FANTASMAS DA ÓPERA – 14/09/2012

O sibilar dos dois quando passam pelas retas é assustador. Há quem diga que é apenas o som do deslocamento do ar sendo rasgado por uma lâmina afiada por algum demônio. Não há motores ou pilotos. São dois carros com vida própria, guiados por fantasmas. Perto deles, os outros, com seus roncos de motores a explosão, parecem seres primitivos e medievais.

Prefiro o ronco dos motores, sempre preferi. A ideia de um automobilismo silencioso me apavora mais do que o zumbido das flechas de prata alemãs. Mas mesmo num automobilismo barulhento cabem esses seres sibilantes. Desde que sejam poucos. Únicos. Era assim também com os Peugeot 908 que estiveram aqui mesmo, em Interlagos, em 2007. Enquanto todos se esgoelavam para chegar na freada do S do Senna estourando o escapamento, eles deslizavam como se pertencessem a outro planeta.

Agora são os Audi. Carros que vi em Le Mans, há alguns meses, e que agora estão na cidade para as 6 Horas de São Paulo, quinta etapa do Mundial de Endurance. Não sei se essa corrida vai ser realizada de novo aqui no futuro. Espero que sim. Os campeonatos de endurance começam e acabam sem grandes avisos, a gente nunca sabe. Quando a turma da Le Mans Series esteve por estas bandas para as Mil Milhas, cinco anos atrás, eu também esperava que viessem todos os anos. Nunca mais voltaram. Digo, até agora. A turma desse Mundial, o WEC, é a mesma de Le Mans. Estão aqui as grandes equipes, os grandes protótipos. Especialmente os monstrengos das quatro argolas que assobiam e os alienígenas japoneses da Toyota — que trouxeram o Godzilla das pistas, rústico, ruidoso, ameaçador.

É assim que vejo esses carros, como seres autônomos, violentos e agressivos. Essa é uma das marcas das corridas de longa duração e dos campeonatos de protótipos: carros são mais importantes que pilotos. Há 77 seres humanos que pilotam por aqui, e 11 deles já correram de F-1. Mas não me importo com seus nomes. Para mim, são os carros que correm, não os pilotos. Estes são apenas inconveniências necessárias, é preciso alguém para levantar o troféu, algo que os carros não podem fazer.

Os dois Audi estão no box 20. É o mesmo que temos usado, nossa equipe, nas corridas de clássicos em Interlagos. Os ectoplasmas apavorantes estão estacionados onde paro meu inocente Lada, soviético, comunista convicto, valente e um pouco menos veloz. Receio que nossa garagem fique mal-assombrada. Que nas noites de sexta-feira, quando nossos carros repousam à espera da corrida do dia seguinte, sejam ouvidas correntes se arrastando e silvos agudos pelas frestas das paredes.

Eu que não fico mais de noite no box 20.

Advertisements

TERRA BRASILIS – 03/08/2012

Ouro – Cascavel reabre neste fim de semana, depois de uma reforma completa que devolve ao oeste do Paraná seu mais histórico circuito. A pista recebe a F-Truck e as arquibancadas estarão cheias, as churrasqueiras vão crepitar, o automobilismo regional vai se revigorar. É o caso de se comemorar, em tempos de tão escassos motivos de comemoração quando se fala de esportes a motor por aqui. Não sabe como Cascavel é importante? Veja aqui, em três partes: http://www.youtube.com/watch?v=xduOXn3HN9M.

Longa vida a Cascavel, que cuidem de seu autódromo como se cuida de um filho querido.

Prata – A Audi confirmou esta semana que trará um e-tron quattro e um ultra para a etapa brasileira do WEC, o Mundial de Endurance. São dois dos maiores carros de corrida da história do automobilismo mundial. Merecem casa cheia em Interlagos. Mas não tenho grandes esperanças. Lembro das Mil Milhas de 2007, que o promotor-piloto Antonio Hermann pegou na unha e resolveu trazer a Le Mans Series para cá. Foi a etapa de encerramento do campeonato. Tentaram de tudo, dentro do possível, para promover a corrida. Tinha até arquibancada extra montada em Interlagos. Eis o vídeo promocional: http://www.youtube.com/watch?v=08yxgBjFR3M.

Não era para encher o autódromo? Estavam aqui os maiores protótipos do mundo, entre eles o incrível Peugeot 908, motor diesel V12, biturbo, 5.5 litros, 700 cavalos, que naquele ano já tinha vencido os 1000 Km de Nürburgring e seria também o grande campeão das 24 Horas de Le Mans de 2009.

O autódromo ficou às moscas. Os ingressos não eram baratos, mas também estavam bem longe dos preços da F-1, por exemplo. Falei com o Hermann na época, ele estava triste e decepcionado, sugeri que da próxima vez o acesso fosse gratuito, ou em troca de alimentos, qualquer coisa que pudesse atrair o público. Era realmente uma tristeza ver aquele desperdício de corrida, aquelas arquibancadas vazias, a cidade indiferente. Vejam um pouquinho: http://www.youtube.com/watch?v=08yxgBjFR3M. Notem o deserto de almas. Não houve uma próxima vez.

Mas agora há uma chance. A prova do WEC, Seis Horas de Interlagos, está marcada para o dia 15 de setembro. Falta pouco mais de um mês. Quem sabe eu possa me enganar e nosso velho circuito receba uma pequena, mas fiel e alegre multidão para ver de perto o que de melhor há correndo por aí. Quem sabe os promotores (o Emerson é o “dono” da prova) ofereçam aos espectadores boas atrações, comida legal, exposição de carros, lojinhas com preços decentes, banheiros limpos, bom sistema de som, telões, visita aos boxes, algo voltado para quem gosta mesmo de corrida, não para convidados VIP que frequentam autódromos com o mesmo entusiasmo que vão a rodeios, para “ver e ser visto” e comer empadinha e tomar uísque.

São Paulo está merecendo um fim de semana de corrida de verdade.

Bronze – Nova Odessa, interior de São Paulo, pertinho de Campinas. No dia 18 será inaugurado o kartódromo Mmoa, provavelmente o melhor do Brasil. Não tem nada de oficial, governamental, estatal, público. Sonho de gente ligada ao kart. Precisa gostar muito para investir tempo e dinheiro numa modalidade tão maltratada pelas autoridades desportivas do país. A pista é enorme e permite centenas de traçados diferentes. Quer ver? Veja: http://www.youtube.com/watch?v=mVm14z8hIus

Longa vida a Nova Odessa, também.

Lata – Jacarepaguá se despede da vida de vez neste fim de semana, com Brasileiro de Marcas e F-3 Sul-americana. Espero que os participantes façam as devidas homenagens a um circuito que tanta coisa importante trouxe ao automobilismo mundial. Um dos poucos que sediaram corridas de F-1, Indy e MotoGP. Se eu pudesse, gostaria de ser o último colocado da última corrida, o último a receber a quadriculada, encerrando um capítulo bonito de nossa história, que já deixa saudades. Se você mora no Rio, vá se despedir.

Adeus, Jacarepaguá.

ROMEU-E-JULIETA – 13/07/2012

Uma ou duas vezes por ano sou convidado para almoçar com um amigo importante do mundo do automobilismo. Ele e sua tchurma, por assim dizer, e não vem ao caso dizer quem é, porque nossos almoços são privados e já ando meio de saco cheio dessa história de que tudo se sabe, tudo se grava, tudo se compartilha. Ainda vou dar um pé no mundo digital e não vai demorar. Preciso só ganhar na loteria, deixar o dinheiro rendendo, largar os negócios com a minha tchurma, comprar uma Kombi Safari e dar a volta ao mundo.

Depois escrevo um livro.

Enquanto não ganho na loteria e não compro a Kombi Safari para dar a volta ao mundo e escrever um livro, porém, vamos tocando o barco. E antes de falar sobre o tema do almoço que, de certa forma, angustia nosotros que de carros e corridas gostamos e, de certa forma, vivemos, abro um parêntese para pedir desculpas aos meus eventuais leitores semanais.

Esqueci de escrever minha coluna nas últimas semanas. Isso mesmo, esqueci. E ninguém sentiu muita falta. Penitencio-me, e explico. Deixei de fazer colunas para jornais impressos neste ano. A tarefa de escrever um texto por semana, sempre às sextas, para publicação no sábado, foi uma de minhas inúmeras missões por anos a fio. Sendo preciso, desde 1993, quando estreei a coluna “Warm Up” na “Folha de S.Paulo”.

Mas as coisas mudam, não? Desde então, a última década do século passado, surgiu esta bagaça chamada internet. E, mais recentemente, outra bagaça chamada blog. Tenho o meu, desde o final de 2005. Chegou a 15 mil posts outro dia. “Posts”. Eu chamava isso, antes, de “textos”. Mas posts num blog nem sempre são textos, embora todos os textos num blog sejam considerados posts. E o resultado é que meus posts sobre corridas, treinos e outros assuntos ligados à F-1 acabaram, nos últimos anos, virando textos que bem poderiam ser minhas colunas semanais. Só que a velocidade da internet, eu diria, não permite que, no caso de um cabra como eu que tem um blog, se espere uma semana por uma coluna, um texto cheio das minhas bobagens de sempre. Daí que a coluna que escreveria na sexta, escrevo no domingo, depois da corrida. Assim como escrevi outra no sábado, depois do treino. E outra na sexta anterior. E outra na segunda. Quem aguenta tanto texto?

Nos primórdios da internet, lá por 1999, 2000, quando a coisa começou a pegar no breu, o Matinas Suzuki Jr., com quem trabalhei na “Folha” por anos e depois no iG por outros anos, inaugurou uma coluna que eu achava sensacional, o futuro do jornalismo. Era escrita em forma de cartas para um destinatário imaginário, com um tratamento gráfico belíssimo para a época: com links, referências e elementos gráficos que exploravam todos os recursos que, imaginava-se, a internet poderia oferecer.
Matinas parou com a coluna, nem sei se é possível encontrar vestígios dela num desses sites de arqueologia internética. Pena. Se alguém achar, avise. Avise lá pelo blog. Por que parou, não sei. Mas sei que esses recursos se multiplicaram, hoje é raro escrever um texto sem um vídeo acoplado, ou uma animação, ou sei lá o quê mais. Vai ver o Matinas se cansou. Foi cuidar de seus cachorros na chácara, no que fez muito bem.

Saudades de quando se escrevia apenas um texto, e era o bastante. Hoje, nada é o bastante.

Digo tudo isso para prometer aos meus eventuais leitores que vou tentar me disciplinar para ter o que escrever todas as sextas que já não tenha escrito antes. Um texto que não é mais feito para ser lido num jornal de papel tem de ser diferente, suponho. Vou atrás de alguma fórmula mágica, senão vai ser difícil batucar uma vez por semana algo que tenha alguma relevância.

E dito isso, volto ao almoço. Gozado que estou de saco cheio desse negócio de compartilhar, mas no fim é o que farei: compartilhar um dos temas do almoço. Ao menos não preciso compartilhar a comida. Nem a sobremesa, espetacular. Um romeu-e-julieta que nunca tinha experimentado antes. Negócio de louco. Mas não tirei foto com meu iPhone, nem coloquei no Instagram. Preferi comer, mesmo.

Estou me desviando do assunto. O tema do almoço. Um dos, diga-se, porque falamos outras besteiras, também. E foi a crise do automobilismo, o tema. Crise de tudo, mundial. Audiências de TV despencando, custos subindo, desinteresse dos jovens, vilania dos automóveis, futuro da F-1, futuro das equipes, das corridas, dos pilotos, o diabo a quatro.

A certa altura o amigo que pagou a conta se voltou para mim e, depois de várias digressões sobre a tal crise, disparou a pergunta: o que você acha que deve ser feito?

Quatro pares de olhos se voltaram para mim, como se um oráculo fosse este pobre comedor de romeu-e-julieta, capaz de dar o diagnóstico definitivo e elaborar a solução viável que resolveria todos os problemas e todas as crises, e assim todos poderíamos voltar para nossos afazeres mais tranquilos.

Não tenho a menor ideia, respondi, porque em geral não tenho mesmo a menor ideia sobre nada, nem diagnósticos, nem soluções, e nisso ao menos fui sincero. Àquela altura, eu só tinha uma solução possível para o romeu-e-julieta, nada mais.

E do almoço, além da companhia agradável, de muitas risadas, de muito papo-furado, de falar mal de uns e de outros, acabou não saindo solução nenhuma para nada. Restou a conclusão de que o automobilismo está num beco sem saída, a conta não fecha mais, uma hora essa coisa toda, a F-1 em particular, vai pelos ares, e o último que apague a luz.

Mas sobrou também a convicção, e essa é pessoal e intransferível, de que romeu-e-julieta nem sempre é só goiabada Cascão e queijo Minas, variações sobre o tema são sempre bem-vindas, é preciso reinventar sempre — tentarei fazer isso com a coluna semanal, prometo. Já achei a receita e vou fazer igual na semana que vem. O romeu-e-julieta, digo. Não tenho ainda receita para a coluna.

E digo também que a torta de maçã com sorvete estava igualmente com uma cara ótima, mas essa não experimentei. Quanto ao automobilismo, a gente fala sobre isso no próximo almoço, se sobrevivermos até lá.

MEIO CHEIO, MEIO VAZIO – 15/07/2011

Há duas formas de se olhar para o automobilismo brasileiro. Aquela história do copo meio cheio ou meio vazio.

Meio cheio: surgiram três categorias neste ano. Uma da Audi, a DTCC, uma só de Mercedes, outra de Marcas, um campeonato nacional.

Elas se juntam ao quarteto Stock-Truck-Porsche Cup-GT Brasil, campeonatos ricos ou de gente rica. As duas primeiras profissionalizadas, cheias de patrocinadores e com transmissão da TV aberta. As duas últimas com carros de sonho, Ferraris, Lamborghinis, Porsches, Vipers, Fords GT.

Além do mais, correm os Fiat Linea e a F-Futuro, que têm a família de Felipe Massa por trás. E ainda tem F-3 Sul-americana. E TV para todo mundo, também, seja em canais abertos, seja nos fechados. E o Brasil é um dos poucos países no mundo com etapas da F1 e da Indy.

Olhando assim, puxa, que bacana.

Mas é melhor olhar mais de perto. Para ver que o copo está mesmo é meio vazio. Na beira da mesa, pronto para cair e se espatifar no chão.

Os novos campeonatos de Mercedes e Audi têm a ver com o momento econômico pelo qual passa o Brasil. Nunca se vendeu tanto carro de luxo no país como agora. Há mercado para milionários, os de sempre e os novos. São eventos corporativos. Nada contra. Cada empresa que encontre a melhor forma de promover seus produtos para atingir o tal público-alvo.

O mesmo vale para a GTBR e a Porsche. São para uma elite que gosta de se divertir correndo de carro, que não se importa com os altos custos, sem pretensão alguma de sair dali para correr no DTM, ou na Nascar, ou coisa que o valha. De novo, nada contra. TV? As categorias pagam para ter suas corridas transmitidas, e fazem isso mais por vaidade do que por retorno. A audiência é quase zero. São fonte de renda para as TVs, não o contrário.

O Brasileiro de Marcas usa quatro modelos diferentes: Civic, Focus, Astra e Corolla. Mas todos com o mesmo motor. “Marcas” é quase uma licença poética, nesse caso, mas pelo menos são carros de verdade, fugindo da fórmula chassi tubular-bolha de fibra da Stock. Está começando agora. É cedo para dizer qualquer coisa. A Linea e a F-Futuro têm grids magros. Difícil prever até onde se sustenta sem gerar receita. Nenhuma categoria com menos de 15 carros no grid é sustentável.

A Truck e a Stock têm história e tradição, ok. Os caminhões vão bem, obrigado. É uma categoria saudável, vigorosa, que tem a participação forte das fábricas. Mas não é corrida de carro. É mais um show do que uma competição. Mais uma vez, absolutamente nada contra. Tem público, ajuda a vender caminhão e pneu. Já a Stock vive em crise, com seus carros que se desmancham no ar, que pegam fogo, que são alvo de reclamações veladas (às vezes nem tanto…) de pilotos e vive sob uma gestão sempre colocada em dúvida, muito mais voltada para a autopromoção do que para o esporte propriamente dito.

O Brasil está mal de autódromos, todos sabem. Tem Interlagos e Curitiba em condições razoáveis, algumas pistas pequenas como Santa Cruz e Velopark, e vários cadáveres, como Brasília, Jacarepaguá, Goiânia. A CBA vive apanhando da mídia especializada, porque é ineficaz em todos os aspectos. Cobra muitas taxas, faz pouco pelo esporte. Teve até dirigente preso, outro dia. Há uma conspiração em curso para derrubar o atual presidente. As polêmicas surgem dia sim, dia não.

A última apareceu hoje, em Interlagos. Depois da morte de Gustavo Sondermann, definiu-se que a Curva do Café teria de ser refeita, com a criação de uma área de escape. Não fizeram. Aí ressuscitaram uma velha chicane usada para corridas de moto nos anos 90. A obra ficou uma porcaria. Os pilotos de Marcas, ontem, disseram que é “impraticável”, perigosa, malfeita. Como sempre, fizeram tudo sem critério, sem ouvir ninguém, de qualquer jeito.

O mesmo aconteceu na “reforma” do kartódromo, que resultou numa torre de controle derrubada e algumas zebras pintadas. Tem Brasileiro de Kart lá neste fim de semana. A CBA comemora mais de 200 inscritos. Os que têm senso crítico sabem que isso não quer dizer nada, exceto dinheiro em caixa. As inscrições são caríssimas e tem até fábrica que não consegue homologar seus karts, sem que se compreenda por quê.

Na F-1, Barrichello e Massa não têm sucessores. Bruno Senna e Lucas Di Grassi correrão, um dia? Na Indy, vive-se de Helinho & Tony há séculos. Os poucos talentos que surgem aqui e ali são frutos da (…)

O MANIFESTO DE “JP” – 25/02/2011

João Paulo de Oliveira é um dos pilotos brasileiros mais bem-sucedidos de todos os tempos. Aos 29 anos, acumula títulos na F-3 Sul-Americana, Alemã e Japonesa, ganhou também a F-Nippon, uma espécie de GP2 da terra do sol nascente, e há sete anos vive de correr no outro lado do mundo.

Acumula vitórias em diversas categorias, fez um bom teste com a Williams em 2006 e é daqueles raros talentos capazes de guiar com a mesma eficácia um monoposto, um carro de Turismo ou um protótipo. Requisitadíssimo, vai correr em 2011 pela Nissan na Super GT, um dos campeonatos mais populares do Japão.

“JP”, como é conhecido no meio, tem a carreira consolidada e, a exemplo de Augusto Farfus, que fez a vida na Europa com carros de Turismo pela Alfa Romeo e BMW, nunca dependeu de mídia, bajulação de jornalistas ou vinhetinha “Brasil-sil-sil” para conquistar o respeito de seus pares.

Afável, gentil e alheio a grandes badalações, é também um cara atento ao que acontece no automobilismo. Hoje, desovou um manifesto em seu blog que deveria ser lido por todos que militam no esporte a motor no Brasil. Quem quiser ler a íntegra pode acessar aqui: http://tinyurl.com/4lj32f4. Mas faço um resumo com prazer.

“Para onde vamos?” é o título do texto. “JP” se animou a escrever depois de ler uma entrevista de Massa a “O Estado de S.Paulo” na qual o piloto da Ferrari traça um quadro sombrio para o futuro dos brasileiros lá fora. Para Felipe, em pouquíssimo tempo o país não terá mais nenhum piloto na F-1, porque o automobilismo nacional está quase morto.

João Paulo acha que a origem da estiagem está no kart, que virou reduto de riquinhos dispostos a gastar os tubos com aproveitadores que preferem a grana rápida a um projeto de médio/longo prazo para o esporte. “Depois do kart, tínhamos F-Ford, F-Chevrolet e F-3. As duas primeiras estão extintas. A última, anda de muletas”, diz o piloto. “Por que há 10 anos tínhamos tantos pilotos com condições e hoje não, considerando o crescimento de nossa economia e a recente valorização do real frente ao dólar e euro? Algo está errado.”

Sim, algo está muito errado. Ele mesmo diz o quê: “Vou levantar aqui um fator irrelevante na formação de pilotos, mas que se deve à falta de ética de alguns no Brasil. Sabe quanto custa para renovar uma licença internacional de piloto com a CBA? R$ 1.615,00. Gostaria de saber quais benefícios aos pilotos estão incluídos nesse valor. No Japão, a renovação custa 200 dólares. O piloto recebe uma carteira que lhe dá direito a assistência 24h em caso de emergência e também descontos em manutenção de automóvel.
Se formos comparar custo x benefício, perdemos de goleada.”

E “JP”conclui: “A realidade é que estamos entrando em extinção. O Brasil continuará produzindo talentos no futebol e alguns outros esportes tendem a crescer, já que temos Olimpíadas se aproximando. Mas o automobilismo está numa descida em ponto morto e sem freio de mão”.

Eu diria que não há muito mais a acrescentar.

DESCULPA PARA TUDO – 19/12/2008

Na década de 70, a Audi nada mais era que uma divisão da VW que tentava se encaixar no mercado produzindo derivados daquele que seria nosso Passat, um projeto nascido na Auto Union duas décadas antes, ainda sob a supervisão da Mercedes-Benz.

A VW era conhecida por seus carros com motor a ar e precisava se posicionar no segmento que hoje se chama de “premium”, uma frescura que inclui esportivos e luxuosos. Queria disputar espaço com Mercedes e BMW, suas grandes concorrentes. Nos anos 80s, deu seu grande salto. Foi quando colocou na pista seus impressionantes Audi quattro, com tração integral nas quatro rodas, modelos que revolucionaram o mundial de rali e, depois, foram levados aos autódromos e montanhas dos EUA, conquistando a América e a Europa.

Podem colocar sua fama na conta das corridas. A Honda só fazia motocicletas e motonetas até a década de 60, e seu primeiro veículo de quadro rodas foi logo uma baratinha de Fórmula 1, que chegou a ganhar GPs no México e na Itália. Nos anos 80s e 90s, de novo na F1, já como fornecedora de motores para Williams e McLaren, cunhou sua imagem de competência e precisão, que foi transferida para a indústria automobilística, e, assim, a montadora passou a vender carros que nem água. Carros muito bons, diga-se. Mais uma para a conta das corridas.

A Subaru, até os anos 90s, não passava de um braço da Fuji Heavy Industries que fazia carros feios e esquisitos para o mercado japonês. Quando resolveu disputar o mundial de rali, começou a ganhar provas e títulos, e tornou-se conhecida globalmente. O logotipo das estrelinhas amarelas virou objeto de desejo de todos os amantes de carros espalhados pelo planeta, e seu modelo Impreza transformou-se quase num fetiche dos adoradores de máquinas nervosas e impetuosas.

Vai para a conta das corridas, também. Audi, Honda, Subaru e, de quebra, Suzuki anunciaram nas últimas semanas seu afastamento das competições. A crise isso, a crise aquilo, as vendas caíram, e todas elas jogaram na conta das corridas parte da culpa pelo momento delicado que vivem. É tudo muito caro, dispendioso e supérfluo. Que se cortem as corridas!

Essas marcas, e muitas outras, nada seriam no mercado automobilístico mundial se não fossem suas trajetórias nas pistas. Agora, elas demonizam as competições para encobrir a incompetência de seus executivos, incapazes de enfrentar dois meses de crise depois de anos de prosperidade e fartura, inaugurando fábricas desnecessárias, torrando dinheiro em projetos que jamais sairão do papel, gastando fortunas em campanhas publicitárias duvidosas, festas nababescas para apresentações de carros e stands faraônicos em salões de automóveis.

Esses mesmos executivos, que não mexem nada nos seus salários, claro, podem até achar que estão certos, agradando seus acionistas e superiores imediatos. Mas estão, mesmo, contribuindo para que as empresas que dirigem percam o respeito do consumidor. E, uma hora, aquele cara fiel, que se orgulhava de ver um Subaru igual ao dele em Mônaco, ou as quatro argolas em Le Mans, ou o H em Monza, manda a conta.

VERGONHA NACIONAL – 07/03/2008

O Mundial de Fórmula 1 começa na semana que vem e olha eu aqui falando de automobilismo nacional…
Mas é preciso. E, no fundo, os fatos que serão relatados, ao fim e ao cabo, dizem respeito, sim, à F-1. Porque sendo ela o destino final sonhado por qualquer moleque que começa a vida no kart, é nela que os torcedores sentirão, no futuro, os efeitos daquilo que vem acontecendo pelas bandas verde-amarelas.

Na semana passada, chegamos ao auge da pindaíba nas pistas, com a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) patrocinando os maiores vexames da história recente do esporte a motor no país.
Primeiro foi o episódio do Mundial de Kart Biland. A competição estava agendada desde o ano passado para Itu. A Biland, para quem não sabe, é uma das maiores fabricantes de motores de kart do mundo, que nos últimos tempos tem salvado o kartismo brasileiro do completo ostracismo.

Mas a CBA resolveu desautorizar o evento porque a Biland apoiou uma corrida “não-oficial” no Rio no fim do ano passado. Era não-oficial porque os dirigentes da federação carioca, que nem tem campeonato regular porque a cidade não tem kartódromo, queriam que os participantes pagassem a filiação anual para disputar uma única prova. Os pilotos não quiseram, não houve negociação e eles resolveram correr assim mesmo. A Biland, claro, ficou do lado dos pilotos.

Foi o suficiente para a CBA excomungar a marca do kartismo nacional, cancelando todos seus campeonatos e vetando o Mundial em Itu. A entidade foi tão patética que “notificou” a prefeitura de Guaratinguetá, onde acabou acontecendo o evento, e suspendeu os pilotos brasileiros que dele participaram por 60 dias. A cidade e os promotores, claro, deram uma banana para a CBA e fizeram o Mundial, com pilotos daqui, da Inglaterra e da Irlanda.

Agora vamos a Curitiba. Abertura do WTCC, o Mundial de Turismo. Jornalistas, equipes e profissionais qualificados de vários países, prova importante com participação de montadoras do porte de BMW, Seat e GM, ex-pilotos de F-1 na pista, e a CBA abre, nas preliminares, dois dos campeonatos que promove: o Brasileiro de Marcas e a F-Brasil, uma categoria de monopostos que usa os antigos F-Renault — série extinta no fim de 2006 quando terminou o contrato da montadora francesa com Pedro Paulo Diniz, o promotor.

O Brasileiro de Marcas juntou dez carros, a maioria Gol “bolinha”, e pelo menos três de escolinha de pilotagem para encher o grid e evitar que a vergonha fosse ainda maior. Quatro deles chegaram ao final. Isso num país que tem, instaladas, fábricas da VW, GM, Ford, Fiat, Toyota, Honda, Peugeot, Citroën, Renault…

Na F-Brasil, a coisa foi ainda mais ridícula: seis carros largaram, dois bateram na primeira curva e quatro receberam a bandeirada. Um papelão. E é a única categoria nacional de monopostos do país.
Isso tudo aconteceu diante dos olhos de 30 mil espectadores nas arquibancadas e da comunidade automobilística internacional, comissários da FIA incluídos. Aí essa gente volta à Europa e deve se perguntar: isso aí é o automobilismo brasileiro? Como é que saíram oito títulos mundiais de F-1 de um país chinfrim como esse?

Pois é, saíram. Só que eram frutos de outros tempos, de uma época em que havia F-Ford, Super-Vê, F-Chevrolet, Marcas & Pilotos com carros oficiais de fábrica, campeonatos monomarca, F-3 acessível, kart forte, barato e repleto de gente correndo. E mesmo assim ainda há três pilotos brasileiros na elite mundial, um deles com chance de título, Felipe Massa. Só que não vai aparecer mais ninguém, porque automobilismo aqui virou piada de mau gosto — daí a relação direta entre as presepadas da CBA e o futuro do Brasil nas pistas do exterior.

E é por isso que a uma semana do GP da Austrália sou obrigado a falar de Gol “bolinha” e corrida de seis carros.