batatas

Diz meu amigo inglês Eric Silbermann que a Bélgica é aquele país que só serve para ficar no meio do caminho. Para ir à França, os alemães passam pela Bélgica. Os franceses, quando querem ir à Alemanha, fazem o mesmo. E nesse trajeto se empanturram de batatas fritas com maionese. E se perdem, também, apesar do tamanhinho do país, porque na Bélgica se falam duas línguas, o flamengo e o francês, e até os nomes das cidades são diferentes nos dois idiomas. Procure Liège, por exemplo. Não vai achar. Mas se seguir as placas para Luik, você chega lá.

Civilizada e pacata, a Bélgica é o alvo predileto dos franceses, que têm por seus nativos o mesmo apreço intelectual que nós, brasileiros, dispensamos aos portugueses. Contam, os franceses, que o belga antes de dormir coloca um copo d’água cheio e outro vazio no criado-mudo, porque à noite ele pode acordar com sede — ou não. E que os belgas donos de padarias, ou pasticeries, como queiram, são meio atrapalhados, porque se você pede uma baguete sem manteiga eles dizem que a manteiga acabou, pode ser sem margarina?

Mas os belgas têm um grande mérito, o de terem inventado as batatas fritas. Consta que foram os americanos os primeiros a desvendar os dotes culinários do tubérculo ao assá-lo numa fogueira, mas nunca imaginaram que pudessem cortá-lo em tiras e fritá-lo, dada a complexidade do processo. Hoje a América reverencia a guloseima, ainda mais se acompanhada de um belo hambúrguer, este uma invenção alemã.

Quando venho a Spa-Francorchamps, denominação errônea, porque não existe uma cidade com esse nome e sim duas, distantes 20 quilômetros entre si, a primeira Spa e a segunda Francorchamps, me hospedo num vilarejo vizinho, de batismo Malmedy. Spa é mais legal, tem termas e cassino e uma vida noturna muito agitada, que só acaba lá pelas oito horas. Da noite, mesmo, e sendo verão com o sol a pino. Malmedy dorme mais cedo ainda. Se os marcianos do Independence Day aterrissassem nesta região depois das onze concluiriam que a Terra é um planeta inabitado com curiosas formações rochosas em forma de casinhas com floreiras nas janelas.

Nos dias da corrida, a vida ganha outro ritmo e os restaurantes de Malmedy, os dois, que chamamos carinhosamente de “truta” e “italianinho” já que seus nomes são um mistério, fecham mais tarde, aguentam uma gente estranha e barulhenta que fala um idioma incompreensível e discute uma porção de assuntos. Ultimamente, qualquer coisa, menos Fórmula 1. Como diz outro amigo meu, a Fórmula 1 é muito legal, o que estraga são as corridas.

HUNGRIA (09.08.1996) – Tentações

Budapeste é uma daquelas cidades cheias de tentações proibidas. O fim do comunismo, a queda do Muro e todas aquelas coisas que faziam do mundo muito mais divertido do que ele é hoje levaram a Hungria à perdição. Há cassinos, muitos, e mulheres, muitas, em bares suspeitos, muitos também.

Os nomes das casas noturnas não deixam dúvidas sobre seu conteúdo: Pink Pussycat, Dolce Vita, Caligola e Aphrodite são algumas delas. Oficialmente, boates. As meninas dançam e tiram a roupa enquanto você toma uma cerveja. Depois elas sentam à sua mesa, você paga uma champanhe, gasta os tubos, não consegue se comunicar porque elas só falam húngaro e o resto você sabe, é linguagem universal, a mais antiga das profissões etc.

E joga-se muito também, só em dólar. Fui a um cassino ontem à noite, o Las Vegas. Eles tiram sua foto na entrada, pedem o passaporte e desejam bom divertimento. Nada de boa sorte. Arrisquei U$ 50 numa mesa de pôquer e irritei o crupiê porque apostava muito pouco. Perdi tudo e fui embora sem gastar nenhum tostão a mais e amaldiçoando o jogo, as roletas e o black jack. E perdi só cinquentinha, que minha mulher não saiba. Tem gente que deixa a casa, o carro e as roupas. É meio deprimente, esse negócio de cassino. Há uma sensação de que todos são inimigos entre si e sorrir para a mocinha que troca as fichas não pega bem. Falar com ela, então, nem pensar.

A maioria das grandes cidades do Leste Europeu, depois de 89, seguiu pelo mesmo caminho. A mãe Rússia fechou as torneiras, os empregos públicos nas enormes estatais começaram a rarear e as pessoas se viraram do jeito que deu. Para gerar dinheiro, nada melhor que a indústria do turismo e dela fazem parte os cassinos. Por tabela, a prostituição aumentou, ou pelo menos escancarou-se, e é uma realidade visível em Praga, Bucareste ou Varsóvia, em Moscou ninguém faz nada sem a máfia local e por aí vai. Marx bem que avisou.

Mas não pense por isso que Budapeste é uma terra de ninguém, embora para meu gosto já tenha McDonald’s e Nike demais, uma agressão ao passado da Cortina de Ferro, com seus espiões, seus mistérios e seu charme austero. Ao contrário, é uma cidade alegre e maravilhosa que merece ser visitada por sua arquitetura encantadora, seus castelos e igrejas, o Danúbio, que não é azul, suas termas e piscinas públicas, seus Trabant e seu ar cinzento da periferia onde o proletariado, um dia, achou que poderia ser feliz. E talvez tenha sido, mesmo.

ALEMANHA (26.07.1996) – A Norma DIN
Se você vier à Alemanha um dia, vai perceber que os caras só usam o mesmo tipo de letra em placas, na sinalização pública, nas fachadas dos estabelecimentos comerciais, nos painéis de ônibus e em quase todos os logotipos. E também que em todas as estradas a distância entre as faixas e os olhos-de-gato é sempre a mesma, e que nas horas cheias, no rádio, para tudo para o noticiário. E o locutor lê sempre assim: Frankfurt – primeiro-ministro tem dor de barriga; Ancara – explode bomba e mata 200 pessoas; Nova York – cai avião e mata todo mundo; Atlanta – nadador alemão bate recorde mundial, tudo sempre no mesmo tom.

Tudo por aqui é padronizado por um negócio que se chama Norma DIN, sendo DIN uma sigla para Deutshland sei-lá-o-quê, um treco que normatiza tudo, das letras às distâncias, passando pelos equipamentos obrigatórios nos carros, pelos dispositivos de segurança das panelas e pelas medidas dos cinzeiros.
É até legal, mesmo porque lendo o manual do meu DKW, que como se sabe é um carro de origem alemã, descobri que ele está perfeitamente de acordo com as exigências da Norma DIN, e portanto não é por culpa da fumaceira do meu motor dois tempos que mal dá para respirar em São Paulo. Se aqui pode, por que não aí? Ah, meu carro é de 1962 e a Norma DIN era diferente, foi atualizada, vai dizer você, e eu respondo que isso é detalhe.

Mas o alemão, de fato, não consegue viver se não tiver normas a respeitar. O pessoal brinca, diz que alemão é o português que aprendeu a fazer contas, uma evidente maldade, mas a verdade é que eles são rígidos demais e pouco maleáveis ao que a gente conhece por jeitinho, jogo de cintura, coisa de brasileiro. Não, isso o alemão não tem. Basta ver a seleção deles jogando bola, durões, quadrados, mas extremamente eficientes.

E é isso que é a Alemanha, um país eficiente em tudo, que foi destruído por uma guerra há cinquenta anos e em tão pouco tempo se reergueu de maneira assustadora. Hoje os caras fazem aqui os melhores carros do mundo, têm Porsche, BMW, Audi e Mercedes, e acho que isso basta, vivem chegando à final da Copa, se enchem de medalhas nas Olimpíadas e ainda fazem uma baita salsicha gostosa e uma cerveja que vou te dizer um negócio. Tudo graças à Norma DIN, a bíblia germânica, que mete o bedelho em tudo e diz como as coisas devem ser feitas. É meio autoritário, mas funciona. Não se esqueça da Norma DIN quando você vier para cá um dia. É uma das formas de se entender a Alemanha, os alemães e o medo que a Europa tem desse pessoal.

INGLATERRA (12.07.1996) – Viagem’s diário

Na Inglaterra, como se sabe, é tudo ao contrário. A começar pelos carros, os únicos do mundo em que o motorista senta no banco do carona — li isso em algum lugar, não tem muita graça. Aliás, não são os únicos. No Japão é assim, na África do Sul idem, na Índia também, acho que nas Malvinas.

Mas não são só os carros, os diferentes. A língua também é toda invertida. Casa do João, por exemplo, é John’s house, e não house of John, como seria mais lógico. Roda esquerda (do carro) é left wheel, traduzindo, esquerda roda, e não wheel left, afinal a roda é mais importante que o esquerdo, e portanto deveria ser priorizada na sentença, mas não é.

Em compensação, xícara de chá, que por analogia deveria ser tea’s cup, é cup of tea, traduzindo, xícara de chá. Alguém sabe explicar o motivo? Não, como também é inexplicável o fato de os ingleses terem inventado o futebol e jogarem tão mal, como também é inexplicável se escrever inexplicável com x e não com s, enquanto inesperado é com s e não com x. Culpa do latim, do grego e do romano, parece.

E por falar em chá, diz a revistinha da Benetton, aquela mesma que avacalhou com São Paulo quando teve corrida no Brasil, que inglês não sabe fazer comida, e que por caridade o resto do mundo concedeu aos britânicos o título de melhores fazedores de chá do mundo, posto que a única habilidade exigida é ferver a água, algo não muito complicado.

Mas são espertos os ingleses, ao contrário do que deixam transparecer. A rainha Elizabeth, por exemplo, com aquela carinha de pamonha, é durona, tirou o título de Sua Alteza Real da Lady Di, que finalmente se divorciou de outro pamonha, o pamonha Charles. Diana vai ganhar trinta milhões de dólares para se divorciar. É espertinha. Queria mais, setenta milhões, mas as altezas reais bateram o pé nos trinta mesmo.

E o Charles quer se casar de novo, com aquela horrorosa da Camila Parker-Alguma-Coisa, não lembro o sobrenome, só lembro a cara de buldogue dela, e os ingleses estão apavorados com a possibilidade de ela virar rainha, é preferível uma pamonha a um buldogue, pamonhas são simpáticas.

E tomara que a rainha não leia isso tudo, porque se ela souber que a chamei de pamonha não me deixa mais entrar na Inglaterra, e isso vou lamentar, porque gosto daqui, gosto de chá, gosto do fog, só não gosto da cerveja quente. Mas não corro esse risco. Quero ver é alguém do serviço secreto traduzir pamonha para a rainha. Nem falando ao contrário.

CANADÁ (14.06.1996) – Meia aliche, meia mussarela

Um dos aspectos interessantes de vir ao Canadá é ter que se valer dos serviços de companhias aéreas dos Estados Unidos. Como quase nunca vou aos Estados Unidos, divirto-me muito com as particularidades que envolvem uma viagem ao país, mesmo que seja de passagem, como é meu caso. Na fila do aeroporto, por exemplo, ainda no Brasil, a funcionária da companhia, seja qual for, leva a cabo um interrogatório curiosíssimo antes de despachar a bagagem.

Pergunta se por acaso eu estou levando alguma bomba na mala, e naturalmente a resposta é não, apenas os fios, o explosivo vou comprar lá, brinco, o que não é recomendável. Quem fez a sua mala, pergunta, e eu respondo que foi minha empregada, e ela quer saber se a moça em questão tem vínculos com alguma organização árabe ou se é filiada à seita do reverendo Moon, e eu respondo que não, que já faz tempo que ela chegou do Iraque, nem usa mais o véu, apesar de ainda rezar voltada para Meca, e isso também não é recomendável dizer.

Na entrada do avião, outro funcionário me questiona sobre a mala onde está meu computador. É minha bagagem de mão, digo, e ele pergunta onde ela esteve nos últimos minutos, e eu digo que esteve na minha mão, visto que é uma bagagem de mão. É legal desconcertar esse pessoal acostumado a perguntar a mesma coisa centenas de vezes por dia e a receber respostas temerosas e graves, como se alguma grande conspiração contra a América estivesse sendo tramada em Guarulhos ou Mogi das Cruzes.

Uma vez dentro do avião, as coisas não são assim tão ruins. É verdade que num avião de 300 lugares há menos de 15 para fumantes, parte da campanha doentia que os americanos fazem contra o cigarro e os fumantes, mas com algum jogo de cintura dá para driblar a histeria e acender unzinho lá no fundo. E o voo em geral é agradável, dá até para telefonar para casa do aparelho instalado na poltrona, e muitas vezes o jantar é nada menos do que uma pizza, isso mesmo, pizza. Nunca tinha comido pizza em avião, meia aliche, meia mussarela.

Pena que desta vez vou ficar pouco no Canadá, um país generoso, bonito, culto e agradável. Segunda-feira pela manhã me mando para Miami, onde mora meu irmão mais velho, que vejo uma vez por ano. Lá chegando, vou responder às mesmas perguntas sobre bombas e drogas, tendo que acrescentar que nunca fui nazista e jamais estive pessoalmente com Hitler ou Fidel Castro. Faz parte dos cuidados que Bill Clinton toma para manter a paz em seu território. Gosto de Miami, tem bons bares e saborosas asinhas de frango com cerveja gelada. O único problema é que ninguém fala inglês, e meu espanhol está cada vez pior.

MÔNACO (17.05.1996) – Já foi melhor

Tem uma boate aqui em Mônaco que, dizem, é o point da moda, é onde se deve ir para ver e ser visto, essas babaquices. Chama-se Dimes, e como eu nunca vou a festa nenhuma nesse paiseco de esnobes, resolvi que iria lá sexta à noite. Pensei em pintar o cabelo de vermelho e vestir um paletó verde com gravata amarela, para aparecer, mas me aconselharam a não ser tão discreto, que pega mal.
Aí abro o jornal, o simpático Nice-Matin, e leio que uma cerveja na Dimes custa 200 Francos. Dá 40 dólares. Uma cerveja. Não é preciso dizer que não fui à boate e que me limitei a uma pizza no calçadão da Rue Massena em Nice, a 20 km do Principado, a alguns metros do hotelzinho de quinta em que estou hospedado.

De quinta, sim, porque não pense que é fácil arrumar um quarto no Hermitage ou no Hotel de Paris, com suas sacadas debruçadas sobre o porto de Mônaco e as ruas por onde passam os pilotos de F-1. Fácil é, basta ter cinco mil dólares para torrar em quatro dias só em diária. Difícil é arranjar tanto dinheiro assim.

Mas há suas compensações. No ano passado, por exemplo, quando embarquei em Paris, soube que a Sharon Stone estava no mesmo avião, indo para o Festival de Cinema de Cannes. Acho que era mentira, mas sou daqueles que acha que verdade é aquela mentira bem contara, e por isso coloquei no meu currículo, no item “viagens internacionais”, que voei com a Sharon Stone, sem entrar em maiores detalhes.
Este ano estava a Cher no meu avião, e desta vez é verdade mesmo, porque eu a vi. Magra, branquela, envelhecida, vestida de preto e chupando pirulito de uva. Um horror, mas era a Cher. Vai pro currículo também. Tinha um outro ator, que não sei o nome, e um bando de japoneses que compraram todos os estúdios de cinema de Hollywood e foram para Cannes conferir o lucro ou prejuízo de seus negócios.

Em Mônaco, mesmo, pouca gente importante. No ano passado veio o Maradona. Agora, parece que o Al Pacino ficou de aparecer, mas ainda não vi. A família real só dá as caras no domingo e olhe lá, porque eu soube que o príncipe Albert, depois da largada, sai do seu camarote à prova de bala e sobe no apartamento de um amigo para ver a corrida na TV, voltando só na hora de entregar os troféus. E a princesa Stephanie se casou com um segurança, está cheia de filhos e isso a

ITÁLIA (03.05.1996) – Mucca Pazza

Quando ouvi a expressão na TV, quase morri de rir. Era um programa para adolescentes, chamado “Planet”, em que a entrevistadora perguntava a alguns jovens — e jovens são iguais no mundo todo — se eles não tinham medo de comer hambúrguer por causa da mucca pazza. Mucca pazza!

Mucca pazza é vaca lôca, my brother. Estamos na Itália, e aqui também o pessoal tem medo de bifes por causa da vaca lôca inglesa. E não sei bem porque estou falando na mucca pazza, mas foi o que me fez sorrir pela primeira vez segunda-feira à noite, quando cheguei da Alemanha.

Estive na Itália pela primeira vez em 89. Quando desci do trem em Roma, tarde da noite, fui correndo telefonar pra casa. Tirei o fone do gancho e nada de linha. Pi-pi-pi, sinal de ocupado. Orelhão quebrado, pensei, e troquei de aparelho. De novo a mesma coisa. “Questo orecchione no funziona!”, gritei. Todos os telefones do país estavam quebrados.

Na verdade, descobri depois, o telefone dá a linha na Itália quando está ocupado. Não é brincadeira. Computadores enlouquecem aqui. Só nos dois primeiros dias deste GP de San Marino, dei assistência técnica a um português, um croata, um canadense e um inglês para que seus textos cruzassem o éter e chegassem às redações.

Este último, um londrino meio esnobe, eu sacaneei de propósito e até agora ele está ditando suas matérias pelo telefone para um editor enfurecido. É um chato que me disse, quando fui prestar meus serviços gratuitamente, que esperava esse tipo de dificuldade de transmissão em países como o Brasil, nunca na Itália. Cretino. O problema é que o modem de um computador só disca um número quando consegue identificar uma linha. Descobri isso alguns anos atrás e há um comando secreto que emburrece a máquina, fazendo-a discar mesmo se estiver tocando o Luiz Melodia do outro lado da linha.

A Itália é onde o brasileiro se sente em casa quando está na Europa. Aqui pode parar o carro sobre a faixa de pedestre e passar o sinal vermelho. É de bom tom xingar alguém quando se comete tal infração. Quase atropelei um velhinho no início da semana em Bolonha e percebi que quem tinha o direito de reclamar era eu, e não ele. Curioso, este país.

E tem o futebol, o Milan, a Juve, as corridas de bicicleta, o macarrão delicioso e a pizza nem tanto. Pizza boa é em São Paulo, na Vila Mariana. E a língua, linda, sonora, sentimental. E a Ferrari, claro. Se há um país que merece mesmo mais do que um GP, é a Itália, onde vaca lôca é mucca pazza, a melhor definição para bovinos malucos que já ouvi em toda minha vida.

ALEMANHA (26.04.1996) – Só falta falar

Não me considero um jeca, mas confesso que às vezes fico boquiaberto com algumas coisas que vejo cada vez que desembarco na Europa. Cheguei quarta-feira à tarde ao aeroporto de Frankfurt e fui pegar meu carrinho alugado para vir a Eifel Land, a região onde fica Nürburgring, 180 km a oeste. Desta vez dei sorte. Reservei o mais barato de todos, mas já não havia nenhum disponível e jogaram na minha mão uma charanga, como diria, da hora.

A marca não interessa. Claro que se fosse um Audi ou um Porsche iria aproveitar para me gabar, mas não é o caso. O carro em si, lindão, é verdade, não tem a rigor nada de espetacular. Só o rádio.
E que rádio, rapaz! Você liga e aparece a frequência no painel do carrão, ao lado da temperatura externa e da hora certa. Não tem dial, ponteiro, essas coisas do arco da velha. Até aí, nenhuma surpresa. Já vi algo parecido antes. Só que de repente começaram a aparecer no painel algumas coisas estranhas. Primeiro “Cramberries”. Depois, palavra por palavra, “Ode to my Family”. Profundo musicólogo que sou, liguei os fatos, apurei os ouvidos e conclui que o bendito do rádio, naquela estação, a FFH, diz por escrito no painel o nome da música que está tocando. É o primeiro rádio para surdos que vejo em toda minha vida. Você pode não ouvir, mas vê.

E não para aí. Outras emissoras informam pelo painel o clima em várias cidades da Europa e as condições das estradas. Fiquei sabendo pelo painel, por exemplo, que em Estocolmo a temperatura era de 19 graus e que a Autoestrada 3, que me levava a Nürburgring, tinha trânsito “gut”, ou seja, bom, fluindo legal, sem congestionamentos. Logo depois entrou um número de telefone que eu não entendi direito se era disk-erótico, telepizza ou comida chinesa, porque estava ultrapassando um caminhão naquela hora.

Cada rádio dá uma informação diferente. As mais pobrezinhas inscrevem apenas o nome no dial, ou no painel, melhor dizendo. Deduzi que o equipamento transmissor da emissora tem que ser compatível com o aparelho receptor do carro. Os sinais são emitidos por ondas de rádio e convertidos quando passam pela antena. É uma tecnologia até simples, mas nem por isso menos genial.

Minha surpresa foi tão grande ao perceber que meu rádio fazia tudo isso, que exclamei: “Só falta falar”. Claro que é uma grande idiotice, já que falar é a única coisa que os rádios sempre fizeram, desde os tempos de Marconi. Sorte que não tinha ninguém perto para ouvir. Ou será que o dito cujo escuta, também? E se escutar, será que entende português?

ARGENTINA (05.04.1996) – Mucho legal

Estou começando a entender esse negócio de Mercosul. Na verdade, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai são tudo farinha do mesmo saco. Tem só uma pequena diferença de língua, nada más. E não é preciso muito esforço para entender o que os caras falam. Coca-Cola é Coca-Cola (e não Cueca-Cuela, como pensam alguns); Maradona é Maradona; bom dia é buenos dias, mas se você disser bom dia eles entendem do mesmo jeito. Há que se tomar cuidado apenas com todavía, que é ainda, e empezar, que é começar. Em Bagé também se diz empeçar, e Bagé fica no Brasil.

Cheguei a Buenos Aires tentando falar um bom espanhol, mas desisti depois do primeiro “tchau” que recebi em troca de um elaborado “adiós”. Agora estou dizendo “oi” e “obrigado”, para não complicar. Decidi assumir minha brasilidade depois de assistir a um noticiário bilíngue na TV, com o presidente Fernando Henrique batendo um animado papo com Carlos Menem diante de uma apresentadora argentina e uma brasileira que diziam “besos para Brasil” e “um abraço pra toda a galera de Buenos Aires”. Una esculhambación.

As semelhanças entre Brasil e Argentina são enormes, maiores do que sempre pude imaginar. Nos carros, por exemplo. Aqui tem Gol, Verona (que se chama Orion), Versailles (é Galaxy), Pointer, Uno e Prêmio (que é Duna). Tudo feito em Betim e São Caetano. Creio até que nossa maior frustração em relação aos portenhos, origem da rivalidade histórica entre os dois países, é o fato de termos convivido com Opalas por mais de 20 anos, enquanto eles o fizeram com os Ford Falcon, muito mais hermosos, digo, charmosos. Mas ambos, Opala e Falcon, acabaram.

Nós tivemos Pelé, eles Maradona. Temos o Flamengo, eles o Boca. Roberto Carlos e Julio Iglesias. Mar del Plata e Guarujá. Senna e Fangio. Buenos Aires e São Paulo. Picanha e chorizo. Leonardo Pareja e rebeliões a granel nos presídios argentinos. É tudo igual. Até na malandragem. Aqui hai que se tomar alguns cuidados. Os melhores hotéis pedem que os hóspedes anotem sempre o número de matrícula dos táxis que vão usar. “Tenemos muchos picaretas”, me disse o porteiro do meu, com incrível desenvoltura. “Picaretas?”, perguntei. “Si, picaretas, como dijo Luiz Inacio”. Ah, entiendo, respondi.

É tudo igual. Escutei até axé music no rádio traduzida para o espanhol. A letra diz “yo quiero te abraçar, te besar, peciso de usted”, sem a menor cerimônia. Argentino é o brasileiro que fala espanhol e tem cabelo comprido. E as meninas usam saias mais curtas do que aí. É tudo mucho legal, de verdad.

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Lets go shopping – 07/07/1997

Se você acha que o paraíso das compras é Miami, é porque nunca foi a Silverstone. Nesses dias que antecedem a viagem para o GP da Inglaterra, o gerente do meu banco costuma pedir férias, o pessoal do cartão de crédito telefona pedindo para eu maneirar e minha empregada exige salário adiantado. Um advogado amigo da minha mulher, da mesma forma, telefona como quem não quer nada para me alertar sobre os altos custos de um divórcio nos dias de hoje e o valor de uma pensão alimentícia, mesmo para quem não tem filhos.

Tudo isso porque três anos atrás, quando estive em Silverstone pela segunda vez, fui às compras. Tive um dia livre, a quarta-feira da semana da corrida, e aproveitei para passear pelas barraquinhas montadas no circuito. Vende-se de tudo, o que não é nenhuma novidade: camisetas, bonés, pôsters, livros, adesivos, bandeirolas, esse tipo de badulaque que a gente encontra nas portas de estádios ou nos camelôs do viaduto Santa Ifigênia, aqui no centro de São Paulo.

Só que lá pelas tantas dei de cara com uma barraca um pouco maior, com o respeitável nome de Grand Prix Memorabilia Products. Só saí de lá uma hora e quarenta e dois minutos depois (o vendedor cronometrou), deixando para trás uma conta de 748,25 libras esterlinas (uns mil dólares, na época) e ostentando um sorriso só comparável ao do meu primeiro autorama, que se transformou em berreiro quando meu pai me informou que a Lotus preta, do Emerson, era do meu irmão mais velho e que o carro vermelho e branco seria o meu. (O capacete era igual ao do Wilsinho, daí minha choradeira, plenamente justificada.)

Carregando três sacolas e uma caixa de papelão, lá fui eu para a sala de imprensa com minhas mais novas aquisições: uma engrenagem do câmbio do Brabham do Mark Blundell, de 91, duas velas usadas no Tyrrell do Olivier Grouillard no GP do México também de 91 e outras duas do March que levou o Paul Belmondo ao 12º lugar no GP da Espanha, mais uma válvula de admissão do Footwork do Michele Alboreto, 13º em Adelaide, um semi-eixo do Williams FW11, de 86, um cinto de segurança que amarrou o Stefano Modena na Brabham em 90, um radiador de óleo do Williams FW11B/Judd de 88, quatro porcas das rodas do Jordan 191 e – morram de inveja, meus amigos – o aerofólio da Arrows de Derek Warwik de 90! Pendura-lo-ia na sala, no lugar daquela reprodução da capa do Loto Azul, do Tintin.

Restava, então, telefonar para minha mulher e lhe dar as ótimas notícias sobre a redecoração de nosso apartamento. Ela vai adorar as velas do Grouillard ao lado do telefone, imaginei, e o semi-eixo da Williams sobre a mesa de centro, que não é muito grande. Liguei a cobrar e, de um fôlego só, dei a lista. Percebi um urro de satisfação quando cheguei ao cinto de segurança e reforcei, antes que ela perguntasse: É, é do carro do Modena mesmo, não do Gregor Foitek!

Foi quando pela primeira vez ouvi falar do advogado amigo dela. Estaria me esperando no aeroporto e se notasse um aerofólio na minha bagagem entraria com os papéis do divórcio imediatamente. Argumentei que por mais 117 libras poderia trocar o aerofólio em questão por um do Williams FW12, se ela preferisse, já que parecia não gostar da Arrows do Warwik, e ouvi uma sequência impublicável de palavrões seguida de uma sugestão de onde deveria colocar as velas e o radiador de óleo do câmbio, reiterada quando especifiquei que o último era uma raridade, do câmbio da Judd, o motor que a Williams usou naquele ano.

Depois de longa negociação, consegui salvar as porcas da roda da Jordan. Tive que devolver o resto, com dor no coração. Arrependo-me especialmente por ter deixado para trás a válvula de admissão do Alboreto, uma beleza – devia ter trazido escondido.
No fim, gastei só 94 libras. Semana que vem volto lá. Vai que os caras têm alguma coisa do Thierry Boutsen, ou do Philippe Alliot, quem sabe, até, do Bertrand Gachot na Coloni ou do Yannick Dalmas nos tempos de AGS. Só que desta vez não telefono para casa antes, porque ligação internacional é um negócio muito caro.

Prost derrota Stewart no duelo dos ex-campeões

Alain Prost era ontem, provavelmente, o homem mais feliz de Interlagos. Como chefe de equipe, conseguiu uma quinta colocação no grid para Olivier Panis, seu primeiro piloto. É a melhor posição de largada obtida pelo francês em toda sua carreira. E fiquei a dois décimos da primeira fila!, admirou-se Panis. Prost, tetracampeão mundial, ex-piloto da Renault, McLaren, Ferrari e Williams, largou na pole-position 33 vezes e venceu 51 corridas em sua vida. Mas tem dito nas últimas semanas que fazer aquilo era fácil. Difícil é conseguir mover uma estrutura complexa como a de uma equipe de F-1 e busca de resultados que dependem da eficiência de centenas de pessoas. Sua equipe herdou toda a base da Ligier. Na verdade, só mudou de nome. Mas de filosofia, também. Prost tem uma atitude espartana em seu time. Os boxes da equipe têm decoração simples e primam pela funcionalidade. O maior luxo é um relógio de parede como o horário da França, daqueles que se encontra em qualquer cozinha. Os comunicados de imprensa distribuídos aos jornalistas são em preto e branco, contrastando com o luxo do papel especial prateado usado, por exemplo, pela McLaren.

No Brasil, a Prost Grand Prix estreou novo patrocínio, da Bic, multinacional que faz isqueiros, canetas e barbeadores descartáveis. Assinou por quatro anos. Na condição de dono de equipe, Alain atua como empresário, engenheiro e ex-piloto. Ao meio-dia, almoça com o presidente da Bic no Brasil e Argentina, o brasileiro Douglas Ribas; em seguida coloca um fone nos ouvidos e instrui o time pelo rádio. Quando Panis pára nos boxes, é a ele que se reporta. E, baixinho, fica na ponta dos pés para observar os tempos nos monitores, com um mar de gente à sua frente.

Jackie Stewart, outro ex-campeão que estreou este ano como chefe de equipe, tem atividades menos complexas. Deixa o trabalho duro para seu filho, Paul. Os dois são os únicos na Stewart que usam calças em tartan, o padrão de tecido escocês xadrez. É o símbolo da equipe, incorporado por Rubens Barrichello em seu capacete. Por enquanto, no duelo dos lendários ex-pilotos, Prost leva vantagem. Em Melbourne, Panis ficou em quinto lugar. Hoje, pode beliscar mais pontos. Estou apenas aprendendo, diz Prost, humilde. Vai longe, o baixinho.

Schumacher usa cola no volante de sua Ferrari – 29/03/1997

Michael Schumacher não deve ter sido um bom aluno quando criança. Era daqueles que quando tinham prova no colégio levavam uma cola presa dentro do estojo ou escrita na palma da mão. Na F-1, faz a mesma coisa. No centro do volante de seu carro há um pequeno desenho do autódromo de Interlagos com alguns pontos assinalados.

O piloto da Ferrari brinca com o assunto e não diz o que representam as anotações no papelzinho colado na direção. Podem ser um mapa de ondulações, ou então um auxílio que o ajude a encontrar pontos de referência onde deve acionar o câmbio semiautomático, que sobe e desce as marchas eletronicamente com um único toque na borboleta atrás do volante. O carro de Irvine, seu colega de Ferrari, não tem desenho nenhum.

Schumacher e seu companheiro usaram no treino de ontem em Interlagos pneus mais duros e resistentes. É uma aposta no desgaste excessivo dos compostos macios da Goodyear, que pode levar os rivais que optaram por este tipo de pneu a fazer pelo menos duas paradas nos boxes. Se isso acontecer, aqueles que pararem apenas uma vez levarão uma grande vantagem na prova.

Villeneuve pensa em ter equipe própria, diz imprensa inglesa – 27/03/1997

Jacques Villeneuve está com ideias malucas na cabeça. O canadense que estreou no ano passado na Fórmula 1, e já conseguiu o vice-campeonato mundial, está pensando em montar sua própria equipe. A notícia foi divulgada ontem pela imprensa inglesa. Seus sócios na empreitada seriam Greg Pollack, seu empresário desde os tempos da F-Atlantic, nos EUA, o advogado Julian Jakobs, até hoje ligado às empresas da família Senna e que também administra sua carreira, e um patrocinador de longa data, a Players, marca de cigarro do Canadá.

Como quase tudo na F-1, a notícia é um quebra-cabeças cujas peças se encaixam com alguma lógica. A Players está entrando no mercado europeu e começou a vender seus cigarros na Inglaterra. A F-1, como se sabe, é um ótimo veículo de divulgação para qualquer marca. Villeneuve, cujo contrato com a Williams termina no final do ano, se considera um fenômeno capaz de conquistar títulos na hora em que quiser e acha que não precisa da Williams para fazê-lo. Jakobs não vê mais muitos motivos para continuar atrelado aos negócios da família Senna. Pollack, por sua vez, é amigo do peito de um milionário americano visceralmente ligado ao automobilismo, John Menard.

Menard é aquele que todos os anos coloca meia-dúzia de carros nas 500 Milhas de Indianápolis – Nelson Piquet, quando esteve lá em 92 e 93, correu com um carro dele. Hoje Menard participa da IRL e tem sob contrato um dos melhores pilotos dos EUA, Tony Stewart. Menard tem dinheiro o bastante para se aventurar na F-1, mais ainda se contar com o suporte financeiro da Players.

Pollack, o empresário de Villeneuve, nega a veracidade da história, o que não surpreende. Ele jamais admitiria que seu pupilo anda pensando em alçar voo tão ambicioso. De qualquer maneira, fica o registro. Jacques não é propriamente amado na Williams e teve algumas rusgas com Patrick Head, um dos donos do time, no ano passado. Segundo Head, Villeneuve não gosta de testar e é marrudo quando se trata de discutir acerto de carro. E como na F-1 boato muitas vezes vira verdade, é bom ficar de olho no que vem por aí.

Villeneuve assume favoritismo e diz que seu carro é perfeito – 05/03/1997

Deram corda para ele, agora aguentem. Jacques Villeneuve, cantado em prosa e verso como favorito ao título mundial de Fórmula 1 deste ano, resolveu assumir a condição de maior candidato à conquista. Na noite de hoje, quando começam os treinos para a primeira etapa do campeonato, o GP da Austrália, o canadense da Williams vai querer comprovar o que vem alardeando nas últimas semanas: que seu carro é nada mais nada menos do que perfeito e, por isso, o campeão será ele mesmo.

O excesso de confiança provém da lógica villeneuviana: Eu já conheço bem minha equipe, estou adaptado à Fórmula 1, me entendo perfeitamente com engenheiros e mecânicos, já andei em todos os circuitos e meu carro é o melhor de todos. O meu companheiro de equipe está chegando agora, tudo representa um novo mundo para ele, e por isso será mais fácil para mim.

No fundo, faz sentido. Jacques, é claro, se esquece de mencionar os mais de 5.000 km de testes feitos por seu novo parceiro na Williams, o alemão Heinz-Harald Frentzen, mas releve-se a omissão – até porque em 95 Villeneuve teve a mesma preparação e levou chumbo de Damon Hill no ano seguinte. Só que ele nem lembra que existem outras equipes, como a Ferrari, a Benetton e a McLaren. E outros pilotos, tipo Michael Schumacher, Jean Alesi, Gerhard Berger, Mika Hakkinen e David Coulthard. Gente que poderia, sem maldade nenhuma, atrapalhar seus planos de ganhar o título com um pé nas costas. Mas Jacques não se abala. Ainda seguindo sua lógica quebequiana, resume em uma frase as razões que o levaram a se autoproclamar campeão por antecipação: O único defeito do nosso carro é não ter defeitos. Como não conseguimos encontrar nada errado para corrigir, somos incapazes de dizer em que sentido poderemos progredir.

Caramba! Então, se é assim, é melhor nem começar o campeonato, dirão os mais afoitos. Bem, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Na verdade, a Williams pode ter feito, como fez, um baita carro. Mas vai enfrentar algumas dificuldades na temporada que começa à meia-noite de sábado (horário de Brasília), com a largada para as 58 voltas do GP australiano (o grid será definido a partir das 23h de sexta-feira, já que a diferença de fuso horário para Melbourne é de 14 horas).

O maior desfalque do time inglês em 97 é Adrian Newey, um Professor Pardal que radicalizou o conceito aerodinâmico do bico alto na Williams, algo copiado por todo mundo. Brigado com a equipe, porque recebeu uma proposta milionária da McLaren e a Williams não o liberou, o projetista não vai trabalhar no desenvolvimento do FW19. A demissão de Hill, em que pesem as críticas que muita gente faz ao campeão mundial, também pesa – não se deve esquecer que Damon foi um dos maiores responsáveis pela transformação dos carros da Williams em máquinas quase imbatíveis. De qualquer maneira, Jacques e Frentzen dispõem, hoje, do melhor equipamento que a F-1 pode produzir. Cabe aos adversários sair à caça. Com tais ingredientes, no lindo cenário do Albert Park, em Melbourne, o mundo começa a descobrir neste fim de semana se o canadense grunge que usa boné do Mickey é só um falastrão, ou se sua lógica é daquelas que nem o sr. Spok contesta. A resposta será dada na pista.

PREVISÃO – 26/12/1997

Anote aí as minhas previsões para 98, porque não estou com vontade de fazer balanço da temporada, quem faz balanço é banco. Eu normalmente acerto todas, minha margem de erro nos últimos campeonatos tem sido menor do que 2%. E um ótimo ano a todos vocês que tiveram a paciência de me aturar em 97.
Volto em fevereiro, bronzeado pelo sol de Porto Seguro e louco para ver uma corridinha de novo. Tchau.

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Schumacher e Villeneuve vão se reconciliar. Para provar que está sendo sincero, Michael vai pintar o cabelo de amarelo. Jacques, por sua vez, doará um filhote de vira-lata para o alemão. Mas não vai avisar que está cheio de pulgas.

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Rubinho vai reclamar do motor, do pneu, do asfalto, do calor e do hotel. Vai prometer largar entre os oito primeiros e tentar chegar nos pontos. Vai lamentar o azar que o tirou do pódio e, no fim da temporada, dirá que foi um ano de aprendizado e que a equipe cresceu muito.

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Raul Boesel, finalmente, conseguirá sua primeira vitória. Será num campeonato de autorama com os filhos pequenos. Mas o mais velho entrará com um protesto junto à FIA porque o carrinho do papai tinha quatro rodas e o seu, só três.

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Gil de Ferran vai bater o carro oito vezes e no final do ano dirá que se não fossem aqueles azares, seria campeão.

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A FIA vai mudar de novo o regulamento, porque os carros estão muito rápidos. Só serão permitidos freios a lona e câmbios manuais de quatro marchas. Os carros também terão que levar estepe no porta-malas e o pit stop será feito pelo piloto sozinho.

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O Galvão Bueno vai dizer “quando surgir a luz verde” três vezes. E vai chamar Jacques de Gilles 14 vezes.

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André Ribeiro terá que fazer uma plástica para tirar o sorriso do rosto, porque se já dá risada sem ganhar nada, imagine na Penske, faturando uma corrida aqui e outra ali.

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E eu serei pai.

Até o ano que vem.