VAI QUE AINDA DÁ! – 07/11/1997

Toca o telefone e eu atendo rápido, alô Cristina!, digo, minha mulher contou que existe um programa na TV às terças-feiras que dá prêmios, panelas de pressão e cafeteiras, coisas assim. Evidente que não era a Cristina, porque do outro lado da linha ouvi Was?, das poucas palavras em alemão que conheço, e significa precisamente o quê?, e até onde eu sei a produção dos programas de TV costuma falar português.

Por que todo mundo acha que ele é o bonzinho e eu o bandido, o cafajeste, o sem-vergonha, o safado?, perguntou, choramingando. Bem, respondi, o que você queria? Podia pelo menos ter disfarçado, se tivesse abatido o menino com uma bazuca teria sido mais discreto.

Ele começou a chorar convulsivamente e eu pedi desculpas, o que é isso, rapaz, é brincadeira, já passou, daqui a uns dez anos o pessoal esquece, e ele abriu ainda mais o berreiro.

Mais calmo, pediu conselhos, não sei bem por que ele sempre liga para mim nessas horas. O que eu vou dizer em Paris?, perguntou. Diga aos caminhoneiros para acabarem com a greve e vá comer um crepe na esquina, respondi, depois telefone pra Ferrari e pergunte o que eles acharam de você ter faltado à reunião com os caras da FIA.

Como ele não entendeu nada, avisei que ia ser em Londres, não em Paris, e que era melhor ele começar a ler jornal para saber das coisas. Não dá, respondeu, ontem o tabloidinho semanal aqui do bairro me desenhou com chifres e rabo pontudo, não aguento mais!

Ora, fique tranquilo, já planejei sua defesa, tranquilizei-o. A primeira alegação: você pensava que era o Frentzen, e como ele andou trocando olhares lânguidos com a Corinne, você resolveu se vingar. Mas e o campeonato?, ninguém ia acreditar que eu ia perder o campeonato por causa de mulher!, exasperou-se.

Ok, ok, é verdade, ainda se fosse a Sharon Stone, comentei, e ele me xingou em alemão. Relevei, até porque não entendi, e prosseguimos. Foi para protegê-lo, alegue. O garoto estava correndo demais, ia parar no guard-rail, foi um ato de caridade, e termine dizendo ainda bem que deu tudo certo, felizmente ele não se machucou. Isso vai sensibilizar os velhinhos.

Você acha?, duvidou, e eu disse claro que sim!, são todos senhores respeitáveis que se preocupam com a segurança dos meninos. Então parta para o ataque final, que ainda dá para reverter o quadro. Peça para anularem a corrida. O quê?, animou-se, e eu, é isso mesmo, anular a corrida. Diga que naquela curva tinha um mecânico com peruca amarela e você achou que era bandeira, por isso tirou o pé. Conheço um cara que insere imagens no computador, dá até para forjar uma foto, não tem erro…
Nesse momento ele já não estava mais na linha. Só ouvi, ao fundo, Schumacher gritando, Corinne, arruma a fita da corrida, sabe aquelas perucas?, acho que ainda dá tempo!

Advertisements

APOSTAS – 25/10/1997

Nada como uma decisão. Estou-me acostumando a elas: no ano passado fui a Porto Alegre ver a Portuguesa ser derrotada perversamente pelo outro time, cujo nome me recuso a pronunciar até hoje. Naquela semana, feitas as contas, perdi três garrafas de uísque, dois jantares, um boné e as costeletas. Foi tudo que apostei na Lusa, e perdi. Agora é aqui, em Jerez.

Muito bem. Estão em jogo, amanhã, mais dois uísques, um jantar no Fasano, uma pizza no Camelo, uma compra na loja de roupas que eu escolher (mas são só cinco minutos para pegar o que der, como naqueles programas de TV), uma rodada de cerveja para 11 pessoas, dois carrinhos da minha coleção de miniaturas, três picanhas maturadas e um cupim.

Quase todo mundo que eu conheço acha que o Schumacher vai ser o campeão. Eu, do contra, joguei minhas fichas no Villeneuve. Com o cara das picanhas, fui além: disse que ele ganha de ponta a ponta e que o alemão queixudo abandona na terceira volta por algum motivo medíocre, como pastilha de freio, rolamento de roda ou limpador de pára-brisa. Essa eu vou perder, acho.

Não tem problema. É legal acompanhar uma decisão de perto, ou pela TV, como muita gente vai fazer no Brasil, cheio de motivações além do resultado da contenda em si. Pode ser uma impressão falsa, mas acho que as pessoas por aí estão ligadas no campeonato, vão parar amanhã para ver a corrida, vão devorar os jornais na segunda-feira, estão vibrando com as baixarias dos pilotos, um xingando o outro, o Irvine distribuindo “fucks” a torto e direito.

Imagino que seja assim porque vi um adesivo da Ferrari numa Parati, quarta-feira, quando ia para o aeroporto, com a frase “Forza Schumacher” colada na lataria. Como se estivesse saindo do estádio depois de um jogo com o Palmeiras, fiz sinais obscenos para o sujeito, que deve estar se perguntando até agora quem era aquele maluco num táxi gesticulando feito doido.

Nada contra Schumacher, pessoalmente. Mas terei que torcer pelo nanico canadense, se não por outro motivo, porque o uísque está caro e o pessoal da cerveja entorna o líquido com certa fúria. Corro o risco de ter um prejuízo danado. Estou pensando até em rachar as despesas com o Jacques, se ele não ganhar. É melhor, portanto, que vença. E eu ainda estou aceitando apostas, até a hora da largada. Quem quiser, que se manifeste.

MEU CLONE! – 17/10/1997

Quando fechei meu computador domingo passado em Suzuka, já eram mais de onze da noite no Japão. Oito horas antes, o mundo vivera o drama de mais uma corrida que entra para a história da F-1. Uma prova que despertou sentimentos diversos aqui e ali, o ódio e o amor à Ferrari, o desprezo e o elogio rasgado ao companheirismo de Irvine, a solidariedade e a crítica pontiaguda a Villeneuve.

Conversando com meus botões, conclui que a estratégia da Ferrari foi perfeita, o que não me leva a admirá-la, no entanto. Não gosto dessa coisa de um sujeito abrir mão da vitória, do momento mais importante de sua vida, como fez Eddie, para deixar o chefe ficar com os louros da vitória. De qualquer maneira, Jacques tentou algo parecido, e igualmente condenável, e ficamos empatados. Eles ganham para isso, para levar emoções aos seus fãs, e quem sou eu para dizer o que devem fazer?

Peguei minhas coisas e decidi, noite alta e fria, dar uma passadinha no hotel do circuito, a meia hora de marcha acelerada. Já não havia mesmo nenhum restaurante aberto e tinha combinado de encontrar o Reginaldo Leme, o Odinei Edson e alguns amigos brasileiros na festa-karaokê que normalmente encerra a temporada no Japão.

Sempre me contaram que os pilotos aparecem por lá e que é uma ótima chance de encontrar os rapazes desligados das tensões do campeonato, tomando cerveja e saquê, arriscando algumas músicas nessa que é uma das maiores diversões dos japoneses.

Alguns estavam lá, de fato. Rubinho, Frentzen, Herbert, Magnussen, Paul Stewart. Schumacher já tinha ido embora. Chegou comportado, com a mulher, tomou um suco de maçã e foi dormir. Passava da meia-noite quando, já no terceiro saquê (dizem que tomei vários, o que contesto com veemência), olhei para uma das cabines e lá estava o Villeneuve, microfone na mão, esgoelando-se com o playback de alguma música do Queen.

Algumas horas antes ele havia passado pelos piores momentos de sua carreira. Podia ter perdido o título ali mesmo, em Suzuka. Mas foi para a festa, encheu a cara, divertiu-se como um adolescente. Quando fui embora, bem tarde, ele ainda estava ali, cantando “Bridge Over Troubled Water”. Antes, ao cruzar comigo no balcão pedindo uma cerveja e outro saquê, razoavelmente abastecido — ele e eu —, Jacques deu um grito, “Meu clone!”, e me abraçou (estou com os cabelos iguais aos dele, mas não vou mais falar sobre isso). Quase fomos para o chão. Os japoneses de plantão nos iluminaram com seus flashes.

Que me desculpem os admiradores do profissionalismo, competência e seriedade de Schumacher, mas são essas coisas que me fazem torcer pelo Villeneuve, embora não seja o papel de um jornalista torcer por ninguém. A punição a Jacques foi justa e ele não tem do que reclamar. Mas, de qualquer forma, ficou a imagem de que ele foi sacaneado, roubado, de que é o Davi agora, contra o Golias alemão.

Em Jerez, será o baixinho contra o mundo, um mundo notadamente hostil, que não gosta muito de baixinhos desbocados que ameacem sua estabilidade, seus códigos morais e de comportamento. Depois, Jacques toma saquê e manda uma cerveja como ninguém. É um cara confiável. No meu código particular de conduta, quem não toma cerveja não é confiável. Ainda mais se for alemão.

DURMA TARDE, A F-1 MERECE – 10/10/1997

Seria mais interessante se os dois se odiassem, como Piquet desprezava Mansell, que abominava Senna, que odiava Prost. Mas não, Villeneuve não odeia Schumacher, que por sua vez mal conhece Villeneuve, com quem ainda não se encontrou num pódio neste ano.

Mas não faz mal. Hoje é dia de decisão, e embora os dois façam questão de se mostrar gentis e educados, na pista os pilotos costumam deixar de lado seus traços de civilização. E são capazes de tudo, como Schumacher fez com Hill em 94 na Austrália, atirando seu carro no do outro. E nem ficou vermelho de vergonha.

Decisões são sempre dramáticas. No ano passado, Damon foi campeão antes de a corrida acabar, quando a roda do Jacques escapou e foi parar na arquibancada, e mesmo assim foi emocionante, porque ele tinha sido demitido, porque fora esculhambado a vida toda, porque saiu da melhor equipe do mundo pela porta da frente, afinal.

Villeneuve pode ser campeão esta noite, só ele. Schumacher respira por aparelhos e eu arriscaria dizer que se o Jacques não ganhar em Suzuka, perde o título na Espanha.
Gosto do Villeneuve, apesar de achá-lo meio mascarado e metido a besta. É característica de baixinho, faz qualquer coisa para aparecer, pinta o cabelo, às vezes carrega uma guitarra debaixo do braço, usa óculos redondos.

Admiro também Schumacher, um baita piloto, que teve a coragem de ir para a Ferrari e dizer ou ganha agora, comigo, ou nunca mais. É o melhor de todos, um Senna dos novos tempos, um modelo de profissional.

Pessoalmente, torço pro Villeneuve. Também sou baixinho e, só de farra, pintei o cabelo de amarelo também. Fiquei bem parecido, aliás, e quarta-feira, num restaurante, os cozinheiros e garçons vieram tirar foto comigo, achando que eu era quem não sou. Como não falo japonês, ficou por isso mesmo e minha foto vai pra parede do restaurante, Villeneuve esteve aqui.

Foi a maneira que encontrei para me divertir na decisão, já que não tenho mais 20 anos, são remotos os tempos em que dia de GP do Japão era um acontecimento, a gente aí no Brasil, o Senna e o Piquet aqui, o Galvão Bueno, bem amigos da Rede Globo, e a cerveja rolando solta e aquela ansiedade do tamanho do mundo.

Nunca imaginei que um dia estaria em Suzuka vendo a decisão de um título de perto. Estou aqui, disfarçado de Villeneuve. No fundo, somos todos adolescentes, brincando com a vida e com o mundo. Sayonara. E vá dormir bem tarde esta noite, a Fórmula 1 merece.

SUGESTÕES A SCHUMACHER – 03/10/1997

Estava eu tranquilamente em casa quarta-feira vendo um joguinho pela TV quando toca o telefone. Percebi que era ligação internacional porque fez aquele bip antes de o cara do outro lado da linha dizer alô. Estranhei, porque se a origem da chamada fosse a Europa, lá seria alta madrugada.

A voz, conhecida, nem se identificou. Num inglês perfeito, me disse boa noite, falou que estava sem sono e perguntou quanto estava o jogo. Apesar do assunto ameno (àquela altura, a Portuguesa estava empatando com o Atlético em Curitiba, o que era um bom resultado; se telefonasse dez minutos depois eu nem atenderia, porque acabamos perdendo o jogo), eu dizia, apesar da amenidade do tema inicial do diálogo, notei certa tensão na sua voz.

O que que eu faço agora?, ele me perguntou. Tentei descontrair e sugeri que tal uns óculos para ver bandeira amarela?, e ele não gostou muito. Não brinque com coisa séria, disse. Desculpe, desculpei-me. E ele, você sabe, no Japão os caras andam bem pacas, até o Hill ganhou corrida lá. É verdade, você está no mato sem cachorro, concordei, em inglês (“You are in the jungle with no dogs”, na versão original mal adaptada), expressão que ele não compreendeu bem.

E como o jogo estava difícil, e não sou pago para dar conselhos, fui direto ao assunto. Pegue um lápis e um papel, ordenei, e anote. Primeiro: no treino de sábado, coloque o capacete do irlandês e dê um jeito de se classificar bem. Depois faça seu tempo e se vire para largar na frente, também.

Segundo: chame seu irmão e diga que se ele não conseguir um lugar até a terceira fila você nunca mais joga pebolim com ele. E acenda umas velas para o santo da chuva, que não sei nem se existe.

No domingo, oriente o nosso amigo do IRA e seu maninho para não se preocuparem em frear na primeira curva. Ambos devem mirar no carro do anãozinho de cabelo amarelo. Certamente um deles vai errar e bater no carro do outro, o alemão de costeletas. Mas, com alguma sorte, um deles acerta o alvo.
Isso feito, continuei, concentre-se em se manter na pista. Não se preocupe com os carros prateados porque o motor deles acaba quebrando. Se tiver que passar alguém, encoste bem perto, no vácuo mesmo, e faça caretas. Os caras se assustam pelo espelhinho. Vá em frente e ganhe a corrida. Anotou tudo?, conclui.

Wait, wait, ainda estou no alemão de costeletas… Esperei. Pronto, ele respondeu, afinal. Mas e se eu… E não deu tempo de ouvir a pergunta. O Atlético fez 1 a 0 e eu me descontrolei, gritei um palavrão e ele, lá do outro lado, reclamou que também não precisava xingar, e criou-se um mal-entendido. Telefono depois, falei, mas não telefonei porque logo depois o Atlético fez 2 a 0 e estragou minha noite.

Mas acho que o Schumacher anotou tudo direitinho, senão tinha ligado de volta.

VAI FALTAR O ORGASMO – 26/09/1997

O Mundial de Fórmula 1 está chegando ao final e para os mais otimistas lembra os bons tempos de Mansell x Piquet, Senna x Prost. Um ponto, um mísero pontinho, separa o Schumacher do Villeneuve! Sensacional! Teremos uma briga pau-a-pau até a última volta da última corrida em Jerez.

Não sei não. Se não fosse pelo cabelo amarelo-ovo de Villeneuve, talvez o Schumacher nem o reconhecesse na rua. Os dois não costumam se cruzar com muita proximidade na pista. Quando um ganha, o outro chega longe. Na Espanha e na Hungria, Jacques ficou em primeiro e Michael em quarto. Na França, as posições se inverteram. Perto mesmo eles ficaram em Monza, Villeneuve em quinto, Schumacher em sexto, mas não lembro se se pegaram na pista.

Portanto, que ninguém espere um duelo de faroeste nas três corridas finais do campeonato. Os carros da Williams e da Ferrari são muito diferentes entre si. Se um vai bem, é porque o outro vai mal. Schumacher e Villeneuve, a rigor, não se enfrentaram ainda. Brigaram contra outros fatores, como chuva, calor, frio, pneus, pit stops, bandeiras amarelas. Estão caminhando por estradas diferentes para chegar ao mesmo destino. De qualquer maneira, é uma briga interessante, quase virtual, travada a distância.

Outro dado importante, que talvez explique o pouco apelo popular da disputa Schumacher-Villeneuve: os dois são anti-heróis, fogem de qualquer tentativa da mídia de transformá-los em semideuses. Michael, no início da semana, passou três dias em sua casa perto de Genebra brincando com seus cachorros, entre eles um vira-lata que trouxe do Brasil. Nada mais sem graça.

Já Villeneuve, que neste ano pediu ao povo canadense para esquecê-lo e deixá-lo em paz, não liga para nada. Se ganhar o título, tudo bem. Se não, azar. É uma figurinha, admita-se, com suas costeletas, os cabelos pintados, as roupas largas, os bonés da Disneylandia, a língua solta. Mas está longe de encarnar os heróis do passado, que só se tornaram heróis porque, na pista, portaram-se como tal em determinados momentos de suas carreiras.

Jacques e Michael são profissionais de fim de século, atletas que calculam matematicamente suas chances treino a treino, corrida a corrida. Não serão lembrados no futuro por nada em especial, fora os números que somarem em suas carreiras. Não são sobrenaturais, não serão eternizados. Schumacher, se quisesse, poderia até capitalizar alguns desses lances de gênio, que de fato é. Mas ele mesmo transforma suas ultrapassagens e vitórias em algo tão rotineiro e simples, que acabamos nos acostumando a elas.

Estamos nos acostumando com tudo e não nos empolgamos com mais nada, essa é a verdade. Alguém lembra a escalação da seleção tetracampeã nos EUA? Ou o último grande duelo épico entre Pete Sampras e Michael Chang? Ou os resultados da última final da NBA? Alguém se lembra algo mais da luta entre Tyson e Holyfield que não seja uma mordida na orelha? O esporte vive uma época de ausência de emoções, falta a grande final, a batalha sangrenta, o orgasmo. A F-1, sob esta visão, é igualzinha aos outros esportes.

ERROS & ACERTOS – 19/09/1997

Os leitores devem achar que sou maluco, ou desinformado. Desde o começo de julho, quando começaram as conversas sobre quem-vai-para-onde, o equivalente na Fórmula 1 a quem-come-quem na TV, a imprensa especializada, na qual pretensamente me incluo, divertiu-se especulando e tentando adivinhar o destino de pilotos e equipes.

Escrevi: que Pedro Paulo Diniz poderia ir para a Jordan quando o Fisichella foi anunciado pela Benetton. Errei. Mas o Pedro negociou com a Jordan. E, na Bélgica, comentou ao sair do motorhome da equipe: aqui fechou a porta, contrataram o Alesi.

Escrevi: Alesi vai para a Jordan no lugar do Fisichella. Errei. Mas o Alesi esteve na fábrica da Jordan sexta-feira retrasada, me contou o engenheiro José Avallone, que trabalha lá. Na segunda-feira assinou com a Sauber. Nunca escrevi isso. Errei de novo.

Escrevi, sobre a Sauber: que já tinha acertado tudo com o Berger, que até tomou Red Bull no pódio em Hockenheim. Errei. A Sauber, muito antes de pensar no Berger, foi atrás do Hill, que não aceitou. Isso eu acertei.

Escrevi, também: Hill vai para a McLaren. Errei. Como se sabe, ele não foi. Mas conversou até cansar, até receber uma proposta que considerou indecente. O que que eu vou fazer? Depois, surgiu a Benetton no caminho do Damon. Seria natural, a única equipe grande com vaga aberta. A imprensa inglesa chegou a divulgar que até os salários estavam acertados. Mencionei o fato, citei a fonte. Erro deles, azar.

Ontem, o cara assinou com a Jordan, como escrevi na quinta-feira. Mas que isso ia acontecer, até as vaquinhas que ficam na entrada do autódromo aqui em Zeltweg já sabiam. Não conta no balanço final.
Salo na Arrows? Eu não fazia a menor idéia. Alesi na Sauber? Acho que nem a mulher dele sabia. Rubinho na Sauber? Desconfio que o garoto forçou um pouco a barra com essa história.

Assim é a Fórmula 1, e as pessoas já se acostumaram com ela. Passa-se metade do ano chutando a formação das equipes no ano seguinte, o que em muitos casos é mais interessante que o campeonato em si. Faz parte do modus operandi da categoria, de sua organicidade. No fim da temporada, todos enchem o peito e suspiram: tá vendo? Eu bem que disse que fulano ia para tal equipe, estava na cara, minhas fontes são ótimas.

No meu balanço, errei todos os chutes, o que não é de todo surpreendente, posto que sou goleiro, e não centroavante. Na verdade, causam pouco impacto os anúncios oficiais, porque quando eles são iminentes, todos já sabem seu conteúdo. Legais mesmo são as decisões surpreendentes, como a do Hill no ano passado, ou a do Mansell, em 92, largando a F-1 logo depois de conquistar o título. Ou a do Prost, que fez o mesmo em 94.

Esses caras eram estrelas e geravam notícias de verdade. Hoje, estrela é uma só, o Schumacher. Com alguma boa vontade, o Villeneuve. O resto pode correr até de carrinho de rolimã que não tem a menor importância. Importante mesmo é aquele cheque especial que dá não sei quantos dias sem juros, como diz aquela propaganda na televisão.