A agonia da Minardi – 18/11/2000

Está em curso na Fórmula 1 uma operação de salvamento. É uma espécie de SOS Minardi. A equipe não tem motor, patrocínio, pilotos e dinheiro para disputar o próximo Mundial. Bernie Ecclestone está se mexendo para convencer a Cosworth a continuar fornecendo seus motores ao time de Faenza. Gabriele Rumi, que reassumiu o comando financeiro da equipe depois que a PSN desistiu de comprar a maior parte de suas ações, busca apoio junto a figuras históricas, como o engenheiro Mauro Forghieri, ex-Ferrari, cuja última aventura foi a equipe Lambo, nascida e morta em 91.
Só está faltando a gravação de um clipe com todos os pilotos cantando, como quelas papagaiadas pelas vítimas da fome na Somália, ou pelas ararinhas azuis em extinção. E por que tanto esforço por uma equipe que, em 16 temporadas, nunca colocou um piloto no pódio, somou apenas 28 pontos (quatro mais do que Ralf Schumacher neste ano, por exemplo), disputou 254 GPs e conseguiu liderar uma única volta, em Portugal/89 com Pierluigi Martini? Para que lutar pela sobrevivência de um time que em metade de seus Mundiais terminou o campeonato com zero ponto, como neste ano? E que entregou seus cockpits a pilotos como Shinji Nakano, Adrian Campos, Luis Perez Sala, Paolo Barilla, Jean-Marc Gounon, Fabrizio Barbazza, Giovanni Lavaggi, Ukyo Katayama, Esteban Tuero e Gastón Mazzacane? Há uma explicação. O campeonato que se autoproclama o mais sensacional, sofisticado, maravilhoso, espetacular e charmoso do mundo não pode ter apenas 20 carros no grid. Seria quase uma confissão de incompetência num mundo capitalista, de economia globalizada, de enormes conglomerados industriais, de fusões bilionárias de montadoras, não conseguir juntar mais do que 20 baratinhas para disputar corridas. Afinal, são carros, coisas simples, quatro rodas, um motor, uma caixa de câmbio, gasolina, pneus, dois caras para dirigi-los, alguns uniformes, dois caminhões e um motorhome. Não deveria ser tão difícil assim arranjar candidatos. O problema é que é difícil. A F-1 está morrendo pela boca, pagando o preço de ter se transformado num negócio muito caro para aqueles que se dispõem a participar. Não que manter uma equipe como a Minardi represente um custo astronômico para empresas como – apenas para citar o exemplo da última que estampou seu nome nos carros italianos – a Telefónica. Sessenta, oitenta milhões de dólares, talvez. Dinheiro do café para uma gigante das telecomunicações como a companhia espanhola. Acontece que essas empresas querem retorno. A matemática capitalista é simples: cada dólar investido tem de voltar multiplicado. Um anúncio da Telefónica da Rede Globo pode sair caro, mas tem retorno garantido. Uma campanha anual, com propagandas todos os dias durante o Jornal Nacional, pode custar até mais do que bancar integralmente uma equipe de F-1. Esse dinheiro volta, em forma de assinantes, venda de serviços, o que for. Mas se a equipe de F-1 for uma Minardi, é rasgar dinheiro. Seus carros nunca aparecem na TV, seus pilotos não são fotografados, ninguém sabe da existência, é motivo de chacota.
A falência iminente da Minardi é o primeiro sinal claro de que uma modalidade esportiva que tem 80% de coadjuvantes não funciona. Não se trata de imaginar, ingenuamente, que a FIA deveria fazer um regulamento mais democrático para permitir que os 22 (ou 20) pilotos tivessem chances iguais ou parecidas de vencer corridas. Na história da F-1 isso nunca aconteceu. Títulos e vitórias sempre foram privilégio de poucos. Mesmo assim, esses poucos eram mais do que os pouquíssimos dos últimos anos. De 97 para cá, dois únicos pilotos, nunca mais do que dois, concentraram chances e atenções. O resto ficou chupando o dedo. Uma hora os patrocinadores e parceiros técnicos se enchem desse negócio. E aí não vai haver SOS que resolva. Salvar a Minardi pode não ser tão difícil. Duro vai ser estancar uma debandada de grandes grupos no dia em que eles resolverem gastar seu dinheiro em outras bandas.

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A F-1 não é a Indy – 02/02/2000

Nesta semana, os três principais eventos de esporte a motor do Brasil ganharam espaço na mídia por conta da incompetência crônica deste país em organizar o que quer que seja. As duas corridas do Rio, de Indy e de Motovelocidade, e a de São Paulo, de F-1, frequentaram as páginas dos jornais ao lado de expressões como corre risco, está ameaçada e foi cancelada.

Primeiro, os fatos. O GP de F-1 não corre risco nenhum, em que pese a insanidade de algumas licitações abertas pelo último governo municipal. Pitta queria, por exemplo, iluminar a Reta Oposta. Algo equivalente a enxugar a Lagoa Rodrgio de Freitas, totalmente inútil, ideia desprovida de sentido, uma ofensa ao bom senso.

Quatro licitações desse naipe foram canceladas, e o resultado é que as obras necessárias para deixar o autódromo em condições de fazer a corrida terão de ser feitas a toque de caixa. É sempre assim, mas no fim a corrida sai.

Agora, o Rio. A prova de moto foi para o espaço. A de Indy realmente pode não acontecer, porque os promotores da Rio 200 insistem em depender de dinheiro público para fazer um evento privado. Que se danem. Para piorar, ontem barraram o inspetor de segurança da FIA em Jacarepaguá. Estão querendo mesmo perder a corrida. Azar deles.

Por mais que pareça uma afirmação preconceituosa, a verdade é que a F-1 não corre risco como a Indy simplesmente porque a F-1 não é a Indy. O que acontece no Rio não pode ser comparado à situação de São Paulo. Para fazer uma corrida em qualquer país, tanto a Cart, que gerencia a Indy, quanto a FOM de Bernie Ecclestone, dona da F-1, exigem garantias financeiras. Querem lucrar com o evento, o que parece aceitável.

Ocorre que a F-1, com 30 anos de Brasil, se sustenta sem precisar de dinheiro público, pelo menos no que diz respeito à remuneração dos promotores da categoria – no caso a FOM, Formula One Management. A receita vem da venda de ingressos, das placas de publicidade, da venda de hospitality centers.

A F-1 usa, sim, dinheiro público para adequar o autódromo, com a boa desculpa de que ele pertence à cidade, e não aos organizadores da corrida. Essa é outra discussão. Pessoalmente, acho que a International Promotions, que promove o GP do Brasil, deveria entrar com sua parte. Mas a empresa argumenta que não tem culpa se o autódromo fica abandonado o ano inteiro, e não se pode tirar sua razão.

Se a Prefeitura cuidasse de seu patrimônio, as obras caríssimas que são necessárias todos os anos talvez não precisassem ser realizadas. O problema é que, entra ano, sai ano, tudo tem de ser reconstruído em Interlagos. E a culpa é também de todos os promotores de categorias nacionais, que tratam o autódromo como a casa da mãe Joana, quebram tudo, sujam, arregaçam, não pagam nada e ficam choramingando que o automobilismo nacional não tem apoio. Vejam as Mil Milhas: a prova foi disputada com o mato a mais de um metro de altura ao redor da pista. Custava alguma coisa para os organizadores, pelo menos, aparar o matagal? No fundo, o automobilismo nacional, brincadeira de meia-dúzia de riquinhos, merece a porcaria que é Interlagos. A Prefeitura deveria multar todo mundo, pilotos, equipes, CBA, Fasp, automóveis clube, a cada prova, para que essa gente aprendesse a cuidar do que é coletivo.

O caso do Rio é diferente. Quando a Indy chegou ao Brasil, em 1996, não havia verbas de patrocinadores para pagar o que a Cart exigia. Para garantir o evento, a Prefeitura entrou com dinheiro. Foi feito um contrato e o município acabou se transformando em copromotor da prova.

Se os homens da Indy no Brasil, Emerson Fittipaldi à frente, tivessem um mínimo de discernimento, não teriam se acomodado com a grana fácil do contribuinte e sairiam atrás de financiamento privado para seu evento logo depois da primeira corrida. Mas não fizeram isso, e todo ano é a mesma coisa: falta dinheiro, a Prefeitura paga. Agora, César Maia não quer pagar e os promotores não sabem de onde tirar recursos. Por isso essa corrida não deve acontecer. Em resumo: no Brasil, a F-1 ainda se garante, apesar do Maluf, do Pitta e dos corredores brasileiros. A Indy, não.

Bernie – 27/09/2013

Vamos lá, fiz umas contas depois de ver o calendário que você e seu amigo igualmente baixinho Jean Todt divulgaram esta semana. São 22 GPs em 259 dias, contando a data inicial da primeira corrida, 16 de março, até a última, 30 de novembro. Um GP a cada 11,7 dias. Calculei até quanto todo mundo vai viajar no ano que vem usando um desses sites de mapas e rotas. Usei como ponto de partida, sempre, Silverstone. É lá que fica a Force India, a velha e boa Jordan. E no entorno tem um monte de outras equipes. Para o senhor entender o cálculo, sempre que há pelo menos uma semana entre uma corrida e outra, usei como critério a volta da turba à Inglaterra. O total foi de precisamente 189.617 km. Me deu um trabalho desgraçado. Veja bem: quase 190 mil km! Por terra, ar e mar.

Pois bem, 22 corridas, sendo 9 na Europa, 8 na Ásia/Oceania, 1 na América do Sul e 4 na América do Norte. Portanto, das 22 etapas, teremos 40,9% de provas na Europa, a velha Europa, a delícia da Europa. E 36,3% na Ásia/Oceania (estou usando critérios geopolíticos do War, se é que o senhor me entende).

Quando eu comecei a cobrir F-1, em 1988, o calendário tinha 16 etapas. De 3 de abril a 13 de novembro, 224 dias, uma prova a cada duas semanas, exatamente. Naquele ano, foram 10 corridas na Europa (62,5% do total), 1 na América do Sul, 3 na América do Norte e 2 na Ásia/Oceania. Não precisa fazer a conta, já fiz: 12,5% na Ásia/Oceania, região do planeta também conhecida como cu do mundo ou, numa definição um pouco mais popular e menos polida, na puta que pariu sem número. Ou, ainda, na casa do caralho.

Também calculei as distâncias, sim. Foda, trabalhão da porra: 118.225 km.

Não precisa pegar a calculadora, já fiz todas as contas. Em 2014, caso essas 22 corridas sejam mesmo realizadas, a galera vai viajar 60,3% mais do que se viajou em 1988.

Meio exagerado, né não? Bem, tem três corridas aí com asterisco. Ou asterístico, como alguns falam por aqui: Coreia do Sul, Nova Jersey e México. Pelo que andei assuntando aqui e ali, as duas primeiras estão no calendário só para constar. Ninguém aguenta ir para aquele fim de mundo de Yeongam, e os caras de Nova Jersey não têm dinheiro. No México a coisa parece não ser tão complicada assim. Já tem autódromo, são dois chicaninhos correndo, grana não vai faltar. No fim, vamos ficar com 20 etapas e não se fala mais nisso.

Essa sua história de tomar o rumo do Oriente deu certo mesmo, Bernard? OK, é onde está o dinheiro, mas diga a verdade… É legal ver as arquibancadas de Sepang, Xangai, Yeongam, Sakhir, todas às moscas? Isso porque nem estou falando daquele pardieiro da Índia. Ah, mas Cingapura e Abu Dhabi são um sucesso, você vai dizer. Menos, né? Povinho mais sem graça, que vai ver essas corridas. Não sabem nem quantas rodas tem um automóvel. Fora que a pista de Abu Dhabi é um lixo. Toda lindona, cintilante e limpinha, mas uma porcaria. Vamos combinar que desse monte de circuito novo, o único que prestava era o da Turquia. E lá também ninguém ia ver o GP, acabou por falta de público. Uma lástima.

Bem, não tenho nada com isso, o campeonato é seu, não sou piloto, não sou mecânico, parei de viajar faz bastante tempo atrás de todos os GPs, depois de 18 anos na labuta aérea e hoteleira, por mim tanto faz se as corridas acontecem em Barueri ou em Urano. No fim das contas, vou ver pela TV, mesmo. O que aborrece, mesmo, são os horários. Muita corrida de madrugada, Bernard, é duro segurar o sono. De qualquer forma, não ache que vai receber aplausos por esse calendário inchado e desmesurado. Por mais que compreenda sua incansável caça ao dinheiro, não me conformo de ver um Mundial de F-1 sem a França, sem Portugal, sem a Argentina, até sem Imola — para não falar de países muito legais que já tiveram seus GPs, como Suécia e Holanda.

Tudo bem, pode parecer nostalgia boba, os tempos são outros, é preciso olhar para a frente. Beleza. Eu tenho mania de olhar para trás, fazer o quê? Aproveitando, entreguei ao seu amigo húngaro que cuida da corrida aqui do Brasil um desenhinho interessante para Interlagos. Olhando para a frente, mas um pouquinho para trás, também. Se puder, dê uma espiada com carinho. As coisas andam meio derrubadas aqui no Brasil quando se fala em automobilismo e em F-1. Não sei nem se teremos piloto no ano que vem. Pode ser que a única coisa atraente de Interlagos em 2014 seja justamente Interlagos.

Abraços, e beijos para a Fabi.

HERÓIS DE CERA – 20/04/2012

Vai ter corrida, ninguém vai explodir nada, terroristas não vão invadir o autódromo montando dromedários, beduínos não vão brandir suas adagas, nem arrancar a cabeça de Alonso.

Está tudo normal no Bahrein.

E querem saber? Tirando as manifestações, está tudo normal, mesmo. Normal, para um país como o Bahrein, é mesmo uma população oprimida, sendo comandada por uma monarquia boiando em petróleo, xeques que há mais de 200 anos controlam o poder, se alinham aos EUA (a maior frota naval americana no Golfo fica na ilha) e se locupletam com os vizinhos da Arábia Saudita, de quem dependem visceralmente.

Portanto, quando estivemos lá pela primeira vez, em 2004, já era essa merda. Só não tinha ninguém na rua gritando. Nas prisões, provavelmente surravam oposicionistas do mesmo jeito. “Não passa de um puteiro”, escrevi, na época, meia hora depois de desembarcar em Manama. Como se vê, a primeira impressão não foi das melhores.
(…)

Mas a partir dos acontecimentos da Primavera Árabe, passou a ter. Entrou na pauta, e a dura repressão à maioria xiita virou notícia. Menos do que na Líbia, no Egito e na Síria, até porque para os EUA é interessante que os califas que estão lá há dois séculos fiquem onde estão. Portanto, era uma chance, sim, de a F-1 marcar posição, passar uma mensagem, sair dessa redoma ridícula que se baseia na preguiçosa afirmação de que esporte e política não se misturam. Deveriam. Ações que partem de gente famosa têm maior repercussão, ecoam, resultam em alguma coisa.

Ocorre que a F-1 é comandada por um sujeito sem grandes escrúpulos e nenhuma preocupação além do dinheiro. E a turba que o segue se comporta como gado. Assim, a realização da prova, que cheguei a achar que não aconteceria, depois de ter certeza que aconteceria, e depois de não saber de mais nada, não é surpresa nenhuma. Nem mesmo o vazio completo das declarações de todos os envolvidos. Ninguém tem coragem de assumir falar nada que preste, de fazer uma crítica, de demonstrar solidariedade, de mostrar que vê algo no mundo além da temperatura dos pneus.

Os atletas, em geral, são seres alienados da realidade. A maioria professa um conservadorismo abjeto, se importam apenas com seus umbigos milionários e querem que o resto se dane.

A F-1 não tem um Sócrates. A F-1 tem heróis de cera, que jamais morrerão de overdose.

A F-1, ESTA CEGA – 03/06/2011

Consta que o GP do Bahrein custa US$ 40 milhões à família real que há séculos toma conta da ilhota no Golfo Pérsico. Por isso, quando a corrida foi cancelada no começo do ano, Bernie Ecclestone deve ter arrepiado seus cabelos brancos.

E ontem a FIA confirmou a volta da corrida ao calendário. Vai ser no dia 30 de outubro, no lugar da Índia, cuja prova inaugural será transferida para 11 de dezembro, provavelmente.

Para quem não sabe, na onda de protestos por democracia e liberdade que tomou conta de vários países árabes desde o início do ano (Egito, Tunísia, Líbia, Síria, Jordânia…), o Bahrein foi tomado por manifestações populares contra o governo da minoria sunita que oprime a maioria xiita. Aquelas coisas das arábias que se reproduzem na parte continental — ditaduras monárquicas apoiadas pelo Ocidente, que morre de medo que o petróleo caia nas mãos de gente diferenciada.

Desde março, as forças de segurança do governo barenita, com a ajuda de soldados da Arábia Saudita, a vizinha que faz do Bahrein seu bordel particular, mataram 20 pessoas, feriram mais de 200 e prenderam centenas de opositores. Os direitos humanos são desrespeitados olimpicamente e nada indica que a situação está sob controle, muito menos que os monarcas estejam dispostos a abrir diálogo com a oposição — embora o discurso oficial seja o da “reconciliação política”.

Mas vai ter corrida, porque a F-1, esta cegueta que corria na África do Sul alegremente nos tempos do apartheid, não está nem aí.

Ou está. Mas na figura de uma ou outra pessoa, apenas. Gente como Ross Brawn, que nem questiona o lado político, mas reclama que é corrida demais, calendário extenso, vai até dezembro, cansativo, um massacre.

Massacre é o que se faz com o povo barenita. É um absurdo a F-1 correr lá, aceitar a imposição da FIA. Será que alguma equipe terá coragem de boicotar a prova? De vir a público para dizer: nesse país aí, que assassina seus opositores, a gente não corre, não? Será que algum piloto será capaz de assumir uma posição política clara e decente?

Duvido. A única luz no fim do túnel foi um comunicado da Red Bull divulgado hoje, dizendo que pretende discutir a questão no fórum apropriado, que vem a ser a FOTA, a associação das equipes da categoria. Mas será que essa discussão será política ou logística?

Há uma petição pública circulando na internet pedindo que a Red Bull, por ser uma equipe moderna, arejada e, hoje, a maior de todas, não vá ao Bahrein. Seria o fio detonador que puxaria para seu lado as demais equipes.

De novo, duvido. Mas seria lindo, um sopro de humanidade e postura, atitude, para usar termo em voga, se alguém se erguesse contra esse cinismo da FIA, que se vende por qualquer punhado de cobres.

NIPPON – 18/03/2011

Fui ao Japão pela primeira vez em 1994, para o GP do Pacífico em Aida. Ficava no fim do mundo. Onde Buda perdeu as botas, eu brincava, repetindo a piada 200 vezes com os colegas no longo trajeto que começou em São Paulo, passou por Los Angeles, depois Nagoia, depois um trem-bala até não sei onde, depois um trenzinho a diesel pinga-pinga até a cidade mais próxima do autódromo, já não lembro o nome, mas lembro o nome do hotel, Alpha One.

Era um dos únicos do vilarejo, reservado pelo pessoal da F1 para abrigar a turba de jornalistas do mundo inteiro que se dirigiu para aquele ponto perdido no mapa para satisfazer o gosto pessoal do milionário dono do autódromo, que pagou uma bala preta a Bernie Ecclestone para fazer o GP do Pacífico. Foi engraçado quando chegamos e pegamos o programa oficial da corrida. O recorde da pista era do dono, que tinha uma Tyrrell 1991 e deu umas voltas nela para sentir o gostinho.

Quando cheguei à recepção do hotel, depois de alguns metros a pé desde a estação de trem arrastando minha velha Samsonite, notei a confusão tremenda. Ninguém falava inglês, os recepcionistas estavam enlouquecidos com aquela gente estranha e cansada falando línguas incompreensíveis, uma zona estarrecedora, me parecia que a qualquer momento um de meus amigos ingleses, ou alemães, ou italianos, deflagaria a terceira guerra mundial. Ninguém se entendia, era o caos absoluto.

Atirei-me numa poltrona, esperei a poeira baixar, os europeus serem atendidos, e quando não havia mais ninguém no balcão, exceto os extenuados atendentes, fui até eles decidido a facilitar a vida de todos ao máximo. Mostrei apenas o fax com minha reserva, sem dizer nada para não complicar, o que seria o suficiente para que me dessem um quarto sem maiores discussões, que tudo que eles não precisavam, àquela altura, era de mais um estrangeiro querendo discutir o tamanho da cama.

E o rapazinho da recepção pegou o fax, entrou no escritório, saiu, telefonou, chamou os colegas, e 15 minutos depois, fazendo um esforço digno de um samurai à beira da morte, conseguiu me dizer, em inglês, num tom de lamúria, sinceramente preocupado comigo: Mr. Gomes ainda não chegou.

Cansado, quase desolado, mas firmemente disposto a não criar nenhum conflito internacional, consegui sorrir, peguei o fax de suas mãos delicadamente, apontei para o meu nome impresso, depois para meu peito e disse, com toda simpatia que ainda me restava: Mr. Gomes is me.

Foram outros 15 minutos de desculpas, um arrependimento profundo por não ter compreendido que eu era eu, e que não estava procurando ninguém, e ao atendente se juntaram os demais para se desculparem também, todos de paletós verdes e calças pretas, e eu, exasperado, dizia que não precisavam se desculpar, calma, está tudo OK, era só me dar a chave que eu ficaria bem.

Naquela noite, tomei um porre de saquê quente num restaurante escuro e minúsculo, e passei a amar definitivamente o Japão.

Força, Japão.

NA CONTRAMÃO – 18/02/2011

Quando o mundo finalmente resolveu retaliar a África do Sul e segregou o país de competições esportivas importantes, a F1 correu alegremente no país, nas décadas de 60, 70 e 80. Só em 1985 a categoria se dobrou às pressões internacionais e deixou de realizar seu GP, que ignorava olimpicamente o apartheid.

Quando a Argentina era governada por militares tresloucados, nos anos 70, nada impedia que os carrinhos coloridos desfilassem pomposamente pelo autódromo de Buenos Aires.

Quando o Brasil tinha no comando generais sanguinários, era como se nada estivesse acontecendo nos porões do país, e Interlagos servia de palco de exibição para uma ditadura patética e assassina.

Quando a China massacrava opositores no Tibete, um autódromo faraônico foi erguido em Xangai e lá foi a F1 lamber as alpercatas dos comunistas mais capitalistas da história da humanidade.

Por isso, não é surpresa alguma o ar de “não estamos nem aí” diante do que acontece no Bahrein, que, na onda de levantes no mundo árabe detonada pelo povo da Tunísia, vê a população nas ruas exigindo o fim da monarquia absolutista que oprime a maioria xiita e faz da pequena ilha no golfo um parque de diversões sórdidas e mulambentas.

Mas se houver o cancelamento da corrida, não será por uma tomada de posição política da F1, mas sim pelo temor em relação à segurança de seus intocáveis atores e diretores, que não dão a mínima para o mundo real que os cerca.

Não se ouvirá, da boca de nenhum piloto, manifestação alguma contra o governo barenita, muito menos uma negativa individual de correr num país que ordena a repressão violenta aos seus cidadãos nas ruas e nas praças. As equipes, se Bernie Ecclestone mandar, correm até com frases de apoio ao xeique de plantão pintadas em seus carros.

Piloto de F1 não pensa, não se posiciona, não reage a nada que não diga respeito ao seu ofício, guiar carros, o que é uma pena. É a perda de uma oportunidade de ouro de mostrar que seus neurônios servem para algo que vá além de acelerar, frear, apertar botões e falar frivolidades.

Sempre foi assim, como se vê pelos exemplos que abrem este texto. Não me lembro, sinceramente, de casos de pilotos que tenham boicotado os GPs sul-africanos por razões políticas. O colega Rodrigo Mattar menciona a ausência da Ligier e da Renault do GP de 1985, atendendo a um pedido do presidente socialista francês, François Mitterrand, mas acho que é só.

Mattar, por sinal, defende a neutralidade da F1, opinião das mais respeitáveis. Mas diametralmente oposta à minha. Não acho que deva haver neutralidade em determinadas questões. Não se trata de uma discussão partidária ou ideológica. Trata-se de saber distinguir o bem do mal. E de ficar do lado certo.

Mas seria pedir muito para a F1, que está longe de ser do bem.