Os azares de Schumacher na Áustria – 03/05/2002

Das 17 pistas que formam o atual calendário da F-1, o alemão Michael Schumacher só não venceu em uma: em Zeltweg, na Áustria, local da próxima etapa do Mundial, no dia 12. O ferrarista costuma dar muito azar no circuito: ele se envolveu em confusões nas quatro vezes em que disputou a corrida. Em 1997, ultrapassou sob bandeira amarela; em 1998, saiu da pista e destruiu o bico; foi tocado por trás em 2000 e saiu da pista com Montoya em 2001. Outro detalhe: desses quatro GPs, em dois ele largou atrás do seu companheiro de equipe (Irvine, em 1997, e Barrichello, em 2000).

Confira a extensa lista de azares do tetracampeão na Áustria:

1997 – Depois de treinos ruins, Schumacher largou apenas em nono, imediatamente atrás de seu companheiro de equipe, Eddie Irvine. Foi sua pior colocação no grid naquela temporada, junto com a da Itália. Michael partiu bem e completou a primeira volta na sexta colocação. Com o pit stop de Jan Magnussen (Stewart) na 26ª passagem, Schumacher subiu para quinto. Barrichello (também da Stewart) parou nos boxes duas voltas depois e o ferrarista pulou para quarto. O alemão passou Frentzen sob bandeira amarela na 38ª volta e assumiu a segunda colocação com o pit de Jacques Villeneuve. Schumi, porém, foi punido com um stop&go e despencou para nono. Passou Barrichello e Damon Hill (Arrows) nas últimas voltas e terminou em sexto. Villeneuve, seu grande rival na briga pelo título, venceu e ficou apenas um ponto atrás do alemão no campeonato.

1998 – Em uma classificação que alternou chuva e pista seca, Schumacher conseguiu apenas o quarto tempo. A primeira fila foi formada por Fisichella (Benetton) e Alesi (Sauber). O alemão largou bem e na primeira volta já pressionava Mika Hakkinen (McLaren), o líder. Michael, porém, forçou demais e cometeu um erro na 17ª passagem, quando ainda era o segundo. Ele destruiu o bico de sua Ferrari e foi obrigado a dar uma volta inteira com o carro avariado. Caiu para 16º e foi se recuperando até terminar em terceiro, atrás da dupla da McLaren. O pódio só foi possível porque a Ferrari mandou Irvine dar passagem ao alemão.

1999 – Não correu porque estava se recuperando do acidente sofrido em Silverstone. O alemão quebrou a perna direita e ficou três meses sem disputar um GP de F-1.
2000 – Ficou em quarto no grid, imediatamente atrás de Rubens Barrichello, e foi tocado por Ricardo Zonta (BAR) na primeira curva. O alemão tentou colocar seu carro no meio da pista para paralisar o GP, mas a direção de prova foi rápida e permitiu que a corrida continuasse.

2001 – Conquistou sua primeira pole na Áustria, mas largou mal e caiu para terceiro. Subiu para segundo com a quebra de Ralf e partiu para cima de Montoya, o líder. Schumi forçou a ultrapassagem na 16ª volta (foto) e ambos saíram da pista. O alemão caiu para sexto e se recuperou até cruzar a linha de chegada em segundo. Foi nesta corrida que a Ferrari obrigou Barrichello a ceder sua posição ao companheiro de equipe. O brasileiro só fez isso na última curva.

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O autódromo que se vinga – 05/04/2002

Não, Barrichello não ia ganhar a corrida. Não, o destino não é cruel com ele. O cara é piloto da Ferrari, a melhor equipe do mundo, ganha cinco milhões de verdinhas por ano, é bem casado, tem um filho de seis meses gorducho e sorridente, mora num belo apartamento no Morumbi, tem outro em Mônaco, só anda de carrão. Não, quem tem tudo isso não pode reclamar do destino.

Mas vai ter azar assim no inferno. Corrida no Brasil, para Rubens, seria melhor se não existisse. Poderia ser transferida para Cali, Cidade do México, Buenos Aires, Ciudad de Est. Ou para o Suriname, Tegucigalpa, Santa Cruz de La Sierra, Guaiaquil, Caracas, Havana. Tudo que pode dar errado para Barrichello dá errado em Interlagos.

Enumerando, a partir de sexta-feira: o pneu furou na primeira volta da primeira sessão de treinos livres; o controle de tração pifou na mesma sessão, ele rodou e perdeu mais de 20 minutos de treino; no sábado, o sinal ficou vermelho na hora em que saía dos boxes e a punição foi a perda do melhor tempo na classificação; no treino que definiu o grid, o carro entrava em ponto morto sozinho; e domingo, na corrida, estava em primeiro quando a “vovó” quebrou, pane hidráulica, seja lá o que for isso. Pára tudo de funcionar, esses carros de F-1 são muito bestas, qualquer coisa quebra.

Em dez GPs do Brasil, Barrichello só chegou ao final de um, faz tanto tempo que nem lembro como foi, em 1994. Nove abandonos, sete deles por má-vontade dos carros. No ano passado, bateu estrepitosamente em Ralf, mas estava piradinho porque o carro titular quebrou quando ele se dirigia ao grid. E em 96, no outro abandono que pode ser debitado de sua conta corrente, rodou na frente da maior arquibancada de Interlagos depois de largar em segundo e encher a torcida de esperança.

Rubens poderia ficar gripado todo final de março. Ou pedir para não correr no Brasil. O desânimo a cada desgraça, a volta a pé aos boxes diante dos olhares sádicos de um público que não perdoa ninguém (foto), as explicações para o inexplicável, os olhos vermelhos, o consolo da família, a dor de abrir os jornais no dia seguinte, tudo isso deve, em português dos mais cristalinos, encher o saco do rapaz.

Ele costuma dizer que, apesar de tudo, correr em Interlagos é um prazer, é o melhor fim de semana do ano. Não é. É uma droga, dá tudo errado. Tem maldição, sim. Não sou de ficar com dó de ninguém, ninguém precisa da minha compaixão. Mas domingo confesso que deu pena. Não, o destino não é cruel com Barrichello. Cruel é esse circuito que insiste em fazer sofrer um menino que cresceu trepando nos seus muros para ver carros de corrida, sonhando com o dia em que iria brilhar ali. Rubens deve ter quebrado alguma vidraça, matado algum passarinho, envenenado algum vira-lata quando brincava de calças curtas no autódromo. Interlagos está se vingando. Só pode ser isso.

Assuntos de sobra – 06/04/2001

Tem semana em que falta assunto para escrever uma coluna sobre F-1. Em outras, o tema é óbvio. Em algumas, raras, até sobra. É o caso desta. Sem grande esforço, daria para escrever um monte de coisas sobre Montoya, o grande nome do GP do Brasil. Ou sobre o drama de Barrichello, que culminou com uma barbeiragem histórica em Interlagos. Ou, ainda, sobre o levante das montadoras, dispostas a criar uma categoria para rivalizar com a F-1.

Bem, já que o espaço abunda, vamos aos três temas.

Começando com Montoya. É o homem, finalmente, ungido pelos céus para enfrentar Schumacher? É cedo para dizer. Mas pelo menos ele não tem medo do alemão, o que é uma boa notícia. Ultrapassou Michael com coragem e ousadia em Interlagos, e depois ainda tirou uma do rival em potencial. Contaram ao colombiano que Schumacher teria dito algo como “ele pode ser bom, mas ainda precisa aprender muito”. Juan-Pablo sorriu e respondeu: “Nem tanto”.

Legal, o cara é despachado, não se assusta com cara feia, vai para cima, quer ganhar. E mesmo perdendo, graças a uma espetacular bobagem de Jos Verstappen, não transformou o acidente em telenovela mexicana. “São coisas que acontecem”, resumiu. Pelo que fez na pista, e pelo que disse fora dela, Montoya ganhou fãs e respeito. Isso em sua terceira corrida. Assim nascem os campeões.

Falando em telenovela, Barrichello mais uma vez deu mostras de que sua falta de autocontrole pode ser um problema no futuro próximo. O GP do Brasil foi um drama para o moço. Desde o início da semana, caprichou nas declarações confusas e, algumas vezes, desastradas. Nos treinos, não foi bem. O sexto lugar no grid deixou o rapaz chateado, mais ainda porque Schumacher fez a pole.

Na corrida, admita-se, teve uma infelicidade danada de perder o carro titular momentos antes da largada. Seu esforço, e o da Ferrari, para conseguir alinhar com o carro reserva foi emocionante, daqueles momentos que entram para a história do esporte, mais ainda porque foram carregados de dramaticidade, a corrida a pé, sob sol forte, de capacete e macacão, a carona no furgão, até chegar aos boxes e conseguir colocar o carro na pista poucos segundos antes de os pits serem fechados.

Quando chegou ao grid, Rubens arfava e chorava. É compreensível. Mas seria bom para ele se nos 15 minutos seguintes conseguisse se concentrar e colocar a cabeça no lugar. O que não aconteceu. Barrichello ainda estava transtornado quando largou, e isso em parte explica a batida em Ralf Schumacher, de sua inteira responsabilidade.
Foi o que de pior poderia acontecer para o brasileiro: um fracasso diante de seu público, num erro indiscutível. Virou motivo de chacota de metade do país e de ira de outra metade, todos sempre se achando no direito de julgar atletas e cobrar deles desempenhos de antigos ídolos, como Ayrton Senna.

Julgar Barrichello pelo acidente com Ralf é um equívoco e uma injustiça. Ele não é melhor nem pior do que sempre foi por causa desse episódio. Foi apenas um acidente de corrida, como tantos outros, e assim deveria ser encarado. Dessa vez, ele teve culpa. Em Monza, no ano passado, foi acertado por Frentzen de maneira parecida. E, da mesma forma, Frentzen não virou um cretino de um dia para o outro por causa daquela batida.

Se há algo a criticar em Barrichello, sem que se faça necessária qualquer análise técnica do acidente, foi seu comportamento pós-corrida. Ele culpou Ralf e não assumiu seu erro, o que só serviu para aumentar a dimensão da batida e inflamar ainda mais seus críticos. É o tipo de coisa desnecessária. Seria mais fácil, mais simples e mais digno admitir que errou.

Por fim, as montadoras. Elas são, hoje, donas da F-1 por controlarem a maior parte das equipes. Mas não apitam nada nos destinos da categoria. É difícil imaginar que levem a cabo a ideia de criar outro campeonato. De qualquer forma, colocaram a cabecinha para fora do engradado e avisaram: “Estamos aqui”. É uma pressão considerável, partindo de indústrias do porte da Fiat, BMW, Mercedes, Ford e Renault. Serviu como aviso aos novos donos do negócio F-1, os alemães do KirchMedia, que cedo ou tarde terão de se sentar com as fábricas e, com elas, negociar e definir o que querem dessa galinha dos ovos de ouro sobre rodas.

Fumaça em Maranello – 11/11/2000

A divulgação da notícia, nesta semana, de que a Ferrari estaria pensando em preparar o imberbe Fernando Alonso para o lugar de Rubens Barrichello a partir de 2002 dá o que pensar. É estranho que tenha sido divulgada por um jornal, La Gazzetta dello Sport, que pertence ao grupo Fiat e é uma espécie de diário oficial ferrarista. Raramente o time é criticado em suas páginas cor-de-rosa, à Gazzetta a cúpula da Ferrari fala quando e o que quiser, seus repórteres são odiados pela concorrência por dispor de informações privilegiadas. Há duas correntes na imprensa italiana que cobre F-1. Os oficialescos da Gazzetta e os independentes do la Reppublica, do Tuttosport, do Corriere dello Sport, do La Stampa, do Il Resto del Carlino, da Radio Capital, e por aí vai. Conheço todos, e com todos me dou muito bem. Italiano é gente simpática, adora o Brasil, e se tenho amigos estrangeiros na F-1, estes são os jornalistas italianos. Muito menos por interesse jornalístico, muito mais porque é uma turma realmente maravilhosa. O autor da reportagem que vincula Fernando Alonso à Ferrari, Andrea Cremonese, é uma figura popular. Baixinho, meio corcunda, divertido, perguntador constante nas entrevistas coletivas com seu inconfundível sotaque. E, acima de tudo, um sujeito sério. Chuta-se muito na imprensa, mais ainda na F-1, e mais ainda na Itália. Ninguém está imune, porque jornalista precisa de notícia, de assunto, e muitas vezes um indício de qualquer coisa vira manchete. Há uma autocrítica da classe aqui, mas ao mesmo tempo não se pode negar que muitos desses indícios se transformam em fatos meses depois, e isso acontece todos os anos. Para ficar só nesta temporada, basta lembrar a antecipação, por vários veículos de imprensa, da contratação de Montoya pela Williams, da demissão de Wurz da Benetton, da saída de Diniz da Sauber, do empréstimo de Button à Benetton, da aposentadoria de Herbert, da aquisição de Salo pela Toyota e da desistência da Peugeot. Cremonese não chuta nem mais, nem menos que seus colegas. E trabalha num jornal permanentemente monitorado pela Fiat e pela Ferrari. Foi muito esquisita a reação da equipe à publicação da reportagem sobre Alonso no lugar de Barrichello, com seus assessores fazendo corpo-a-corpo junto a jornalistas do mundo inteiro para desmentir a notícia. Pode-se interpretar essa história de várias maneiras. Uma indireta a Barrichello, algo do tipo acelera ou se manda. Ou um descuido da direção da Gazzetta, que deixou passar uma notícia sem fundamento. Ou um vazamento inesperado e indesejável, seguido dos desmentidos que só serviram para acrescentar mais uma interrogação ao episódio. Alonso é muito jovem, embora promissor. Há outros jovens promissores por aí, como Pizzonia, Pantano, Da Matta, Raikkonen, um monte. Por que o seu nome, e não outro, foi ventilado pode parecer um mistério. Mas quando o próprio Alonso confirma que a Ferrari andou perguntando sobre seu contrato, e quando um jornal como a Gazzetta revela o interesse da equipe, é porque há uma fumacinha nessa parada. E onde há fumaça, todos sabem que fogo pode haver, também. (A propósito, não gosto dessa banalização das especulações sobre pilotos da Ferrari. Já que falei em fumaça, acho que a equipe deveria anunciar seus pilotos com faz o Vaticano com o papa. Uma fumacinha vermelha saindo do casarão do comendador em Maranello seria o sinal do time para o nome de consenso. Ferrari é Ferrari, é diferente, importante, mítica. Mas isso é tema para outro dia.) Pessoalmente, acho que é cedo demais para se especular sobre a saída de Barrichello ao final de seu contrato com a Ferrari. Ele pode fazer um Mundial brilhante no ano que vem e tudo que se escreveu antes será esquecido. Mas não descarto a possibilidade de alguém, na equipe, estar pensando num eventual substituto para o brasileiro. Assim como a Ferrari pensa, também, no que fazer se Schumacher resolver se aposentar. Na F-1, as coisas acontecem assim, em código, informação e contrainformação, boatos, chutes e desmentidos, conversas ao pé do ouvido, pilotos, empresários e equipes frequentemente usando a imprensa em função de seus interesses. Pelo sim, pelo não, Alonso ganhou notoriedade nesta semana. E Barrichello, de férias, possivelmente sem saber de nada, voltou a ter seu futuro e sua capacidade colocados em xeque. É cruel, essa Fórmula 1.

Exemplo – 07/07/2000

Serei previsível. Todo colunista de automobilismo no Brasil, esta semana, escolheu Roberto Moreno como tema. Farei o mesmo. Nós, colunistas, vivemos desesperados atrás de assuntos que valham uma coluna. Quando surge um, não podemos deixar passar em branco.

É o caso do Moreno nesta semana. Muito mais do que o dedo do Coulthard para o Schumacher, ou mesmo as novas insinuações de Barrichello depois do GP da França – que tirou o pé para o alemão ter folga nos pit stops, etc. e tal. Insinuações de Barrichello, na verdade, já estão se tornando recorrentes, ele está banalizando seu discurso, e discursos banais acabam perdendo a força.

Ao Moreno, então. Todos nós, que cobrimos F-1 desde o final dos anos 80, temos alguma história sobre o Moreno, que é chamado pelos amigos de Baixo. Nunca usei o termo, primeiro porque não sou exatamente seu amigo, e depois – talvez principalmente – porque sou mais baixo do que ele.

Roberto não ganhava uma corrida desde 88. Deve ser duro, para um piloto, passar tanto tempo sem vencer. Christian Fittipaldi e Maurício Gugelmin viveram dramas parecidos. Barrichello, idem. Não ganha uma corrida desde 91, quando disputava a F-3 Inglesa. Manter a motivação e a força de vontade intactas por tanto tempo é uma façanha. No caso do Moreno, sua última vitória, 12 anos atrás, aconteceu em Birmingham, na F-3000. Ele corria com um carro emprestado pela Reynard, todo branco. Tinha duas necessidades básicas: não bater e conseguir bons resultados, para que o dinheiro dos prêmios garantisse sua presença na corrida seguinte.
Foi campeão. Isso um ano depois de já ter estreado na F-1, na AGS, em 87. O título não lhe rendeu grande coisa em 89. Um contrato com a Coloni, apenas, apesar do bom retrospecto e de ter trabalhado também como piloto de testes da Ferrari, desenvolvendo o câmbio semiautomático inventado pelo time de Maranello.

Em 90, foi para a Eurobrun, outra equipe risível. Só conseguiu um carro de verdade quando Alessandro Nannini caiu do helicóptero, perdeu um braço, e Nelson Piquet arrumou a vaga na Benetton para o amigo. Um segundo lugar em Suzuka, em dobradinha com Nelson, foi seu grande momento na F-1.

No ano seguinte, foi demitido pela Benetton para dar o lugar a uma estrela ascendente, Michael Schumacher. Não se pode dizer que a equipe tenha feito uma aposta errada. A partir daí Roberto perambulou pela Jordan, depois Minardi, depois Andrea Moda e por fim Forti Corse. Correu por algumas das piores equipes da história, talvez a pior de todas, a Andrea, uma picaretagem de um italiano vendedor de sapatos.

No único GP que conseguiu disputar pela Andrea, o de Mônaco em 92, a equipe comemorou sua classificação para o grid como se tivesse ganho uma Copa do Mundo. Não era para menos. Meses antes, no Brasil, o carro ficara pronto momentos antes da pré-classificação. Moreno saiu dos boxes e voltou com a alavanca de câmbio na mão. Enquanto isso, numa Kombi velha, o pessoal do time circulava pelas oficinas de Interlagos atrás de peças para montar o segundo carro. No Canadá, o time só participou dos treinos porque a Brabham emprestou um motor. Na regata dos mecânicos, o barquinho da Andrea afundou… Era engraçado.

Depois dessa experiência, Moreno virou um resmungão amargurado. Correu de turismo, fez algumas provas na Indy, virou um substituto oficial de pilotos acidentados, até assinar, no começo deste ano, um contrato de verdade com a Patrick. Ganhou sua primeira corrida na categoria, lidera o campeonato, e não incluir seu nome na lista de favoritos ao título seria um equívoco.

É o que se chama, para usar um clichê abominável, de volta por cima. Moreno tem 41 anos, está longe de ser um galã, ostenta uma carreira que flertou muito mais com o fracasso do que com o sucesso. E está mostrando que provavelmente, em algum momento nesses últimos 12 anos alguém errou no julgamento que fez de sua capacidade de pilotar, de ser um vitorioso, enfim.

Bem, como se diz, antes tarde do que nunca. Roberto pode até não ganhar mais nenhuma corrida, nem conquistar o título. Mas, no mínimo, deixa para as gerações de garotos mais novos, deslumbrados com uma carreira que quase nunca é a maravilha que se imagina, uma lição de perseverança. Dá um exemplo. O que já é mais do que a maioria conseguiu.

Aquarela do Brasil – 31/03/2000

Não é má vontade minha. Mas não pode passar em branco tudo que aconteceu em Interlagos na semana passada. Neste ano, mais ainda. Teve cachorro, placa caindo sobre a pista, asa voando por causa do asfalto, vexame atrás de vexame. Aquelas coisas que só acontecem aqui. Aí o piloto brasileiro abandona a prova, e imediatamente surgem acusações de que quebraram o carro do rapaz. Por fim, o vencedor esquece o troféu no autódromo. E lá na Europa chega a notícia de que roubaram o dito cujo.

Tudo que aconteceu em Interlagos é reflexo do Brasil. Incompetência, negligência, dinheiro malgasto. Um bom castigo seria perder a corrida, o que não vai acontecer – o GP dá lucro. Mas seria uma boa lição para pessoas que não levam as coisas a sério, promovem barbaridade em cima de barbaridade.

Outra historinha, boa para ilustrar o que somos. Estive na fábrica da Williams no ano passado. Num canto do saguão de entrada há uma área de exposição de troféus. Taças lindas, de prata, cristal, banhadas a ouro. Grandes, pequenas, delicadas, de todos os tipos – a Williams ganhou 103 GPS na F-1.

Olhei as que estavam expostas, lembrando de algumas corridas, vitórias que presenciei, até me deparar com um trofeuzinho mequetrefe, de plástico cromado, a base cheia de rebarbas, uma plaquinha com um nome gravado às pressas. Nos campeonatos de futebol de botão que eu promovia no meu prédio, o vencedor – em geral eu mesmo – ganhava coisa melhor. De verdade. Li na placa: vencedor do GP do Brasil de 92. Nigel Mansell. Era um desses troféus Piaza, que a gente compra em loja de esportes e não custam mais do que vinte mangos. Ninguém, em 92, se preocupou em mandar fazer uma taça bonita, marcante, algo compatível com a importância que a F-1 tem no mundo. Deu vergonha.

*
E para não dizer que não falei do esporte, algumas conclusões depois de dois GPs. A primeira: Schumacher é disparado o favorito ao título. Está guiando como nunca, enche os olhos. A segunda: a McLaren está lascada se quebrar de novo em Imola. A terceira: Barrichello ainda precisa mostrar serviço se quiser ser tratado realmente como um top driver. Por enquanto, fez o que a maioria dos pilotos faria, tendo uma Ferrari nas mãos – não foi mal, mas não foi bem, com exceção das ultrapassagens sobre Coulthard e Hakkinen, esta um pouco demorada demais. A quarta: o ufanismo que toma conta de todo mundo diante da mera possibilidade de uma vitória brasileira é algo irritante. Mais uma vez, ouço a cada cinco minutos que estão sacaneando Barrichello. E quando tento dizer que não há nenhuma conspiração universal contra o Brasil, que na verdade o Brasil não interessa a ninguém, sou excomungado. Ainda bem que já me acostumei.

Naka-san – 12/07/2013

Como vão as coisas aí do outro lado do mundo? Rapaz, tirei férias de algumas semanas e já na primeira carta-coluna da semana o que não falta é assunto.

Esta semana foi agitada. Caíram na rede, graças a um jornalista narigudo aqui do Brasil, uns contratos dos tempos em que você corria. Daquela época em que marcas de cigarro patrocinavam várias equipes e despejavam caminhões de dinheiro na F-1, lembra?

Um deles é o do Piquet na Lotus, de 1988. Quer dizer então que por contrato você não podia passar o cara? Que moral, hein?

Estou chamando essa saraivada de documentos, que pertencem a uma biblioteca na Califórnia que arquiva documentos da indústria do tabaco, de “F-1 Leaks”. Pode parecer um exagero, porque na prática não há, até agora, nada que possa levar a uma denúncia que vá abalar as estruturas terrestres.

(OK, de péssimo gosto falar de abalar as estruturas terrestres. Vocês não esqueceram, nem podem, o
último grande terremoto. Desculpe.)

Mas eu dizia que não é propriamente algo que vá derrubar governos, ou levar alguém para a cadeia, ou desconstruir reputações. São curiosos e interessantes, porém. Trazem detalhes que a gente não conhecia a fundo.

Muita gente anda indignada com a grana que vocês, pilotos, recebiam em paraísos fiscais, mas estou tentando explicar que isso não é exatamente ilegal. Depende de quem paga e de quem recebe, de onde se tem domicílio, de onde se paga imposto, da origem do dinheiro. No mundo do esporte, do show-business e sei mais lá em qual outro mundo (tem o do tráfico de armas e drogas, da corrupção, de todo o lixo humano que o planeta produz, mas essa é outra história), é comum montar uma empresa que movimente grandes somas em países cujos regimes tributários são mais leves. As empresas montadas nesses países operam com dinheiro que tem origem, contabilizado em algum lugar, em algum momento. Quem usufrui dessas quantias tem bons advogados tributaristas e sabe fazer as coisas dentro da lei. São apenas espertezas.

Sim, é claro que eu sei que na F-1 tem uma pá de contratos registrados através de empresas instaladas nesses paraísos fiscais. Faz parte do capitalismo, ninguém gosta de pagar muitos impostos, as pessoas se viram como podem, e se o mundo das finanças oferece essas possibilidades de pagar menos, os caras pagam menos. E se acertam com as autoridades de seus próprios países. Aliás, nem sei por que estou falando disso com você. Não reparei se nesses contratos tem alguma coisa com seu nome sobre pagamentos em paraísos fiscais. Vai ver, você recebia em ienes numa agência bancária de Suzuka, pagando tudo que o leão japonês exige. É problema seu, não tenho nada com isso.

Estou escrevendo mesmo por causa da tal cláusula de conduta. Não poder chegar na frente do companheiro de equipe é osso, hein? Mas é gozado. Imagino que você não tenha se preocupado muito com isso. Não vou levantar os números, nem rever todas as corridas daquele ano, mas acho que você não deve ter chegado na frente do Piquet em nenhum GP “em condições normais”. Engraçado, mesmo, é um cara como o Piquet, tricampeão do mundo, querer isso no contrato. Assim como o Senna.

Imagino que era, e deve ser ainda em algumas equipes, algo tão comum quanto receber salário em paraíso fiscal. O que explica aquilo que aconteceu na Áustria com Barrichello, lembra? Pois é. Devia estar em contrato, como todos imaginávamos. Mas não precisava, né? E o Rubens cumpriu o que estava escrito, isso não se pode negar. Se bem que não precisava ser daquele jeito. Era só deixar passar no meio da corrida e ninguém mais iria falar nisso. Mas foi deixar para a última curva, e depois fez biquinho, polêmica desnecessária. Era só dizer: “gente, tenho um contrato, cumpri, as coisas são assim, está tudo bem”.

O que o ‘F-1 Leaks’ mostra com esses contratos é que os pilotos morrem de medo de seus companheiros de equipe, isso sim. Uma bobagem sem tamanho. Acho. Vai ver vocês têm seus motivos. Precisa mesmo se resguardar por escrito da possibilidade de o outro ser mais rápido? Acho muita pobreza de espírito. E falta de confiança no taco. Ou falta de confiança nas pessoas com quem trabalha, vai saber…
Piquet, com todo respeito a você, meu caro nipônico, não tinha necessidade disso. Mas talvez ele tenha carregado algum trauma da Williams, dos tempos em que dividia a equipe com o Mansell. É uma tese… Ou, então, esses contratos são meio padronizados, toda equipe tem piloto número 1 e piloto número 2, e pronto.

Só sei que, a partir desses documentos, vou pensar duas vezes antes de afirmar, como muitas vezes afirmei, que não tem isso de primeiro e segundo piloto por escrito, que o que determina quem é o primeiro é o desempenho na pista. Sempre achei que essas coisas eram implícitas, combinadas no fio do bigode, dependiam de circunstâncias. Não mais. Passarei a desconfiar de todos. Pelo jeito, está tudo preto no branco, mesmo. De papel passado, autenticado e com firma reconhecida.

Piquet está sendo malhado por muita gente nos comentários dos blogs. Senna, idem. Um exagero, também. Estavam jogando o jogo, creio. Atualmente, os brasileiros não estão com essa bola toda, não. É bem provável que o contrato do Massa com a Ferrari tenha cláusula de conduta, assim como o de Barrichello, quando ele corria com o Schumacher. E o do Grosjean. E o de todos. Da mesma maneira, jogam o jogo.

Na verdade, mesmo, achar que essas coisas não constavam dos contratos era um pouco de ingenuidade de minha parte. Eu mais queria achar que não estavam, do que tinha convicção de que não estivessem. Preferia acreditar que esporte é disputa, competição, e que vença o melhor. No fim das contas, o melhor acaba vencendo, sim. Mas a turma não quer que nada de errado aconteça, e mete no papel, por via das dúvidas. Dá um jeito de se resguardar, de garantir que seus roteirinhos sejam cumpridos, que sejam à prova do imponderável.

As pessoas não gostam muito do imponderável.

Um abraço, Naka-san. Você foi um bom piloto, apesar de tudo. Até o Piquet tinha medo.