MEIO SÉCULO DE PAIXÃO – 16/11/2006

Não há nada oficial programado. Nas montadoras instaladas no Brasil, creio que o domingo, 19, será igual a todos os outros: operários trabalhando, carros sendo montados, levados ao pátio, subindo em cegonhas, seguindo para as revendas, esperando seus novos donos, que neles passarão parte de suas vidas. Passamos parte de nossas vidas dentro de carros. Em muitos casos, momentos marcantes. Pedidos de namoro, primeiro beijo, corrida para a maternidade, caminho da escola, rumo ao trabalho, viagens inesquecíveis.

E como não há nada oficial programado, erga um discreto brinde a seu carro no domingo, 19, porque é uma data importante. Em 19 de novembro de 1956, exato meio século atrás, saía da linha de montagem da Vemag o primeiro automóvel fabricado no País, uma perua DKW F91, abençoada pelo presidente Juscelino Kubitschek. Sim, no domingo, 19, o carro brasileiro faz 50 anos, e pouca gente vai lembrar. A fábrica da Vemag, que deveria ser tombada e virar museu, ou memorial, ou qualquer coisa, menos o que virou – ruínas abandonadas numa região decrépita da cidade -, fica nos limites do Ipiranga, velho e simpático bairro operário de São Paulo, perto da divisa com o ABC.

Na falta de programação oficial, proprietários de DKWs vão se encontrar no local hoje, para celebrar o 50º aniversário de uma das maiores paixões nacionais – todo mundo gosta de carro, e a relação do Brasil com ele é muito especial, como diz aquela propaganda de posto de gasolina. Depois da Vemag vieram Simca, Willys, FNM, VW, Ford, GM, Fiat e todas as outras que desembarcaram por aqui recentemente.

E foi na década de 60 que o automobilismo brasileiro deu seu grande salto, graças às equipes oficiais de fábrica que viam nas pistas a melhor maneira de mostrar ao público que seus produtos eram bons, resistentes, velozes, possantes, como se dizia. Ali se formou a geração de Emerson, Wilsinho e Pace, para ficar nos que chegaram à F-1, dessa veio a de Alex, Chico, Ingo, Piquet, Moreno, depois a de Senna, Gugelmin, Barrichello, agora Massa.

Nós, que gostamos de carros e corridas, devemos muitas de nossas alegrias automotivas e automobilísticas àquelas peruinhas DKW que 50 anos atrás deixaram a fábrica da Vemag para ganhar as ruas e conquistar o País.

Advertisements

A HORA DAS MONTADORAS – 28/12/2001

Podem esquecer a Fórmula 1 da maneira como a conhecemos hoje. Depois que a Ferrari aderiu ao levante das montadoras, com as primeiras declarações de seu presidente Luca di Montezemolo sobre o assunto, Bernie Ecclestone e seus sócios podem começar a procurar outra galinha que bote ovos dourados. A categoria vai mesmo para as mãos das fábricas. O nome que terá é detalhe. Se Bernie & cia. baterem o pé pela marca “Fórmula 1”, sem problemas. Ficam com a marca, mas sem equipes.

Para quem está boiando no assunto, um resumo. No início do ano, a Associação dos Construtores Europeus de Automóveis (Acea), cujo presidente é o principal executivo da Fiat (dona da Ferrari), lançou a isca. As fábricas envolvidas na F-1, descontentes com a divisão de seu bolo financeiro, estavam pensando em criar uma categoria rival a partir de 2008, assim que as equipes que elas, montadoras, controlam estiverem desvinculadas do famoso “Pacto da Concórdia”. Este documento, o pacto, vale até 2007. É um compromisso das atuais 12 equipes da F-1 com seus organizadores, a FIA, no lado esportivo, e a holding capitaneada por Ecclestone, chamada Slec, que tem 75% de suas ações nas mãos de um grupo alemão de entretenimento, o Kirch Media.

Muito bem. A decisão da Acea causou um certo bafafá, mas ficou por isso mesmo, até que no final de novembro a entidade voltou à carga para informar que já tinha montado uma empresa para gerir a tal categoria a partir de 2008. Ôpa, o negócio era mais sério do que se pensava. Aí vem Montezemolo e sai falando que as coisas vão mudar, que as fábricas merecem mais dinheiro, que Ecclestone fica com muito, e que se fosse só ele tudo bem, mas esse grupo alemão, sai fora!

Por isso Bernie, prevendo que tal movimento fosse acontecer mais dia, menos dia, vendeu tão rápido a maior parte das ações da Slec. O mico na sua mão agora é desprezível. Os alemães, sim, terão de sentar para negociar. A F-1 como negócio, hoje, não vale um tostão. Quem a compraria sabendo que daqui a cinco anos suas equipes vão debandar?

O grito de liberdade das montadoras partiu de Fiat (Ferrari), BMW (Williams), Ford (Jaguar), DaimlerChrysler (McLaren) e Renault (dona da ex-Beneton). Honda e Toyota foram convidadas a participar da nova empresa. Essas fábricas atuam ou controlam oito das 12 equipes da F-1. Só Arrows, Sauber, Minardi e Prost são avulsas. Não dá para imaginar a F-1 sem a Ferrari, ou sem times como McLaren e Williams, que vão aonde seus parceiros mandarem.

Vai virar um Mundial de Marcas, enfim. A F-1 ficou cara demais para aventureiros. Ninguém mais monta uma equipe com um carro na mão e uma ideia na cabeça. Se é bom ou ruim, só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: Bernie mais uma vez enxergou na frente e se livrou do ônus de ser o homem-forte de uma categoria fantasma.

KIRCHMICO E OUTROS ASSUNTOS – 18/05/2001

O último movimento das montadoras não deixa margens a dúvidas: elas encostaram os alemães do KirchMedia na parede, e o grupo pode virar KirchMico em pouco tempo. Resumindo, para quem ainda não sabe: as montadoras, reunidas na associação européia de fabricantes (das quais fazem parte Ford, BMW, Mercedes, Renault e Fiat), levaram adiante a idéia de uma nova categoria e formalizaram a dita cuja. Agora vão montar uma empresa para administrá-la.

A idéia é estrear em 2008, quando acaba o Pacto da Concórdia. É fácil adivinhar cada passo das fábricas. Elas são donas ou sócias de quase todas as equipes da F-1, que por sua vez estão amarradas à Slec (a holding controlada pelo Kirch) até 2007. Depois disso, fazem o que quiserem. Ou, melhor dizendo, o que as montadoras determinarem.

Daí para a criação de uma Fórmula Qualquer Coisa, com as mesmas Ferrari, McLaren, Williams & cia. que hoje disputam a Fórmula 1, é, como dizem no interior, “dois palito”. E o que sobraria para o Zé Kirch e seus comparsas? Um mico do tamanho de Spa-Francorchamps. Ele teria a F-1, só que sem equipes. Colocar quem para correr? Durango, a Coloni e a Nordic? Se for esperto, Zé Kirch, que se chama Leo, na verdade, vende rapidinho o que comprou. Se der para pegar o mesmo preço que pagou, ótimo. Se resolver esperar até 2007, peitando as montadoras, vai quebrar.

Esse assunto, no fundo, não chega a ser dos mais atraentes para o torcedor comum porque envolve jogo político e financeiro, e quem de nós, em 2008, vai estar ligando para Fórmula 1? Por isso, vamos a outros dois mais trepidantes.

O primeiro: Barrichello x Ferrari. Muito tem se falado sobre a ordem de equipe para o brasileiro em Zeltweg, e sinto uma tendência em complicar o tema com equações, cálculos de tempos de volta, projeções de classificação do campeonato, análises psicológicas do rapaz, do complexo de inferioridade do brasileiro em relação à Europa e um monte de bobagens semelhantes.

O caso é muito simples, e aqui me repito porque escrevi o mesmo dois dias atrás em outra coluna. Barrichello tem um contrato que o obriga a aceitar ordens da equipe. Ninguém o forçou a assiná-lo, colocando um punhal em sua garganta. Portanto, que cumpra o que assinou. Mas se o espírito revolucionário falar mais alto, que desrespeite o acordo e assuma as consequências. Entre elas, uma demissão sumária, ou a perda do lugar na Ferrari em 2002.

Como não desrespeitou, assuma-se que ele aceita as ordens e os termos co contrato. Portanto, não tem nada que reclamar publicamente, como fez, ou jogar a opinião pública contra o time, como também fez ao deixar Schumacher passar a metros da bandeirada. Até o alemão ficou irritado. Ele não precisa disso, como provavelmente não precisará de dois pontos no fim do ano, mas nunca se sabe. Fico imaginando se não tem a ordem e Michael perde o título por dois pontos. Dá um tiro na cabeça. Do Jean Todt.

Por fim, o toque Schumacher-Montoya no início da prova austríaca. Antes de mais nada, foram momentos muito bonitos, com 1s6 separando o primeiro colocado do sexto, naquele momento da corrida. Schumacher fez o que se espera de um piloto de verdade, tentou passar. Montoya fez o que se espera de outro piloto de verdade, defendeu-se. Ambos consideraram o incidente normal (Schumacher ficou nervosinho logo depois da corrida, mas voltou atrás ao ver o vídeo).

Se não fossem esses momentos, as corridas seriam muito chatas. Portanto, nada de teorizar demais em cima do fato (um não faria a curva, o outro podia dar um X, e por aí vai; tem gente que fala com a autoridade de campeão sem nunca ter sentado num kart). Para mim, Schumacher está testando Montoya. Fez isso em Interlagos e em Zeltweg. E já sabe com quem está lidando. Com um cara parecido com ele. Viva Montoya.

AQUI, CHIQUE É CALHAMBEQUE – 14/05/1999

Em Mônaco, chique é andar de carro ruim. Meu Karmann-Ghia faria o maior sucesso aqui. Todo mundo tem Ferrari, Porsche ou Rolls Royce. Outros andam de Lamborghini. Deve ser muito desconfortável, é um carro baixo, sem visibilidade, a suspensão dura como o molejo de um cabrito tirolês — nem sei se tem cabrito no Tirol, mas vá lá. Mercedes e Audi são usados por motoristas de táxi e não é de bom tom ficar se exibindo por aí só com uma estrela de três pontas ou quatro argolas cromadas.

Por isso, e só por isso, faço questão de alugar carros baratos em Mônaco. É um sinal de desprendimento. Neste ano, caprichei. Me deram na locadora um Fiat Seicento. É do tamanho da mesinha de centro da minha sala. Por sorte, minha bagagem se perdeu entre Paris e Nice, porque não caberia no porta-malas. A volta para o aeroporto será complicada.

Mas é um carrinho simpático, Pato Donald adoraria. Tem lá seus problemas, como os pedais muito próximos, o que me leva a frear quando devo acelerar e vice-versa com alguma frequência. Isso por pouco não me causa alguns problemas, como anteontem à noite, quando uma BMW conversível brecou de repente e eu enchi o pé no acelerador. Desviei pela calçada. Muito ágil, meu carro.

Ontem a quase vítima foi uma Ferrari, e se isso acontecesse duvido que minha seguradora se esforçasse para me tirar da cadeira. Uma Ferrari novinha, diga-se, modelo Maranello, vermelhona, placa da Itália. Caso parecido com o da BMW, mas consegui parar rápido e enfiei a testa no vidro. Brequei com o pé esquerdo, o da embreagem.

Tudo bem. Amanhã, esses milionários todos vão ficar espremidos no trânsito com seus carrões, enquanto minha caranga passará o dia na garagem do hotel, porque virei de trem para Mônaco. São só doze minutos de onde estou, Menton. De carro, duas, três horas, e não tenho mais saco. Já chega o trânsito de São Paulo.

E tomara que chova, e que as capotas dos conversíveis não se fechem, e que todos fiquem ensopados. Porque corrida com chuva aqui em Mônaco é o que de mais divertido existe na Fórmula 1.