MENOS, MENOS… – 14/12/2006

Pensei em escrever sobre a decisão da Stock, hoje. Afinal, é o assunto da semana. Mas é mesmo? Tenho meus termômetros. O segurança do prédio, os caras que encontro no bar, os amigos que telefonam, o dono do café na galeria… De domingo até o momento em que tamborilo estas linhas, só uma pessoa veio falar comigo sobre a Stock. Para perguntar quando ia acabar o campeonato – que já tinha acabado. Minto, duas: meu pai me perguntou se Popó era irmão de Cacá.

Quando Schumacher ganhou a tartaruguinha do pessoal do “Pânico”, quase tive de contratar um assessor de imprensa, já que era eu a comandar o evento. A vitória de Massa três dias depois também rendeu intermináveis interrogatórios de conhecidos e nem tanto. Ele pode ser campeão? Vai ser melhor que o Rubinho? É o novo Senna? E tem sido assim nos últimos anos, todo mundo querendo saber alguma coisa quando Barrichello foi para a Ferrari, quando da marmelada na Áustria, quando dos títulos do alemão, quando da ascensão de Alonso, quando Rubens foi para a Honda, quando Michael anunciou a aposentadoria.

Fórmula 1, em que pese a opinião daqueles que acham que é chata e perdeu a graça, é assunto. A Stock, que me perdoem aqueles que se esforçam para elevá-la a paixão nacional, não é. Cacá pode até ser, porque é filho do Galvão. Mas dele se fala como de um parente distante. E normalmente para esculhambá-lo, sem saber se é bom piloto ou não, sem saber sequer o que ele pilota.

Larguem Hoover Orsi, Giuliano Losacco, Rodrigo Sperafico e Felipe Maluhy no meio da avenida Paulista, e ninguém vai reconhecê-los. É possível que mesmo nos autódromos, se não estiverem uniformizados, passem despercebidos. O público da Stock, em sua imensa maioria, é formado por convidados dos patrocinadores, não por seguidores do automobilismo.

Sim, a Stock é legal. Mas é menos, muito menos do que ela imagina. Compreender isso é o primeiro passo para melhorar e crescer. Mas partir do princípio de que é uma das maiores categorias do mundo e se deixar enganar pelo ilusionismo global pode levá-la de volta ao ostracismo.

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CARTILHA DO TORCEDOR – 17/09/1999

Dizem que a Ferrari mandou uma espécie de cartilha por fax ao Rubinho, depois do anúncio oficial de sua contratação. Coisas como: se perguntarem sobre o Irvine, não diga que ele é um cretino, apenas responda que é um bom piloto. Ou: se questionarem sobre o Schumacher, evite falar sobre o queixo grande do alemão e não dê corda para a história de ser segundo piloto. (Nessa ele até se saiu bem, falou que não pretende ser o número 2, mas sim o 1-B.)

Pois sugiro agora uma cartilha para os brasileiros conviverem com Barrichello na Ferrari. Há cinco anos o país não tem um piloto em equipe de ponta em condições de vencer corridas. Temo que o nacionalismo babão dos tempos do Senna volte com força incontrolável no ano que vem.

Basta seguir algumas regrinhas para que não se perca o juízo, como já está acontecendo por aí em discussões nos jornais, na TV, na Internet.

1. Schumacher não é a encarnação do demônio. Alain Prost também não era, como tentaram provar os histéricos sennistas nos tempos da McLaren.

2. Schumacher é melhor que Barrichello, pelo menos enquanto o brasileiro não vencer 35 GPs e dois campeonatos. Por isso, se andar atrás do alemão, não será por nenhuma conspiração ítalo-germânica, nem por sacanagem da equipe ou do Bernie Ecclestone.

3. Barrichello não vai vencer todas as corridas, nem lutar por vitórias até o fim de seus dias só porque está na Ferrari. E se seu carro quebrar muito, ou não for bom o suficiente, isso não quer dizer que ele é pé-frio, definição idiota que ando lendo por aí.

4. “Agora a gente pode acordar cedo aos domingos de novo” é frase que deve ser evitada a qualquer custo. Se você é do tipo que só vê F-1 se um brasileiro puder ganhar corridas, talvez seja o caso de mudar de esporte de preferência e passar a acompanhar vôlei de praia, futsal ou aquele futebol de areia que tem o Júnior e o Careca.

5. Quando alguém disser, na primeira vitória do Schumacher, que a Ferrari só pensa nele, que o segundo piloto não conta e que Rubinho não deveria ter aceito o papel de coadjuvante do alemão, mude de assunto com seu interlocutor.

6. Se o Rubinho insistir com suas macaquices no pódio, como aquela sambadinha meio ridícula que o faz se parecer com um robô de “Guerra nas Estrelas”, nem xingue, nem ache bacana. A indiferença é o melhor remédio, até para ele perceber que não fica bem.

7. Quando o Galvão Bueno embargar a voz na primeira vitória, ao som da bendita música, e a Globo fizer uma fusão de imagens com Senna e a bandeira do Brasil e o diabo a quatro, não precisa chorar. Mais dia, menos dia, isso ia voltar a acontecer. Não caia no lugar-comum da exploração barata de emoções.

8. E, finalmente, no GP do Brasil do ano que vem, nem pense em deixar as arquibancadas se o Rubinho quebrar, ou rodar. É o tipo de comportamento bobo, de quem não sabe apreciar a F-1 como ela é, uma competição legal, séria e, ao contrário do que pensam os babões de plantão, que não foi feita exclusivamente para brasileiros vencerem. Na verdade, um país como o Brasil, que não consegue nem dar o que comer à sua população, ter conseguido o que já conseguiu nas pistas é um daqueles mistérios que ninguém consegue explicar.

MINHA DEFESA – 19/03/1999

Recebi algumas cartas e e-mails depois do GP da Austrália. Contando também o ascensorista aqui do prédio, o cara do estacionamento, meu sogro e o sujeito da banca de jornais, foram 17, ao todo, que se manifestaram sobre minhas previsões furadas e inaceitáveis, tratando-se de um suposto especialista no assunto, sobre as possibilidades de Rubens Barrichello neste ano.

Nos e-mails, algumas dessas mensagens vinham acompanhadas de um sinal que indica um sorrisinho idiota, linguagem de internauta, que tento reproduzir aqui, :-), acho que é isso, se você virar a página vai notar que parece um cara dando risada de mim.

Devem achar que não entendo nada, porque dez dias atrás estava dizendo que o Rubinho iria ter mais um campeonato medíocre, que sua equipe era uma piada de mau gosto, e agora rasgo elogios ao time e ao piloto. Olham-me como a perguntar: e aí, o que vai dizer agora?

Fui mal-educado em algumas respostas, em especial com o cara do estacionamento, mas creio que nesse caso específico o destempero deveu-se mais ao jeito como ele manobra meu Karmann-Ghia do que propriamente a um incômodo por ser confrontado com previsões erradas.

Que importância tem o que eu penso do Rubinho ou do Schumacher, se um jornalista erra ou acerta um prognóstico, se o Galvão Bueno confunde um pedaço da Williams com uma bandeira da Ferrari? Tem gente que perde muito tempo caçando o erro dos outros, para se olhar no espelho e dizer a si mesmo, eu sou melhor do que eles, só não cheguei lá por falta de sorte.

Pode até ser, não me importo, tenho coisas mais importantes a fazer do que ficar defendendo meus pontos de vista sobre corridas de automóvel. Mas pergunto-me, ao notar a quantidade de gente preocupada com coisas desimportantes, como este país seria melhor se tal energia fosse gasta com assuntos mais sérios.

Poderia responder aos chatos de plantão, quando questionado sobre o Rubinho, que meu erro não é nada diante do que fez o cara que votou no prefeito fulano achando que ele seria bom para a cidade, ou no presidente sicrano acreditando que os problemas do Brasil seriam resolvidos em quatro ou oito anos, ou no vereador tal imaginando que ele não roubaria seu dinheiro. Isso para não falar em previsões de ministros e economistas, que não acertam rigorosamente nada.

Portanto, vão ver se eu estou na esquina.

O BOTECO DO ZONTA – 08/01/1999

Uma dúvida atroz me assola desde o final de 97, quando inventaram essa nova equipe que comprou a Tyrrell e chama-se BAR. Talvez nem todos saibam, mas trabalho em rádio também e por força de tal ofício vejo-me obrigado a falar além de escrever. Daí uma quase obsessão por falar direito, não errar a pronúncia de nomes estrangeiros, arranhar um sotaque francês para dizer Jean Alesi (Jã Alezí), ou Michael Schumacher (Micael Xúmarrer, como na Alemanha).

Até a tal da BAR aparecer, tudo ia bem, embora a maioria ache que eu falo errado, por exemplo, o nome do Takagi (Tacágui, contra o Tacáji difundido de modo equivocado pelo Galvão Bueno, mas ele me disse que o que vale é o que sai na Globo, então tá legal).

Se com pilotos às vezes a gente se complica, os carros nunca foram problema, e eu sempre os chamei pelo masculino, com as honrosas exceções da Lotus e da Ferrari. Uma Ferrari e um McLaren, um Minardi e uma Lotus, mas sempre no feminino quando me refiro às equipes, a Benetton e a Williams. É um critério, meio arbitrário, mas um critério.

E tudo ia bem, na santa paz da minha consciência, quando surgiu a BAR. Mesmo para escrever será difícil. Veja uma frase típica: O McLaren de Mika estancou no meio da reta, com pane seca. Agora troque o carro prateado pelo azul (ou será vermelho e branco?): O BAR de Zonta estancou no meio da reta, com pane seca. O que teria acontecido? Terminado o estoque de uísque no botequim logo depois da curva, aquele bem no meio da avenida principal?

Há uma solução sobre a qual já refleti, mas não vai pegar: chamar os BAR (ou seriam bares, ou bars?) de Reynard. Esquece, na F-1 todo mundo usa o nome da equipe, e a Reynard é só sócia, apesar de ter vasta participação na construção do carro.

Apesar da dificuldade, creio que na mídia impressa esses problemas acabarão minimizados, BAR é até legal porque cabe em título (melhor do que Larrousse, por exemplo). Só que no rádio, my brother, viverei momentos dramáticos. Se não houvesse nenhum piloto brasileiro na equipe, tudo bem, seriam algumas citações e ninguém iria perceber. Mas tem um, o Zonta, que será notícia o ano todo. E como vou chamar seu carro? Bar, com sotaque de Piracicaba? Barrrr, arrastando o erre como no Rio? Bi-êi-ar, como os ingleses? Bê-á-erre, já que é uma sigla como efe-eme-í?

É um dilema de proporções bíblicas. Tenho pensado no assunto com muita frequência e alguém me sugeriu usar boteco, afinal não se traduz quase tudo por aqui, como Nova York, Milão, Turim, Iraque?
Pode ser. O Boteco de Villeneuve tem um ótimo motor, direi, ao primeiro pódio. Ou: esse Boteco é uma droga, logo na primeira quebra. É uma possibilidade. Mas preciso amadurecer a idéia.

PREVISÃO – 26/12/1997

Anote aí as minhas previsões para 98, porque não estou com vontade de fazer balanço da temporada, quem faz balanço é banco. Eu normalmente acerto todas, minha margem de erro nos últimos campeonatos tem sido menor do que 2%. E um ótimo ano a todos vocês que tiveram a paciência de me aturar em 97.
Volto em fevereiro, bronzeado pelo sol de Porto Seguro e louco para ver uma corridinha de novo. Tchau.

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Schumacher e Villeneuve vão se reconciliar. Para provar que está sendo sincero, Michael vai pintar o cabelo de amarelo. Jacques, por sua vez, doará um filhote de vira-lata para o alemão. Mas não vai avisar que está cheio de pulgas.

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Rubinho vai reclamar do motor, do pneu, do asfalto, do calor e do hotel. Vai prometer largar entre os oito primeiros e tentar chegar nos pontos. Vai lamentar o azar que o tirou do pódio e, no fim da temporada, dirá que foi um ano de aprendizado e que a equipe cresceu muito.

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Raul Boesel, finalmente, conseguirá sua primeira vitória. Será num campeonato de autorama com os filhos pequenos. Mas o mais velho entrará com um protesto junto à FIA porque o carrinho do papai tinha quatro rodas e o seu, só três.

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Gil de Ferran vai bater o carro oito vezes e no final do ano dirá que se não fossem aqueles azares, seria campeão.

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A FIA vai mudar de novo o regulamento, porque os carros estão muito rápidos. Só serão permitidos freios a lona e câmbios manuais de quatro marchas. Os carros também terão que levar estepe no porta-malas e o pit stop será feito pelo piloto sozinho.

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O Galvão Bueno vai dizer “quando surgir a luz verde” três vezes. E vai chamar Jacques de Gilles 14 vezes.

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André Ribeiro terá que fazer uma plástica para tirar o sorriso do rosto, porque se já dá risada sem ganhar nada, imagine na Penske, faturando uma corrida aqui e outra ali.

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E eu serei pai.

Até o ano que vem.

NOSTALGIA – 11/10/1996

É, acaba hoje. Hoje é dia, ou melhor, noite de juntar uma tchurma em casa para lembrar os bons tempos, aqueles tempos em que a gente se juntava para ver o Senna ser campeão em outubro, sempre no Japão. Creio que no ano passado, exatamente nesta época, escrevi a mesma coisa. Mas é inevitável a lembrança de Suzuka de madrugada, o Galvão Bueno e sua voz grave, a sensação de que algo muito importante estava para acontecer do outro lado do mundo. E de fato acontecia, sempre pintava um campeão por lá.

Anos melhores virão, escrevi aqui no ano passado. Vieram. Esta temporada foi bem melhor que a de 95, o Schumacher encantou com a Ferrari, a decisão ficou para a última corrida, os ingredientes dramáticos aí estão, um quase campeão demitido, um estreante meio mascaradinho, mas sem dúvida rápido, enfim, o Mundial de 96 foi legal, não metam o pau, aliviem, porque a F-1 está buscando seus caminhos.

Houve maus momentos, corridas chatérrimas, treinos de sexta-feira sem a menor emoção, mas houve também a ultrapassagem do Villeneuve em Portugal, o alemão na chuva em Barcelona, a festa inesquecível da Ferrari em Monza, a vitória de Michael em Spa, a chegada de seu irmão Ralf, a demissão de Hill e a surpreendente contratação pela TWR, notícia, enfim, não faltou.

Mas no Brasil ainda me perguntam todos os dias quando teremos um piloto de novo, etc. e tal. Não sei, respondo sempre, não sou agente de pilotos, olheiro, descobridor de talentos, funcionário do governo, nem embaixador. Sou um mero jornalista, cuja função é mostrar a algumas pessoas no meu país o que acontece nessas corridinhas por aí. Gosto do que vejo e acho que o espetáculo é bom, sejam os protagonistas brasileiros ou aborígenes, alemães ou esquimós.

Esta noite, mais uma vez, sai um campeão mundial. Quem não viu nenhuma corrida este ano porque são todas muito cedo, domingo de manhã é duro de levantar, assista hoje. A F-1 é bela, disputada, emocionante. Já foi mais, OK, mas o mundo também já foi muito melhor do que é, e nem por isso deixamos de viver.