Caro Seichelles – 07/06/2013

Vão achar que esta carta é coisa de boiola, mas como você é meu melhor amigo, não se incomode. Inclusive porque você é mesmo meio boiola.

Pois é, a “Folha” te mandou embora. Welcome to the club. Se bem que seu caso foi bem diferente. São outros tempos. Quando saí, em 1994, jornal ainda era importante. Hoje não é mais. São vários os motivos, mas não é sobre isso que te escrevo. Saí por desobedecer uma ordem. As delícias de ser um transgressor aos 29 anos e dar uma banana para o futuro. Do futuro cuido eu, e cuidei. Você foi vítima daquilo que chamamos de “passaralho”, termo que usamos no jornalismo e que vem sendo aplicado com notável eficiência pelas empresas de comunicação desde os tempos de Gutenberg.

“Passaralho”, o pássaro com cara de caralho, nunca entendi direito essa palavra esquisita, de onde veio, como surgiu. Ele passa voando com sua cara de pênis ereto e esvazia as redações. É bem a cara do jornalismo atual. Ferro na boneca. Você contou no seu blog que cobriu a primeira corrida de F-1 em Nürburgring, 1998. Lembro bem dessa estreia, você chegando naquele fim de mundo sem hotel, e acabou dividindo quarto com o Livio numa pensão barata sem banheiro no quarto. Aliás, melhor nem entrar em detalhes sobre o que, rezam algumas lendas, aconteceu naquele quarto.

Até 2005, quando eu parei de viajar para as corridas, fizemos mais de 100 GPs juntos. E como durante quatro anos fomos também parceiros na rádio Bandeirantes, creio que temos bastante história para contar. Boa parte delas impublicáveis. Inclusive o que fizemos em Imola. Não, não estou falando da entrevista com a Viviane Senna. Você devia se envergonhar daquilo, inclusive.

Foram anos viajando pelo mundo rachando quartos, carros, contas, equipamento, matérias, fui seu padrinho de casamento, enchemos a cara mais vezes do que recomenda a boa educação, andamos de avião, ônibus, metrô, barco, nos metemos em algumas encrencas, gastamos dinheiro com o que não precisávamos, viramos madrugadas escrevendo furiosamente, destruímos tomadas de telefone, fizemos milhares de boletins de telefones públicos em todos os cantos do mundo, fechamos bares e restaurantes, perdemos voos, brigamos com pilotos, ganhamos amigos do peito, todos os italianos, alguns ingleses, outros alemães, portugas, japas, uns franceses, todos os caras da FIA que ainda hoje abrem um largo sorriso quando nos veem em Interlagos, nos divertimos, vivemos a vida, enfim.

Por viver a vida, entenda-se: sair pelo interior da França atrás de peças de Gordini, rodar o bairro gótico de Barcelona para comprar tampa de privada, pagar propina para policiais atrás do Parlamento de Budapeste, se aventurar pelo submundo de Bangcoc, entrar num ônibus erótico em Nürburgring, jogar dardos em Spielberg, descobrir Berlim de bicicleta, bater o carro num barranco em Nevers, mergulhar de cueca num lago gelado na Casa de Pedra francesa, atravessar um canteiro central de carro em Montreal, cair de cabeça na frenética noite de Kuala Lumpur, montar um time de futebol em Suzuka, quase pegar o trem-bala para o lado errado em Nagoia, brigar no trânsito com um redneck em Indianápolis gritando “Bin Laden” duas semanas depois do 11 de setembro, entrar naquela merda de estilingue gigante em Auckland, atolar um Mini no estacionamento de Monza, roubar uma antena para o mesmo Mini em Milão, escolher tinta para o cabelo em Zurique, comer um ensopado de sei lá o quê em Xangai, achar a médica do Senna em Bolonha, encontrar um apartamento alugado em Manama — sem mapa e endereço —, devorar um pote de Nutella numa madrugada de Spa, pegar o último trem de Mônaco para Menton (sorte que eram apenas dodici minuti), acordar em Paris com grãos de café no colchão, mandinga que me irritou profundamente, fazer guerra de neve em Madonna di Campiglio, cobrir atentado terrorista em Londres.

Essa foi uma das últimas coberturas, a de Londres, daquelas em que a gente percebe que o parceiro é feito do mesmo material. Estávamos indo para Silverstone, eu vindo da França, não lembro bem por que em voos diferentes, cheguei um pouco antes e já no corredor de desembarque em Heathrow vi num aparelho de TV que tinha acontecido alguma merda na cidade, acho que te mandei uma mensagem de celular, marquei de encontrar direto na locadora porque os planos iriam mudar.

E quando você apareceu na locadora os planos já tinham mudado, não precisamos nem discutir o assunto, foda-se Silverstone, estão explodindo a merda toda, foda-se a F-1, é para lá que vamos, e fodam-se os jornais, os sites e a rádio. Fomos para Londres, onde você morava na época, inclusive, e ali nosso ofício falou mais alto, lugar de jornalista é onde a notícia está, e a notícia aquele dia era que estavam explodindo a porra toda, e lá fomos nós para o centro do furacão.

Os anos passaram, você também parou de viajar com a F-1, a última cobertura internacional foi em Pequim, na Olimpíada, outro turning point, não sei como é que vocês falam isso em português, e você hoje está no Rio, eu estou por aqui, e o jornal te mandou embora e agora é sua vez de começar de novo.
Nunca é tarde, garotão, portanto comece logo e não tenha medo. Já que te deram um outro futuro, faça bom uso dele.

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Betão – 24/05/2013

Como anda a vida de príncipe? Verdade que seu título oficial é Sua Alteza Sereníssima o Soberano Príncipe de Mônaco? Li na Wikipedia. Que viadagem, hein, bonitão? E como anda o casamento? Demorou, mas casou, né? E então? Nada de filhos? Com ela não, né, malandrão? Pois é, vi que você já deixou seu

Mas não é da sua vida pessoal que quero falar, não. Cada um cuida da sua. Estou lembrando aqui de seu pai, Rainier. Quando fui a Mônaco pela primeira vez, fiz questão de fazer aquilo que todo mundo que gosta de corrida faz: dar uma volta a pé pela pista. Acho legal deixar tudo aberto para o povo se divertir. Também, não podia ser de outro jeito. O trânsito fica uma maluquice, mas ninguém reclama. É só playba desfilando de carrão. Uma vez, consegui entrar na garagem de um daqueles hotéis lá no alto, acho que o Hôtel de Paris. Contei 17 Ferraris estacionadas. Não é pra mim, pensei.

Sabe de uma coisa engraçada? Nesses anos todos nunca me hospedei na sua terrinha. Caro demais. Lamento. Ficava em Nice, ou em Menton, ou ainda em Villefranche-sur-Mer. Uma vez arrumei um quartinho em Cap-d’Ail, também. Tinha alugado um Peugeot conversível. Bom demais. É tudo pertinho, e sabendo os caminhos não é perrengue nenhum chegar de carro. Se bem que nas últimas vezes nem carro precisei alugar. Doze minutos de trem de Menton, estação quase dentro do circuito, mais rápido e confortável. E muito melhor do que parar o carro naquela garagem debaixo do morro onde ficam os caminhões, longe pacas, principalmente na volta, em subida. E ainda economizava uma grana.

Mas eu dizia que na primeira vez que fui a Mônaco fui dar uma volta a pé. Na verdade, há uma imprecisão aqui. Na primeira vez que estive por aí, não era semana de corrida. Era julho, eu estava de férias com minha namorada. E fui ver a Piscina, e foi a primeira vez que vi umas meninas fazendo topless. A gente, que é meio caipira, fica fingindo normalidade diante das peladonas, mas no fundo não consegue disfarçar uma olhada nos peitinhos ao sol. Vocês são bem sem-vergonhas. Então, a história que quero lembrar a você, sobre seu pai, é da segunda vez em Mônaco, mas a primeira para cobrir uma corrida.

Lá ia eu percorrendo a reta dos boxes quando passei em frente ao prédio onde vocês montam aquele camarote para assistir à corrida. Eu tinha chegado vários dias antes do GP e já estava tudo pronto. Sempre tive curiosidade sobre aquele prédio e seus moradores. Nem é um negócio muito luxuoso. Um bom edifício, com um agradável recuo no jardim da entrada. O único lugar onde dava para colocar aquele negócio, no fim das contas. Então parei e toquei o interfone. Tinha lá um sujeito na portaria que veio falar comigo e contou uns casos interessantes. Falou, por exemplo, que seu pai nunca ficava lá depois que começava a corrida. Saía de fininho, pegava o elevador e subia no apartamento de um amigo onde via tudo da janela comendo amendoim e tomando umas cervejas compradas naquele pequeno mercadinho Casino que fica no fim da reta, perto da Sainte-Dévote. Eu mesmo deixava uns francos lá, de vez em quando. Pasta de dente, sabonete, essas coisas.

Ninguém percebia que seu pai picava a mula, porque ficava todo mundo olhando para a pista. Aí, quando faltavam umas cinco voltas, ele voltava, se empertigava e esperava o final, para entregar os troféus. Confesso que ali simpatizei com seu pai. E simpatizei mais ainda quando, no ano passado, vi a coleção de carros dele que você leiloou. Tinha um Fusca. Um príncipe que tem um Fusca merece todo meu respeito.

Mas ver o GP daquele aquário não devia ser tão ruim assim, ainda mais quando os boxes ficavam de frente para vocês. Agora deve ser meio chato. Mudaram os boxes, estão do outro lado, e a visão da reta é dos fundos do pit lane. Não tem mecânico, pit stop, nada. OK, precisava dar uma melhorada, não tinha espaço para nada, mas tenho certeza que vocês preferiam como era antigamente. Mas agora não tem volta.

E lembrei de outra história, também lá da reta dos boxes, onde os caras montavam as cabines de rádio.
Eram uns contêiners empilhados com bancadas de frente para o crime. Os carros passavam a centímetros da gente. Um grande barato. Cada um que passava balançava tudo. Um barulho infernal, um calor infernal, tudo infernal, mas delicioso. Eu fazia uns bicos para a rádio Excelsior, na época. Os narradores e comentaristas eram separados por pequenas divisórias nas bancadas e vazava o som de todo mundo. Uma gritaria dos diabos, em todas as línguas, muito engraçado.

Aí teve aquela corrida de 1992, o Mansell voando até ter de trocar um pneu, e voltou dos boxes atrás do Senna. Eu estava com o Luiz Roberto, narrador que hoje está na Globo, que era dona da Tele Montecarlo, lembra?, e do lado da gente o Edgard Mello Filho, da rádio Bandeirantes. Ele era comentarista e viajava sozinho, porque o narrador, Éder Luiz, transmitia de São Paulo pela TV.

Quando o Senna passou, o Edgard ficou enlouquecido. Tirou os sapatos e começou a espancar a bancada berrando feito um doido. Até a última volta. Aí ele gritou: “Se não passar na saída do Túnel, não passa mais!”. E o Mansell, claro, não passou. Ali, naquele dia, nem Jesus Cristo passaria o Senna. Então o Edgard pirou de vez. “Não passa mais! Não passa mais! Não passa mais!”, urrava. Ele dava cada porrada com os sapatos na bancada que os contêiners começaram a balançar ainda mais e eu pensei: vai cair essa porra toda e vai ser o pior acidente da história do automobilismo, cabines de rádio no meio da pista e carros de F-1 explodindo. Os caras das emissoras de outros países até pararam de narrar para assistir àquele espetáculo radiofônico.

No fim o Senna ganhou, o Edgard acalmou e as cabines não desabaram sobre a pista.

Legal, Mônaco.

Um abraço e cuida de tudo por aí. Se for assistir à corrida domingo no apartamento do amigo do seu pai, não esqueça de levar as cervejas e compre um pouco de pistache também. Seja um bom convidado.

Sir Chapman – 17/05/2013

Ou devo chamá-lo só de Colin? Nem sei se você ganhou o título de “sir”. Mas vá lá. “Sir” é uma forma respeitosa de se dirigir aos ingleses. Quando a polícia prende um bandido na Inglaterra, por pior que ele seja, chama-o de “sir”. “Tem todo o direito de ficar calado depois de esquartejar sua esposa, sir.” Lá todo mundo é “sir”. “Thanks, sir.” É chique, a Inglaterra.

Mas você não vive na Inglaterra faz tempo e consta que anda pelos nossos lados. Não sei se é verdade, nunca vi. De qualquer maneira, tenho certeza que já sabe que em 2010 meteram uma equipe com o nome da sua na Fórmula 1 de novo. E depois teve um ano em que, na falta de uma, duas correram como Lotus!

Agora tem uma só, a primeira mudou de nome, é meio confuso. E essa nova lembra um pouco a sua. Fizeram um carro preto com uns detalhes dourados. Você se lembra bem. Por mais que lá nos anos 60 o British Green fosse uma coisa linda, foi com o preto e dourado que o mundo conheceu a Lotus, já com as corridas transmitidas pela TV e tal. Fotos suas jogando a boina para o alto com o preto-dourado recebendo a bandeirada correram o planeta. Nasceu uma lenda.

Pois é, essa Lotus, que usa também o logotipo que você criou, aquelas letras ABC que nunca sei direito o que querem dizer, é um espanto. Voltou a ganhar corrida no ano passado, ganhou de novo neste ano, tem subido ao pódio com frequência, faz um trabalho de marketing excepcional, divertido, moderno, usa as redes sociais com maestria, enfim, honra o nome.

(Não sei se você usa redes sociais, nem se tem acesso a elas aí onde está vivendo, mas deve saber do que se trata, também. Então, nem vou explicar o que é.)

Neste ano, o campeonato está muito esquisito. Fizeram uns pneus que se desmancham no ar e os caras têm de parar no box a cada seis ou sete voltas. Uma coisa de maluco. Domingo passado o Alonso, um espanhol, venceu em Barcelona com quatro pit stops. Ele corre pela Ferrari, que é a mesma da sua época, continua vermelha e tal. A pista de Barcelona é outra, acho que você não conheceu. Mas eu falava do lance das pradas, e você sabia que hoje se troca pneu muito rápido, em menos de três segundos? É um negócio muito doido. Bloody fucking crazy. Mas isso está transformando os GPs numa confusão danada.

Só que tem uma única equipe que não gasta tanto os pneus. A sua. Ou ex-sua. A Lotus, enfim. Fizeram um carro acertadinho, equilibrado, contrataram um piloto muito bom e o resultado é que ele consegue fazer as corridas com uma parada a menos. Mas as outras começaram a chiar e os caras que fabricam os pneus resolveram mudar tudo. Acho ótimo, porque passaram do ponto. Mas o cara que hoje toca sua equipe, ou sua ex-equipe, a Lotus, enfim, não gostou.

É compreensível. O pneu é o mesmo para todo mundo. Se tem um que consegue gastar menos que o outro, palmas para ele. Azar de quem gasta mais. Mas andam dizendo que houve pressão de algumas equipes e que no fim das contas quem vai se dar mal nessas é a Lotus. Mudar a regra no meio do jogo é sacanagem, argumenta o chefe.

Concordo com ele, mas o negócio agora é sacudir a borracha e dar a volta por cima. Se os caras, com os novos pneus, vão parar três vezes, quem sabe a Lotus não consegue parar duas? Acredito que um carro que gasta menos pneu com borracha X deve gastar menos também se a borracha for Y. Não é assim?

Não, não é assim, eu sei. Claro que tem muito mais nesse céu aí do que apenas aviões de carreira. A relação carro-borracha tem a ver com a construção dos pneus, com forças laterais, com temperatura, com força da gravidade, com velocidade dos ventos, com derretimento da calota polar, buraco na camada de ozônio, com um monte de coisa. Não é uma mera questão mais duro/mais mole. A vantagem que sua Lotus teve nas cinco primeiras corridas do ano provavelmente não terá mais a partir do GP do Canadá.

Paciência, Colin. Ou Xap-Xap, que é seu apelido aí onde você vive — me contaram que é assim que te chamam por aí, e disseram inclusive que tem um boteco lá na vila que batizou uma mistureba de cachaça com Contini e canela de Xap-Xap, em sua homenagem. Você sempre inventou moda, foi um gênio incompreendido e combatido, criou muita coisa que ficou na história da F-1. Não seria diferente agora com sua Lotus, mesmo você tendo se distanciado um pouco das atividades da firma, até onde a gente sabe.
Ou será que esse negócio de gastar pouco pneu tem seu dedo, também?

Tem?

Bom, então conta aí, só pra mim: qual vai ser a próxima? Andar sem asa?

Amigos Jorge e Juan – 05/04/2013

Amigos Jorge e Juan,

A maioria dos meus leitores não conhece vocês de nome, e eles estarão lendo esta carta que, claro, deveria ser particular, pessoal, não se viola a correspondência de ninguém, mas são novos tempos, amigos. E se não for assim, compartilhado com todo mundo, é como se não existisse. Qualquer coisa, hoje em dia. Um texto, uma foto, um vídeo. Compartilhe, ou não exista.

Mas não se incomodem, não cometerei indiscrições. Meus leitores podem ler. E espero que vocês também leiam.

Jorge Araújo e Juan Esteves, leitores, é deles que estou falando. Fotógrafos. Ou repórteres fotográficos, como lá no jornal tentavam (a chefia, não os fotógrafos) fazer com que os chamássemos.

Para mim, eram fotógrafos e estava de bom tamanho. Precisa mais? Afinal, era tão óbvio que eram repórteres também, que eu dispensava o título pomposo e comprido. Eu e todos. O editor mandava “pegar um fotógrafo” e sair para fazer matéria. Jamais me mandaram “pegar um repórter fotográfico”. Hoje, noto que “câmeras”, na TV, também são “repórteres cinematográficos”. Bobagens. Eu não era “repórter de texto”. Era apenas “repórter”. E meus amigos das lentes, “fotógrafos”. E não se fala mais nisso.
Juan e Jorge estavam na equipe que foi para Jacarepaguá naquele verão de 1988. GP do Brasil, 25 anos atrás, minha estreia em coberturas de Fórmula 1.

Escrevi sobre isso no meu blog, meninos. Acho até que mencionei vocês. Claro que mencionei. Contei, tintim por tintim, como vocês trabalhavam e mandavam fotos para a Redação, com R maiúsculo como pedia, e ainda pede, nosso Manual. De Redação.

Vocês não fazem ideia de como as pessoas se espantam com as coisas que eu contei. Fazer dez minutos de treino, uns dois ou três filmes, sair correndo para o Motel Monza na garupa de uma moto, se enfiar naquele cubículo que o dono, amigo de vocês, transformou em laboratório, revelar os filmes, ampliar, pendurar para secar, ligar a maleta de telefoto na linha, escolher as melhores, puxar a extensão do telefone, arrancar o bocal, conectar as garrinhas, discar, esperar alguém lá no quarto andar atender, dar o sinal, começar a girar o cilindro, rezar para não cair a linha, 20 minutos por foto, e no fim dava tudo certo.

Imagino que as coisas sejam mais fáceis para vocês hoje. Para nós, que escrevemos, também são. Naquela corrida a gente se virava nas máquinas de telex, lembram? Telex. Barbaridade. Uma briga para pegar as máquinas antes dos caras do “Estadão”… A turma do “JB” e do “Globo” tinha mais estrutura, as redações eram lá mesmo no Rio, mas a gente tinha de disputar aquelas benditas máquinas a tapa, os repórteres da Sucursal do Rio corriam para o jornal lá no Centro, textos enviados de todos os lados, fotos, telefonemas, não tínhamos celular, não existia celular, e no fim dava tudo certo.

Sempre dá. Uma das verdades universais é essa, vocês conhecem bem: no dia seguinte sempre sai o jornal. Só não sei até quando.

Jorge, acho que você ainda está na “Folha”. Não faz o dia a dia, nem deve, já está em outra. Não precisa mais amassar tanto barro. Não precisa atravessar a pista correndo, como fez naquele ano, e no ano seguinte não te deram credencial por causa disso. Juan, soube que você está na faculdade, tirando o diploma para poder dar aula. Sorte de seus futuros alunos. Vocês dois têm muito a contar e a ensinar.

Mas voltando a 1988, lembram do pardieiro em que ficamos, na Barra? Um daqueles prédios com 200 apartamentos por andar e 40 andares, num condomínio de 50 edifícios. Eu pegava as lentes, a 300 e a 600 (eram essas?), para ficar espiando os outros apartamentos. A gente chegava arrebentado do autódromo, vocês tomando cerveja e vendo TV, os outros repórteres que tinham lá suas paradas no Rio se mandavam para a noite, e cada vez que eu achava alguma menina trocando de roupa numa das janelas, chamava e vocês vinham correndo. Às vezes apareciam uns caras pelados e eu chamava do mesmo jeito, e vocês me xingavam e continuavam vendo TV.

Não esqueço também da cama que vocês prepararam para mim naquele apê alugado pelo jornal para o fim de semana. Um berço. “Berço do Flavinho”, indicava um cartaz. Quando eu cheguei, vocês me colocaram no berço e tiraram uma foto. Hoje, teria ido parar no Instagram e seria um sucesso. Ainda tenho a foto. É essa aí, digitalizada dez anos atrás. Está pequenininha, mas dá para ver. Vou procurar em casa o original, e se encontrar prometo… colocar no Facebook, OK?

Eu guardo tudo. Não sei onde, mas guardo.

Como vocês, creio. Guardamos tudo, especialmente as lembranças. Era minha primeira cobertura de F-1. Vocês já eram veteranos, já tínhamos saído para algumas pautas menos emocionantes, quando eu era repórter de Educação e Ciência. Eu, um menino, aprendendo com cada palavra, cada gesto, cada clique, cada foco, cada lente, cada sugestão. Pô, afinal era o Jorge, que tinha feito a maior foto das Diretas na Sé. Afinal era o Juan, que viria a fazer a maior foto do Lula na campanha presidencial.

Foram-se 25 anos, meninos. Seguimos na estrada.

Abraços.

FANTASMAS DA ÓPERA – 14/09/2012

O sibilar dos dois quando passam pelas retas é assustador. Há quem diga que é apenas o som do deslocamento do ar sendo rasgado por uma lâmina afiada por algum demônio. Não há motores ou pilotos. São dois carros com vida própria, guiados por fantasmas. Perto deles, os outros, com seus roncos de motores a explosão, parecem seres primitivos e medievais.

Prefiro o ronco dos motores, sempre preferi. A ideia de um automobilismo silencioso me apavora mais do que o zumbido das flechas de prata alemãs. Mas mesmo num automobilismo barulhento cabem esses seres sibilantes. Desde que sejam poucos. Únicos. Era assim também com os Peugeot 908 que estiveram aqui mesmo, em Interlagos, em 2007. Enquanto todos se esgoelavam para chegar na freada do S do Senna estourando o escapamento, eles deslizavam como se pertencessem a outro planeta.

Agora são os Audi. Carros que vi em Le Mans, há alguns meses, e que agora estão na cidade para as 6 Horas de São Paulo, quinta etapa do Mundial de Endurance. Não sei se essa corrida vai ser realizada de novo aqui no futuro. Espero que sim. Os campeonatos de endurance começam e acabam sem grandes avisos, a gente nunca sabe. Quando a turma da Le Mans Series esteve por estas bandas para as Mil Milhas, cinco anos atrás, eu também esperava que viessem todos os anos. Nunca mais voltaram. Digo, até agora. A turma desse Mundial, o WEC, é a mesma de Le Mans. Estão aqui as grandes equipes, os grandes protótipos. Especialmente os monstrengos das quatro argolas que assobiam e os alienígenas japoneses da Toyota — que trouxeram o Godzilla das pistas, rústico, ruidoso, ameaçador.

É assim que vejo esses carros, como seres autônomos, violentos e agressivos. Essa é uma das marcas das corridas de longa duração e dos campeonatos de protótipos: carros são mais importantes que pilotos. Há 77 seres humanos que pilotam por aqui, e 11 deles já correram de F-1. Mas não me importo com seus nomes. Para mim, são os carros que correm, não os pilotos. Estes são apenas inconveniências necessárias, é preciso alguém para levantar o troféu, algo que os carros não podem fazer.

Os dois Audi estão no box 20. É o mesmo que temos usado, nossa equipe, nas corridas de clássicos em Interlagos. Os ectoplasmas apavorantes estão estacionados onde paro meu inocente Lada, soviético, comunista convicto, valente e um pouco menos veloz. Receio que nossa garagem fique mal-assombrada. Que nas noites de sexta-feira, quando nossos carros repousam à espera da corrida do dia seguinte, sejam ouvidas correntes se arrastando e silvos agudos pelas frestas das paredes.

Eu que não fico mais de noite no box 20.

O HERÓI DE ZANDVOORT – 31/08/2012

Não se trata de uma efeméride, nem de homenagem póstuma. Com o perdão da pretensão, talvez o personagem destas tortuosas linhas seja apenas o ponto de partida para uma reflexão meio fora de época e descompassada. Afinal, faz muito tempo que não morre ninguém na F-1. Senna foi o último, em 1994 — e é bom que se diga, sempre, que muitos pilotos, de todas categorias, devem àquele fim de semana de Imola sua longevidade nas pistas e na vida.

Mas é de David Purley que quero falar. Acabei de assistir ao documentário “The Killer Years”, feito para a BBC em 2010, que está no ar pela ESPN Brasil. Ele pode ser visto no YouTube, também. A impressionante sequência de tragédias que acompanhou o período de maior desenvolvimento da F-1, nos anos 60 e 70, é o tema central. As imagens finais são de Purley tentando salvar seu colega Roger Williamson, cujo carro capotou e pegou fogo em Zandvoort, no início do GP da Holanda de 1973. Falhas na comunicação entre os fiscais e demora para a chegada do socorro mataram Williamson. Purley estacionou ao lado do amigo, tentou desvirar seu carro, pegou um extintor de incêndio das mãos de um comissário, sinalizou para os outros pilotos que continuavam correndo e, ao fim, capitulou. A corrida foi até o fim. Consta que a direção não interrompeu a prova por achar que Purley é que tinha batido, e já estava fora do carro. Se o tivesse feito, um caminhão de bombeiros a 150 metros dali chegaria rápido ao local do acidente, pela contramão. Mas até que o engano fosse percebido, se passaram seis minutos até que outro percorresse a pista inteira, lentamente, para tentar apagar o fogo.

Essas imagens são, talvez, as mais tristes da história da F-1, pela dramaticidade, pelo desconsolo e pela impotência de Purley ao perceber que nada mais havia a ser feito. E chego, finalmente, à reflexão: será que a F-1 é um esporte triste por conta de tudo que aconteceu nos anos 60 e 70?
Temos a sensação de que “aquela época” foi a melhor de todas, uma era que teimamos em chamar de “romântica”, e que de fato carregava traços de romantismo, heroísmo, voluntarismo, amadorismo, vários outros “ismos”, mas fundamentalmente era feita de paixão. Tristeza é sentimento intimamente ligado à paixão. Só a paixão sem limites faz com que se enfrente a tristeza com coragem e altivez. A F-1 era triste e apaixonante.

Mas, hoje, talvez seja apenas triste.

Não porque seja vítima de tragédias frequentes. Como já dito, não morre piloto nenhum há 18 anos, quanto a isso há o que comemorar. Ou, ao menos, o que louvar. Tudo que não foi feito pela segurança nas décadas de 60 e 70, e tudo aquilo que se passou a fazer, e que se pensou que era suficiente depois que começou a morrer muita gente — Jackie Stewart à frente, um herói vivo —, foi revisto e aprimorado.
Hoje, pistas, carros e procedimentos são, sim, muito seguros, dentro dos limites do aceitável quando se trata de prever o que pode acontecer com foguetes que voam conectados ao asfalto por quatro pedaços de borracha.

Mas acho que daqueles anos, e das imagens de Purley, desesperado, vendo seu amigo morrer queimado diante da aparente indiferença dos outros pilotos, restou uma tristeza sem fim, que contaminou a F-1 e nela se fixou de modo a torná-lo eternamente um esporte condenado a viver à sombra da tragédia. A sensação de que algo muito ruim pode acontecer a qualquer momento, por mais que todos os protocolos de segurança tenham sido estudados e melhorados, paira no ar. E a certeza de que aconteça o que acontecer o show vai continuar, idem. Não há mais heróis, mas possíveis mártires, como foram os dois últimos, Senna e Ratzenberger. E um esporte disputado por 24 mártires em potencial só pode ser triste.

Tristeza que muita gente que ainda está na F-1 carrega desde aqueles “killer years”, porque eram jovens naqueles tempos, destemidos e apaixonados, dentro ou fora dos carros, e já não são mais. Nem jovens, nem destemidos, nem apaixonados. E, assim, convivem diariamente com as lembranças de um passado doloroso, que não querem que se repita. Talvez, hoje, Ron Dennis olhe para Hamilton e se lembre de Bruce McLaren, e tenha muito medo de que algo possa acontecer ao menino. E se culpe por nunca ter abandonado esse mundo violento e potencialmente letal, como fez Purley alguns anos depois daquele GP da Holanda de 1973 — para morrer, ironia do destino, num acidente aéreo idiota, quando fazia acrobacias num biplano. O mesmo talvez passe pela cabeça de Frank Williams. Ou de Luca di Montezemolo. Ou de Peter Sauber. Todos eles, em algum momento de suas longas vidas nas pistas, se encontraram com a tragédia, a morte, a dor.

Purley não suportou a ideia de seguir naquilo que amava de verdade, os carros, porque viu um deles matando seu amigo Williamson. E naquele dia outros carros, como se fossem senhores das vidas de seus colegas pilotos, não pararam para ajudar ou sofrer junto, seguiram em frente indiferentes, nada encerraria aquela corrida, o show tem de continuar, lembram?, e eles, os carros, eram o show. Sem alma ou piedade. Era a cara que a F-1 iria assumir dali em diante, desalmada e desprovida de qualquer traço de compaixão. Um mundo à parte, insensível e inanimado. Triste, enfim.

No documentário, Emerson conta que logo depois da morte de Jochen Rindt, Colin Chapman foi até ele e
disse: “Emerson, gosto muito de você, mas não quero que sejamos próximos, íntimos, amigos”. Chapman não queria mais ter amigos na F-1, porque a perda de alguém como Rindt, a quem era tão ligado, o devastou de tal forma que ele não aguentaria mais passar por aquilo de novo. E “aquilo”, a morte, estaria sempre à espreita. A partir dali, frieza, distância e impessoalidade dariam o tom das relações que ele passaria a cultivar.

A F-1, talvez involuntariamente, depois de tanta dor naqueles anos 60 e 70, se transformou nisso: num ambiente frio, distante e impessoal. Talvez seja uma defesa inconsciente de cada um que nela e dela vive. Imagens como as de Purley, o herói de Zandvoort, são duras demais para que não se comova com elas, e a comoção muitas vezes pode destruir uma pessoa por dentro, fazer com que ela desista, simplesmente. Que sejam evitadas, pois, as grandes emoções. Que se crie uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora. Mesmo porque se trata de um negócio, corrida, em que mesmo os heróis têm de conviver com fracassos colossais. O heroísmo de Purley não resultou em nada. Williamson morreu. Um esporte em que nem os heróis são capazes de salvar alguém não pode, mesmo, ser dado a muitos sorrisos.

ATÉ TU, ALEMANHA? – 20/07/2012

E aí que Nürburgring pediu falência. Como pode? Qual terá sido a grande cagada que fizeram em Nürburgring, para que um circuito inaugurado na década de 20 do século passado tenha de pedir falência?

Eu digo. Foi querer transformar Nürburgring num Playcenter perdido no meio do nada. Foi negar a Nürburgring sua natureza: o de ser uma pista de corridas, só isso. Quando muito, palco de um monumental festival de rock. E bastava. Bastava isso, a pista de corrida, o hotel de quartos com vista para os boxes, o espaço para o festival de rock e Nordschleife, o monumento à velocidade enfiado na floresta, só utilizado em algumas ocasiões especiais, na maior parte do tempo apenas ali, para ser contemplado.

E disponível para alguns manezinhos com seus carros de rua darem uma volta de vez em quando para se estabacarem em suas centenas de curvas traiçoeiras e repletas de história e respeito.

Era o cenário ideal, uma cápsula do tempo, quase. Porque Nürburgring fica na beira da estrada, e como não tem muita coisa em volta, os pilotos ficavam todos no mesmo hotel, esse com vista para a pista. E como as cidades das redondezas são pequeninas, o povo se ajeitava nos campings, com barracas e trailers, ou em casas de família. E como alemão é festeiro, a estrada e a pequena vicinal L93 que sai da 258, a Hauptstrasse, virava quase uma quermesse com barracas de salsichas, cerveja, pretzel, miniaturas, bandeiras, camisetas, bonés e o diabo a quatro.

E as noites eram barulhentas e divertidas, tinha um ônibus que circulava por ali levando a turma para umas baladas meio toscas, montadas sob tendas, e o ônibus tinha umas meninas meio feiosas de biquíni fazendo pole dance, cantoria o tempo todo, copos espalhados pelo chão, sujeira, alegria, vida.

Aí algum cretino qualquer achou que ali tinha… potencial. E começaram a construir um… complexo. Um complexo de diversão, lazer e gastança.

Sifu.

Da primeira vez que fui a Nürburgring, em 1995, à última, já não lembro quando, uns dois ou três anos atrás, aquilo se transformou tristemente. Irreconhecível. Uma monstruosa estrutura metálica na entrada, ao largo da 258, passou a anunciar o que havia ali dentro. Não era mais um autódromo. Era um complexo. Um parque. Cassino. Restaurantes. Business. Kart. Simuladores. Escritórios. Eventos. Lanchonetes. “Experiências”. Coisas demais. Alma de menos.

A região não tem gente suficiente para ocupar o complexo o ano inteiro. Para os 365 dias de adrenalina, como sonhavam os idealizadores, que pegaram dinheiro emprestado num banco estatal, não conseguiram pagar, e a composição societária tem governo no meio, e tudo pode ir para o vinagre.

Tivesse Nürburgring se mantido como sempre se manteve durante 70 anos, pista, rock, corridas, talvez a desgraça não acontecesse. Aquilo enchia de gente, movimentava a economia da região em cinco, seis, dez, quinze eventos por ano, com F-1, DTM, 24 Horas, Rock am Ring, caminhões, estava bom, tudo funcionava. A lojinha de miniaturas no posto de gasolina era uma das melhores do mundo, existirá ainda? E a pensão onde eu ficava, como se chamava a Frau? Está lá. Vi naquele treco do Google que fotografa tudo do alto.

Está lá a casa, o lugar onde eu parava o carro quando chegava do jantar no La Lanterna do Maurizio & i suoi fratelli, comida excelente, vinho às jarras, tiramisù, café, recibos em branco, está lá o pequeno pátio que leva à porta de entrada, o filho da Frau nos dava uma senha para abrir a porta, chegávamos tarde, barulhentos, mas no dia seguinte, às 7h, lá estava posta a mesa do café, sempre igual, o ovo cozido, os frios, o leite, as frutas e as geleias. Acho que a Frau ainda está viva, ela nunca teve jeito de ser das pessoas que morrem, posso voltar lá daqui a 50 anos e lá estará a Frau, seu filho e seus ovos cozidos.