CARTA AO MANÉ – 20/12/1996

Pois é, Mané, quanto tempo, não? Um ano, dez anos, um século, uma vida? Sei lá, mas a gente só podia ter se reencontrado mesmo desse jeito, numa arquibancada, onde a gente se conheceu, numa daquelas manhãs de domingo no Canindé, lembra?, o estádio não tinha nem iluminação, a gente jogava de manhã.

Foi com o Cruzeiro ou o Atlético? Acho que com o Atlético, você me achou no meio de um monte de gente no Morumbi, nem sei como, eu engordei um pouco, perdi alguns cabelos, estou diferente. Mas você tá igualzinho, Mané, não mudou nada.

Pois é, Mané, tanto tempo, você casou, tem duas filhas, eu também casei, lembra da Thais?, não?, bom, então faz muito tempo mesmo. E a padaria?, você continua lá na Lapa?, claro que eu lembro onde era, qualquer hora apareço lá, nem adianta me dar o telefone que não tenho caneta aqui. Não, não tô famoso nada, que é isso, você é que tá bem. Pois é, a gente nunca mais se viu, tanto tempo, nesse tempo todo eu rodei o mundo atrás de corridas de Fórmula 1, trabalhei aqui e ali, mas de vez em quando vou num joguinho, claro que vou, você é que sumiu.

Lembra, Mané?, 78, 79, não sei direito, a gente ficou uns 30 jogos sem ganhar, e quando ganhou do Botafogo de Ribeirão no Canindé, três a um, rapaz!, a gente comemorou como se fosse um título. Três gols do Caio, lembra? E tantos jogos, tantas viagens, tantas alegrias, lembra aquele dia que você invadiu o campo pra bater no juiz contra o Corinthians?, também, aquele pênalti, tinha mais era que apanhar mesmo.

Até o dia que você disse nunca mais vou a um estádio, nunca mais vejo um jogo, não aguento mais. Foi contra o XV de Jaú? Ou foi um zero a zero com a Sãocarlense? Ou aquela vez que fomos em quatro num ônibus até Ribeirão Preto, pra ver um jogo com o Comercial? Não lembro, não lembro, mas um dia você falou que nunca mais, chega.

Pois é Mané, e olha a gente aqui, quem diria, rapaz…

É, eu fui ao Mineirão e fui ao Olímpico, também. Você precisava ver, a gente espremidinho num canto do estádio, aquele mar de gente gritando e a gente lá, e quanto orgulho, Mané, quanta alegria de gritar Lusa, Lusa, Lusa!, mesmo sabendo que ninguém ouvia, só a gente, mas sempre foi assim mesmo, não foi?

Você dizia que nunca ia dar, mas olha só, Mané, deu, a gente chegou lá, sim, e foi lindo, inesquecível. Quem não foi ao Mineirão e ao Olímpico não viveu, eu dei agora pra citar Nelson Rodrigues, eu vivi, isso ninguém tira de mim. Mas que tá doendo, rapaz, ah, tá doendo, tá doendo muito. Eram só cinco minutos, não precisava ser assim.

Pois é, Mané, a gente chegou. Mas foi tão triste, tão dolorido, aquela bola entrando estilhaçou meu coração, me feriu de morte, chorei que nem criança, e a gente tinha prometido que não ia chorar mais, nunca mais. E eu chorei abraçado ao meu irmão, é ele mesmo, o Julinho, ele tinha uns cinco anos da última vez que você viu, tá grande agora, vai entrar na faculdade. Ele é que nem a gente, Mané, e tem um monte de caras como nós, e todos eles choraram.
Bom, a gente se vê por aí, eu passo na padaria, pode deixar. Não, hoje não, qualquer dia desses, agora não. Foi muito triste, Mané.

Nesta minha última coluna do ano, eu não falei de F-1, como não falei nas últimas duas ou três. Não dava para fingir que eu estava pensando em corridas com minha cabeça voltada para um jogo, para os 90 minutos da minha vida. E eu fiz questão de deixar por escrito o que senti nos últimos dias, as alegrias enormes e a tristeza devastadora de um cara, como a maioria neste país, apaixonado por futebol. Não há nada mais parecido com a vida do que um jogo de futebol, escreveu Albert Camus. Não mesmo.

A todos que me acompanharam pelo mundo neste ano, um ótimo Natal e um grande 97. Em fevereiro eu volto. E antes que me perguntem, o Mané existe, sim, tem uma padaria na Lapa, e eu não o via há uns dez anos, há uma vida.

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VAI LUSA, VAI SER FELIZ NA VIDA – 13/12/1996

Eu estava em Silverstone em meados de julho do ano passado, sábado à noite, dia do meu aniversário. Eu sempre passo o aniversário na Inglaterra, dia 15. Coincide com a corrida. Como sempre faço há anos, quando estou fora por causa da Fórmula 1, telefonei para o Brasil para saber o resultado de um jogo da Portuguesa. É uma das coisas que mais me angustia, saber que a Lusa está jogando longe de mim. Eu não sossego enquanto não sei o resultado, seja uma decisão ou uma partida de terceira rodada, não importa.

(Gosto muito de futebol, é o esporte pelo qual sou realmente apaixonado, não perco um jogo da minha Lusinha quando estou por aqui, e vou de arquibancada, com a camisa e tudo, nunca usei uma credencial de jornalista para entrar num estádio.)

Naquele dia, lembro bem, eu tinha ido ao autódromo com a camisa da Portuguesa, a minha forma de torcer à distância num jogo muito importante, contra o Corinthians. Os estrangeiros não entenderam nada. Bastava um empate para irmos à final, o que não acontecia desde o Campeonato Paulista de 85. Já era bem tarde na Inglaterra quando liguei para a Jovem Pan, onde também trabalho, e perguntei para o pessoal da central técnica, com o coração na mão, quanto tinha terminado.

Estava zero a zero e faltavam poucos minutos para acabar. Eles me colocaram a transmissão direto do Pacaembu pela escuta, e eu fiquei ouvindo os últimos minutos. E no último minuto o Corinthians fez um gol, do Bernardo, eu acho, numa falha esquisita do Paulo César, um goleiro que não falhou o ano inteiro, só nos dois jogos com o Corinthians. Foi o pior aniversário da minha vida.

Estou lembrando essas coisas hoje porque amanhã, domingo, a Portuguesa estará reescrevendo sua história em Porto Alegre. Confesso que já não imaginava viver o bastante para ver a Lusa numa final de Campeonato Brasileiro. Muito menos assim, com um time que encantou o país, virou a namoradinha de São Paulo, que parece a turma do Asterix contra o Império Romano. Uma Portuguesa, querida, simpática, alegre, que não dá um pontapé, que me encheu de felicidade nos últimos dias.

Estive no Mineirão domingo passado, tomei chuva quarta-feira no Morumbi, chorei feito criança em Belo Horizonte e em São Paulo de novo, e sei que amanhã lá no Olímpico, qualquer que seja o resultado, vou chorar também. Serão lágrimas de torcedor, aquelas sinceras que aliviam o corpo e a alma, ganhe ou perca.

A Portuguesa nunca foi tão longe, e nunca esteve tão perto do coração de todo mundo. E só nós, os poucos que torcemos mesmo para a Portuguesa, nós que sempre fomos ao Canindé, nós que vimos aqueles empates com o Noroeste ou o XV de Piracicaba numa quarta-feira gelada à noite, só nós sabemos o que vai representar um título brasileiro, que está tão próximo, que se faz quase real.

Vai lá, Lusa, vai escrever tua história, vai. Vai ser feliz. Vai ser campeã na vida.

EU SÓ QUERO SABER DA LUSA – 06/12/1996

Vocês não fazem ideia do sacrifício que é escrever sobre Fórmula 1 numa semana em que o meu time está a um zero a zero da final do Campeonato Brasileiro. Quinta à noite fui ao Morumbi, perdi a voz pela segunda vez em duas semanas, hoje à tarde vou para Belo Horizonte, se formos para a decisão, vou até o inferno para ver a Portuguesa.

Aliás, como só penso e falo na Portuguesa nos últimos dias, decidi escrever hoje sobre a Portuguesa, mas isso não é justo, meu negócio é corrida, embora eu considere fundamental dizer pelo menos uma coisa: essa choradeira de quem ficou fora do campeonato é ridícula e egoísta. No ano passado, aqui em São Paulo, a Portuguesa ganhou o primeiro e o segundo turnos, acabou o campeonato com mais pontos do que todo mundo, e não foi campeã. E ninguém falou nada sobre injustiças e fórmulas obtusas, porque os finalistas foram Palmeiras e Corinthians, e contra esses dois ninguém fala nunca.

Portanto, vão todos caçar sapos.

E agora a F-1, num ritmo de agência de notícias para caber tudo. Paris: Ligier contrata o japonês Shinji Nakano, 25 anos, para ser o companheiro de Olivier Panis. Foi uma exigência da Honda. Londres: Jordan confirma teste para Nigel Mansell, dias 11 e 12 em Barcelona. Se ele couber no carro, disputa o próximo Mundial. Paris de novo: sai o calendário da temporada 97, sem muitas novidades, exceto o encerramento em Portugal, dia 19 de outubro, e a esperada troca de Nürburgring por Zeltweg, na Áustria.

Londres mais uma vez (as coisas só acontecem em Londres e Paris): a Stewart Grand Prix promete mostrar seu carro terça-feira, com a presença de Rubens Barrichello na capital inglesa. E finalmente, adivinhem, Paris: divulgada a lista dos pilotos inscritos para o Mundial de 97. Pedro Paulo Diniz corre com o número 2 e Barrichello, com o 22. A Ferrari terá os números 5 e 6. A Lola se inscreveu, mas ainda não anunciou os pilotos. Ricardos correm atrás das vagas, o Rosset e o Zonta.

E tchau, porque sábado que vem eu espero estar falando como finalista. Se não, meu humor estará insuportável e eu não recomendo a leitura das minhas colunas por uns dois ou três meses.

QUEM É O CULPADO? – 29/11/1996

Pela quarta ou quinta vez desde o dia primeiro de maio de 94, a imprensa italiana jogou no ventilador nomes de prováveis indiciados pelo acidente que matou Ayrton Senna. Nesta semana, talvez pela falta de notícias melhores, todo mundo resolveu comprar a versão divulgada pela agência de notícias ANSA. Os informes de Bolonha garantiam que seis pessoas iriam a julgamento já no início de 97.

São elas: Frank Williams, Patrick Head e Adrian Newey, pela Williams (os dois últimos na condição de projetistas do carro e, portanto, responsáveis pela coluna de direção que se rompeu); Federico Bendinelli e Giorgio Poggi, integrantes da administração ao autódromo de Imola; e Roland Bruynseraede, diretor de prova da FIA. Os seis serão acusados, de acordo com o resultado da investigação conduzida pelo promotor Maurizio Passarini, de homicídio culposo. Podem pegar até sete anos de prisão. Passarini já teria enviado seu pedido ao juiz de instrução do caso, Diego di Marco.

A imprensa explorou como quis os boatos lançados pela ANSA, que não cita suas fontes e não conseguiu falar com os magistrados de Bolonha. Frank Williams atrás das grades, Projetista na cadeia, Assassinos na prisão, foram alguns dos títulos que vi por aqui em jornais brasileiros, em chamadas de rádio e reportagens na TV.

Já se vão quase três anos da morte de Senna. Ninguém foi preso e nem será. Não vai acontecer nada, simplesmente porque não há nada para acontecer. Não faz sentido acusar de assassinato o dono de uma equipe por um problema mecânico num carro. Não houve negligência da Williams, quem conhece um mínimo de Fórmula 1 sabe disso. Senna pediu as modificações no sistema de direção que, segundo as investigações, levaram seu carro direto para o muro da Tamburello. E a Tamburello era daquele jeito porque os pilotos, Senna inclusive, nunca reclamaram dela.

A histeria da caça às bruxas, da busca de um culpado, tem que ser estancada. Senna não foi assassinado, portanto não há assassinos. Senna morreu porque era piloto de Fórmula 1 e ganhava a vida correndo a mais de 300 km/h. Poderia ter se salvado não fosse o azar de uma barra da suspensão perfurar a viseira de seu capacete. Outros ainda morrerão, assim é o automobilismo. Assassinos são os que desviam dinheiro da saúde enquanto bebês morrem nos hospitais brasileiros. Esses ninguém processa ou acusa. Este país precisa pensar duas vezes antes de falar bobagem.

GO, SPEED, GO! – 22/11/1996

Hoje eu vou revelar um segredo. Sou apaixonado pela Trixie, a namorada do Speed. Sim, dele mesmo, do Speed Racer, o melhor piloto do mundo. Magrinha, olhos amendoados, pernas longas, cabelos chanel, Trixie é meu amor platônico. E Speed, meu grande ídolo. Lembrei dele hoje porque passei numa loja de CDs e encontrei um disco com remixes da musiquinha do Speed, “Go, Speed Racer, go!”, lembram?

Nunca entendi porque Speed não chegou à Fórmula 1 e sempre se manteve fiel a essas corridas esquisitas em ilhas exóticas contra gangues de adversários, corridas com centenas de carros que se repetem a cada curva, o maior barato do mundo. Nunca vi Speed num monoposto, talvez porque Trixie insiste em acompanhá-lo a todas as corridas e porque o Mach 5 precisa de um porta-malas para carregar o Sprindle, seu irmão mais novo que aqui virou Gorducho, e o chimpanzé Chim Chim.

Speed seria páreo para Senna, Prost, Piquet e Schumacher, os maiores que vi. O Mach 5, é uma obra-prima da engenharia automobilística, projetado e construído por seu pai, Pops Racer. Vivo atrás de uma miniatura, se alguém souber onde encontro, me avise. Daria um pau na Ferrari e na McLaren fácil, fácil. Não precisa nem de telemetria, porque quando o Speed quer falar com os boxes ele manda aquela pomba mecânica, o “go bird”, que leva as mensagens necessárias. No mais, Speed acelera pra burro.

Speed Racer é o personagem da TV que eu adorei a vida toda. Seus desenhos ainda passam de vez em quando, na versão original em inglês, no Cartoon Network. Ele foi criado nos anos 50 por um japonês, Tatsuo Yoshida, e chegou à TV nos EUA em 67. Seu nome original era Go Mifune, de onde vêm o “M” no capacete e o “G” no peito. Go, em japonês, significa o número cinco ou então “garoto”. O carro, originalmente, se chamava Mach Go Go. Nos EUA, virou Mach 5.

A Trixie também usa um “M” na camisa, que vem de seu nome em japonês, Michi Shimura. Eu prefiro Trixie. E tem também o Sparky, mecânico e amigão do Speed. E, claro, o Racer X, o Corredor X, misterioso, agressivo ao volante, na verdade o irmão mais velho de Speed — mas isso ninguém sabe, é um segredo que só ele, o Corredor X, e nós, os fãs, conhecemos.

Neste exato momento estou ouvindo o CD. é bem legal, foi lançado pela Natasha Records, e se você encontrar, compre. Speed é um herói da velocidade, um ás das pistas, um garotão que faz das corridas sua vida, e que quase sempre ganha. Até nisso ele é bom, porque Speed não ganha sempre, muitas vezes é derrotado, e é nas derrotas, como se sabe, que se aprende mais.

Nos episódios da TV, Speed passa pelos maiores perigos, quase morre de vez em quando, mas no fim sempre se encontra com a Trixie. Essa é a única parte que eu não gosto. Morro de ciúmes.

OINC-OINC – 15/11/1996

Coisa gozada. Quarta-feira passada fui ao Morumbi assistir Portuguesa e Palmeiras, ganhamos fácil, e na saída do estádio levei um pontapé de um palmeirense cretino só porque eu estava com a linda camisa do meu time.

No dia seguinte viajei para os Estados Unidos para torrar uma grana e muita gente ligou meu sumiço ao pontapé suíno. Teve gente que achou que eu estava internado no Albert Einstein.

Não estou, mas depois de seis dias de Miami, seria o caso. Cheguei com a síndrome do shopping, porque Miami e redondezas nada mais é do que um imenso shopping cercado de estacionamentos.

Os caras só vendem e compram, ninguém faz mais nada além disso. E vendem as maiores idiotices do mundo, como um bip que apita se você não abaixa a tampa da privada, um chaveiro onde você grava o lugar onde parou o carro para não se esquecer, um haltere que quando levanta conta “one-two-three”… Comprei os três.

Voltei para votar nesta sexta-feira e na minha mesa repousavam vários faxes. Pelas estatísticas (os americanos adorariam), 36,4% eram mensagens de estimo as melhoras, 21,9% sobre Fórmula 1, 33,7% sobre corridas em geral e o resto era engano. Vamos, então, aos 21,9% de Fórmula 1.

Primeiro, da Sauber. Segunda-feira, a equipe suíça anunciou uma parceria com a Ferrari para ter os mesmos motores V10 da equipe italiana no ano que vem. Um acordo de transferência de tecnologia. No dia seguinte, a Ferrari cancelou o trato, porque não gostou do anúncio precipitado.

Quinta-feira, dia 14, o Hill fez o primeiro teste com o pessoal da Arrows, em Suzuka, usando um carro Ligier com pneus Bridgestone. Bateu e arrebentou o carro de testes. Começou bem. Também na quinta, a “Auto, Motor und Sport”, revista alemã, disse que a BMW e a Porsche vão voltar à F-1. A BMW com a Williams e a Porsche com a Benetton, ambos a partir de 1999. Ainda segundo a revista, em 98 as duas equipes deverão usar os motores Renault, mesmo com a fábrica afastada da categoria. Registrado.

A Minardi, sexta-feira da semana passada, fechou com a Hart e vai ter esses motores em 97. Tarso Marques pode correr pela equipe se der certo uma negociação tentada por Flavio Briatore: mandar o Alesi para a Jordan e colocar no seu lugar o Giancarlo Fisichella, que por sua vez está escalado para disputar o próximo Mundial na Minardi.

E é só. Fui para Miami, trouxe um monte de quinquilharias, comprei uma TV que não sei se funciona, comi centenas de asas de frango e hambúrgueres, voltei e coloquei o noticiário em dia.

Tchau e até a semana que vem, porque agora vou chutar um palmeirense pra ver se ele faz oinc-oinc.

BALESTRE FICOU GAGÁ – 08/11/1996

Todo mundo se lembra de Jean-Marie Balestre. Há sete anos ele se transformou no inimigo número 1 do Brasil, ele e seu protegidinho, Alain Prost. Lembro que naquela época eu vivia discutindo com meu irmão mais velho, fã de carteirinha do nanico, tinha até um pôster no quarto dele. Não que eu fosse um sennista histérico, como tantos que conheci, mas para contrariar o irmão mais velho a gente torce até pro Mansell. E torcer pro Senna era fácil, o homem ganhava tudo etc. tal.

O auge do ódio nacional a Balestre ocorreu no final de 89, depois daquela corrida histórica de Suzuka. Senna ia passar Prost na chicane, que jogou o carro em cima, abandonou e ficou roendo as unhas até o final da corrida, porque Ayrton foi empurrado pelos comissários, cortou a chicane, trocou o bico, saiu dos boxes como um louco, ultrapassou Nannini na mesma chicane e ganhou o GP do Japão numa recuperação memorável.

Ganhou e não levou. A direção de prova, com razão, desclassificou Ayrton porque ele recebeu ajuda externa e na volta da batida retornou à pista pela área de escape. Foi uma desclassificação, do ponto de vista legal, absolutamente correta. Do ponto de vista filosófico, injusta — principalmente porque Prost, o vilão da história, conquistou o título por causa da desclassificação de Senna.

O Brasil achou e elegeu o culpado rapidinho: Balestre, francês como Prost, presidente da FIA e da extinta Fisa, a quem respondia a direção de prova. É claro que Balestre não colocou o dedo na decisão de desclassificar Senna, nem precisava, porque a situação de ilegalidade era muito clara. Mas nesta semana, sem mais nem menos, Balestre resolveu dizer que deu uma mãozinha para Prost. Senna, na época, acusou o dirigente de manipular o campeonato, levou um gancho de seis meses que só não foi cumprido porque ele pediu desculpas publicamente.

As declarações de Balestre agora dão razão a Senna, dirão os sennistas. Balestre está gagá, respondo eu. Velho, esquecido, encostado num cargo decorativo da FIA, Jean-Marie, que no convívio pessoal é um sujeito sensacional, engraçado, espirituoso, resolveu aparecer. Quis dizer que quando era presidente determinava quem podia ou não ser campeão. Bobagem. Balestre nunca teve tamanho poder. Ele poderia entrar para a história apenas como o bruxo autoritário e espalhafatoso que esteve em Interlagos, em 90, todo vestido de preto, dizendo sentir prazer ao enfrentar a massa enfurecida. Era um pândego. E seu lugar na história também estava garantido, sobretudo, pela incansável luta por maior segurança dos carros e dos autódromos. A Balestre muitos pilotos devem sua vida.

Mas não. Balestre resolveu falar mais do que devia. Perdeu uma grande chance de ficar calado.