UM DIA COMO EM SPA – 09/04/1999

Interlagos viveu seu dia de Spa-Francorchamps. Claro que não dá para comparar a floresta das Ardènnes com o lixão que circunda o autódromo, nem o chramoso hotel Eau Rouge, que batiza a curva mais espetacular da F-1, com os muquifos de alta rotatividade que se espalham pela região, às margens da represa de Guarapiranga.

Mas o dia estava tão esquisito ontem em São Paulo que embaralhou a cabeça de pilotos e chefes de equipe. Eles passaram a manhã rodando feito baratas tontas sem saber direito que pneu usar, quanta asa colocar nos carros, se amoleciam ou endureciam as suspensões.

O treino da manhã foi divertido por causa da chuva. Que nem foi chuva de verdade, mas uma espécie de garoa forte acompanhada de fortes ventos. De tarde secou, é verdade, mas nos últimos cinco minutos de treino choveu de novo.

Em Spa é assim, com a graça adicional de que chove em parte da pista e em outra, não. Isso porque o circuito belga, com seus quase sete quilômetros de extensão, é bem maior e se espalha por um relevo muito particular. Foi lá que Barrichello fez a única pole de sua carreira, em situação muito semelhante à de ontem. Foi em 94. Ele aproveitou os últimos segundos da classificação para colocar pneus slick e conseguiu desbancar os pilotos que se precipitaram na tomada de tempo.

No ano passado, na Áustria, Fisichella conseguiu a pole do mesmo jeito, em Zeltweg. Só assim se pode esperar alguma surpresa em treinos. E a meteorologia indica que hoje à tarde a confusão climática pode se repetir.

Seria legal. Rubinho conhece bem Interlagos, o bairro, não só a pista, e só de olhar para o céu sabe se vai chover, garoar ou despencar um toró. Mas mesmo se tudo acontecer dentro da normalidade, o torcedor brasileiro, que se sente tão órfão de vitórias na F-1, pode esperar por uma posição lá na frente de Rubinho. Ele vive seu melhor momento desde 94. Que aproveite.

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JUBILEU DE PRATA – 29/08/1997

É melhor me antecipar, antes que esqueça. No próximo dia 10 de setembro faz 25 anos que o Emerson conquistou seu primeiro título mundial de Fórmula 1. Foi em Monza, na Itália. É uma data importante, um jubileu de prata que corre o risco de passar em branco. Pouca gente lembra o que almoçou ontem, o que dizer do que aconteceu um quarto de século atrás.

Eu tinha oito anos em 72, e se disser que fui às ruas enrolado na bandeira do Brasil com um bonezinho da Lotus e costeletas pintadas com rolha queimada para ficar parecido com o Emerson, estarei obviamente mentindo. O que lembro de 72, vagamente, é de ter ido à primeira corrida de F-1 do Brasil, em Interlagos, uma prova extra-campeonato, e da Copa Independência no Rio. Era o ano do sesquicentenário, 150 anos desde o dia em que Dom Pedro bradou às margens do Ipiranga, etc. e tal.

Lembro também que no início de 72 minha família se mudou para o Rio, moramos lá três anos, e eu estava no segundo ano primário. Minha mãe tinha uma Belina verde-maravilha e meu pai, um Dodge SE branco. A gente morava em Copacabana, mas raramente ia à praia. Na verdade eu só gostava mesmo era de comer cachorro-quente no calçadão. E lembro, também, que na primeira semana de Rio perguntei à minha mãe, preocupado, quando que a gente ia aprender a falar carioca.

Fórmula 1? Aquela corrida do começo do ano, ainda em São Paulo, virou passado rapidinho. Cidade nova, amigos diferentes, a visão diária do mar, tudo isso era muito mais importante do que saber se o Emerson ia ser campeão. Mas ele foi, sim, e consta que até passou na TV, embora disso eu não tenha certeza.

Outro dia apareceu aqui no meu escritório um sujeito com um disquinho compacto da WEA. Chama-se “O Fabuloso Fittipaldi” e é uma edição sonora da revista Machete. No lado A tem três trechinhos, resumos, dos GPs da Espanha, Inglaterra e Áustria. No lado B, do GP da Itália. “Narração de seu pai Wilson Fittipaldi da Jovem Pan”, diz a etiqueta amarela com letras verdes.

Ouvi e confesso que me deliciei. O pai, o Barão, foi o pioneiro das transmissões de corridas no Brasil. A primeira, pela Jovem Pan (então Rádio Panamericana, a Emissora dos Esportes), aconteceu em 1949, GP de Bari, na Itália, com Chico Landi e companhia limitada. Naqueles tempos, transmissões internacionais eram uma aventura, não havia satélite, Internet, laptop, nada, apenas cabos submarinos ligando os cinco continentes.

O Barão comemorou o título do filho elegendo-o campeão mundial de automobilismo. Mesmo o conceito de Fórmula 1 era algo um tanto distante e indecifrável.

Vão-se 25 anos. Sei do destino da maior parte dos personagens daquela época. Emerson rodou o mundo e virou empresário. O pai Wilson vive no Guarujá. O Zagallo, que era o técnico da seleção na Míni Copa, continua técnico da seleção. O Serginho, meu vizinho do andar de baixo em Copacabana, é o Sérgio Cabral Filho, que foi candidato à prefeitura do Rio no ano passado. Só uma coisa me intriga: onde será que anda a Belina verde da minha mãe? E quando será que vou aprender a falar carioca?