Dá-lhe, Dart! – 29/03/2002

Tem gente que me acha doido por escrever sobre losangos quando o mundo está discutindo círculos. Não tiro a razão desse pessoal, que insiste em ler minhas bobagens por anos a fio. Lembro que na véspera da decisão do Mundial de 2000, em Suzuka, fiz uma coluna sobre clássicos japoneses, entre os quais o Ultraseven, o Ultraman, o National Kid e uma miniatura do robô de “Perdidos no Espaço”, que não tem nada de japonês, mas comprei no Japão, e acabou entrando de gaiato na história.

É o caso desta semana, semana de corrida no Brasil, semana que promete um duelo daqueles entre Schumacher e Montoya, semana de mais um capítulo na conturbada história de Barrichello na Ferrari, o drama de ser preterido pela equipe no GP de seu país, os dramas passados numa prova que nunca lhe sorriu com um resultado decente, um podiozinho que fosse, o jejum de pilotos brasileiros em Interlagos, a dengue à espreita noos 100 mil pneus espalhados pelo circuito, as ondulações da pista, as áreas de escape asfaltadas, as novas regras que entram em vigor, essas coisas.

E eu resolvo falar da Dart.

Dart? Que diabos é Dart?

Dart é o Gama da F-1, a equipe que ninguém quer deixar correr, uma espécie de pária nesta categoria milionária de gente de queixo empinado que não gosta de dividir o bolo, que não admite estranhos, que só sorri quando vê um maço de notas de cem dólares sendo acenado a uma distância que permita enxergar “In God We Trust” no papel esverdeado.

Dart é a Phoenix, a ex-Prost. Resumindo: a Prost faliu em janeiro, no começo de março um grupo inglês chamado Phoenix Finance Ltd foi à Justiça Francesa, viu o que tinha no espólio para vender, comprou dois carros da massa falida, o projeto do carro de 2002 e, garante o grupo, o direito de participar do Mundial de F-1.

O dono da empresa, Charles Nickerson, telefonou para o amigo Tom Walkinshaw, proprietário da Arrows, perguntou se arrumava uma meia-dúzia de mecânicos, alguns motores, e se dava para montar uma equipe. Dava, aparentemente, e mandaram tudo para a Malásia.

A equipe nova chegou a Sepang com o nome Phoenix, convocou dois pilotos, Tarso Marques e Gastón Mazzacane, mas nem conseguiu entrar no autódromo.
Agora, ao que parece, a Dart está no Brasil. O Tarso Marques me contou que os carros vieram para cá, e que o time esperava correr. Não correu, nem tem espaço no autódromo, não tem box, vai enfiar os carros e os mecânicos onde? No kartódromo?

Não sei de onde vem o nome Dart, nome novo, escolhido nesta semana, ainda segundo o Tarso. A equipe não tem cores, patrocínios, nada. Dois carros, motores Ford que estavam encostados em algum canto, e vontade de correr.

Pode parecer picaretagem. Tem todo o jeito de ser, na verdade. E a F-1 não é muito chegada a picaretagens depois de experiências ruins com times como a Andrea Moda, a Forti Corse, a Lola, a Life, a Simtek, a Pacific, nomes que surgiram nos anos 90 e desapareceram sem deixar rastros.

OK, compreendo, é preciso preservar a credibilidade do esporte, é uma competição de alto nível que movimenta muito dinheiro, etc. e tal. E depois tem o risco de colocar carros inseguros na pista, que podem machucar alguém.

OK, compreendo tudo isso. Mas poderiam pelo menos deixar os carros entrarem no autódromo. Colocar os capacetes nos pilotos, tirar retrato, dar credencial. Dart, o nome é legal. Lembra o Dodge Dart do meu pai.

Sou doido, mesmo, tem corrida em Interlagos e fico falando da Dart, que nem existe direito. Não faz mal. Alguém precisa defender os pobres e oprimidos. Dá-lhe, Dart, resista! Não capitule! Se não der aqui, manda os carros para Imola. Uma hora dá certo.

Música em Interlagos
É curioso passear pelos boxes de Interlagos para aferir o gosto musical dos mecânicos nos dias que antecedem o GP. A Jordan, por exemplo, coloca em suas disqueteiras sucessos do pop inglês, como Tears for Fears, Duran Duran e Culture Club, daquele sujeito esquisito que parece mulher. A BAR manda ver com Marisa Monte e Daniela Mercury. A Minardi tem uma quedinha por clássicos do rock dos anos 70 e 80. Ninguém toca rap, nem funk, nem pagode, nem sertanejo, felizmente. Williams, Ferrari e McLaren ficam no silêncio. Coisa mais sem graça.

Mulheres em Interlagos
Não sou tão velho assim, mas sou do tempo em que a corrida do Brasil acontecia em Jacarepaguá e todo mundo adorava. Os pilotos chegavam dias antes e se esbaldavam na praia e nas piscinas dos hotéis na Barra e em São Conrado. Motivo? Mulheres, claro. No grid, as mocinhas de preto, patrocinadas pela John Player Special, eram um estouro com seus shortinhos minúsculos. Nem precisa ir tão longe. Nos últimos anos, aqui mesmo em Interlagos, teve Feiticeira, Sheila Mello, Tiazinha, as proibidas do Funk, Monique Evans, Luana Piovani, Thais Araúja, Maria Fernanda Cândido, Isabel Fillardis. Neste ano não vi ninguém. Está todo mundo na Casa dos Artistas.

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Ninguém aguenta mais – 06/06/2001

Há muito mais nesse triângulo amoroso mal resolvido McLaren-Newey-Jaguar do que dinheiro, apenas. Na sexta-feira, entre um comunicado confirmando um contrato e outro negando o anterior, confesso que não conseguia enxergar nada além de dólares na parada: o projetista fazendo leilão, querendo ganhar cada vez mais, sabedor que é de seu talento – como disse Bobby Rahal, o cara “achou” mais velocidade em carros de F-1 nos últimos anos do que qualquer piloto ou fabricante de motor.

Mas a informação que a “Autosport” inglesa publica nesta quinta-feira, garantindo que Newey vai mesmo é dar um pé na F-1 para desenhar barcos, fez com que eu repensasse o assunto. Para concluir que Adrian está é de saco cheio da vida que leva. Pelo que diz a revista, Newey pretende abrir mão da extensão de seu contrato com a McLaren, agora previsto para terminar em 2005, para tomar outro rumo já em agosto de 2002.

Dá para imaginar alguém tão vitorioso como Newey, uma celebridade cercada de paparicos e propostas por todos os lados, largar o mundo maravilhoso e milionário da F-1 para desaparecer no mapa? Dá. Basta viver a F-1 de perto para não só entender uma decisão dessas, como apoiá-la. Se eu fosse rico o bastante para fazer o mesmo, já teria feito.

Falando assim, parece que odeio a F-1. Não é exatamente isso. Ainda gosto de corridas de automóvel. Digamos que a F-1 como é hoje é que está um porre. E não estou me referindo à falta de competitividade, ou de ultrapassagens, ou de belas corridas. Refiro-me ao ambiente, ao “way of life” dessa gente afetada que se sente no centro do universo, do mecânico ao segurança do autódromo, do assessor de imprensa ao goiaba que trabalha de garçom com uniforme de equipe.

É tanta frescura e cerimônia, que a F-1 está se tornando algo quase insuportável. Embora seja lícito admitir que talvez nós, jornalistas, sejamos os que menos sofrem com isso. Basta não estressar. OK, o Bernoldi só pode falar às 16h17, e não às 16h13? Dane-se, que não se ouça o Bernoldi. Barrichello está em meeting com seus engenheiros e só vai poder dar entrevista daqui a duas horas? OK, azar dele e dos leitores. Montoya não pode conversar com ninguém no paddock, só com hora marcada? Beleza, abraço Montoya, quando der a gente se fala. É preciso passar a credencial por sete controles eletrônicos até chegar à sala de imprensa? Sem problemas, cadê a catraca? Há quem ainda se irrite com essas coisas. Eu, não mais. Faz tempo.

O caso de um sujeito como Newey, porém, é infinitamente mais dramático. A cada quebra, a cada derrota, a cada centésimo perdido numa volta, a cada reclamação de um piloto, a bomba estoura na sua careca, precoce para quem tem só 42 anos. Se eu não entrevistar o Barrichello não acontece nada. Mas se o carro do Coulthard não sair do lugar na largada, o mundo desaba. As pressões sobre essas peças-chave da F-1 são cada vez maiores, e vêm de todos os lados. Na posição que Adrian ocupa, não basta ser bom; é preciso ser o melhor de todos sempre, é preciso ganhar, ganhar, ganhar.

Esse é o espírito da competição, vai dizer você. Pode até ser. Mas não dá para se dedicar 100%, o tempo todo, num meio em que o ritmo de trabalho e as exigências são tão intensos, como disse nesta semana John Barnard. Por mais talentoso que seja o sujeito, sua vida útil diminui drasticamente. É desumano. O mesmo pode-se dizer dos pilotos e seus séquitos, cada vez mais impacientes, estressados, infelizes, cheios de compromissos, obrigados a bajular patrocinadores e autoridades, um verdadeiro pé no saco. Não têm casa, família, amigos. Vivem em função de uma imagem, medem palavras, não podem dizer certas coisas, ficam irritados com qualquer bobagem, fazem segredo até da cor da cueca que estão usando. Como se o bom andamento do universo dependesse de seu comportamento exemplar e reprimido.

Por isso admiro Villeneuve, que não dá a mínima para ninguém. Chega ao autódromo, senta no carro e sai dirigindo, o mundo que se dane. E por isso que, se Newey disser que vai abandonar as corridas para desenhar barcos, ou para cultivar rosas no interior da Inglaterra, vou aplaudir de pé. Já fez mais do que devia, aguentou o que não precisava.

Quanto a mim, continuo enquanto tiver paciência e bons amigos nesse meio que, a cada dia que passa, se torna mais hostil e aborrecido.

Gorducho – 16/08/2013

Fiquei sabendo que o Chip Ganassi não vai renovar seu contrato. Acabou a mamata. Também, mais de sete anos aí e nada? Duas vitórias em 239 corridas? Fazer o quê, agora?

Tenho sugestões. Apesar dessa sua paixão pela América, pelos sanduíches, pelos refrigerantes, pela cafonice de Miami, por montanhas-russas e pelas gírias do Bronx, acho que seu lugar é a Europa. Para correr, pelo menos. Vejamos. Você está com 37 anos e meio rechonchudo. Voltar à F1 está fora de questão. Vamos ser sinceros… Ninguém mais se lembra de você por lá. Culpa sua. Saiu falando um monte e as pessoas se decepcionaram com sua decisão. Afinal, hermano, chegaste com fama e marra. Justificadas. Ganhou a F3000 num ano, a Indy no outro, mais uma temporada boa nos EUA e caiu logo de cara na Williams, estrutura de time grande, BMW por trás e tudo mais.

Já ganhou corrida no primeiro ano, teve aquele chega-pra-lá no Schumacher em Interlagos e pronto, virou ídolo. Fez um monte de poles e andou sempre na frente. Depois foi para a McLaren. Era da turma da ponta. E então, de repente, avisa no meio da temporada que não quer mais, troca a F1 por essa coisa provinciana e cafona da Nascar, queria o quê? Que te chamassem de volta? Pode tirar o cavalinho da chuva.

OK, tenho cá comigo algum preconceito com a Nascar. O “cafona” aí em cima é por minha conta. Na verdade, o preconceito é com os Estados Unidos. E vamos ser sinceros… Os caras na Nascar não gostam de forasteiros. É como naquelas cidades do Velho Oeste, em que chega um sujeito de fora, entra no saloon e todo mundo para de conversar, a música é interrompida, o sujeito chega no balcão, pede um trago e o barman ignora. Até que alguém com chapéu enorme, barba por fazer, Colt no coldre, vai até o estranho e pergunta o que é que ele está fazendo ali. E então começa a pancadaria e o tiroteio.

Não vou dizer que vi todas suas corridas na Nascar, na verdade não vi quase nada, nem sei se você levou pancada ou tiro de Colt. Mas creio que você passou pela situação do cara que chega no balcão. E nessas histórias de faroeste, se não for o mocinho do filme, não ganha. Seu caso, precisamente. Você não virou mocinho na Nascar, e não ganhou.

Ganhou muita grana, isso a gente sabe. Fiz umas contas aí e só nos últimos cinco anos, foram 23 milhões de doletas. Em prêmios. Deu para fazer uma poupança razoável. Vai gastar em quê? Em Double Whoppers?

Me diga… Se não aparecer outra jabiraca qualquer para você correr, vai fazer o quê? Parar?

Não, não pare. Apesar de um certo ressentimento na Europa, eu diria que você ainda tem espaço para algumas coisas. Não falemos mais de F1, já disse que isso acabou, você passou da idade e do peso. Se bem que cheguei a imaginar uma volta em grande estilo, como fez o Kimi. Mas no seu caso é mais complicado. Entre outras coisas, teria de fazer um bom regime. E não sei se teria saco para começar quase do zero. Não, esqueça. Mas tem o WEC aí. Equipes legais, carros grandes, poucas corridas por ano e uma enorme boa vontade de todos para trazer nomes famosos. Já imaginou você de Porsche com o Webber? Por que não bate um fio para ele? O que é bater um fio? Telefonar, Juan Pablo, antigamente a gente falava assim, bater um fio, os telefones tinham fios ligados na parede. Ainda têm, alguns. Nesses motéis de beira de estrada aí na América todos têm fios ligados na parede.

Bem, é uma ideia. A Toyota pode ser outra. Você deve conhecer gente na Toyota. Teve um ano na Indy que você andou de Toyota, não teve? Em 2000? O ano que ganhou Indianápolis? Sim, eu sei, nas 500 o motor era outro, Oldsmobile, alguma coisa desse naipe, mas no campeonato da Champ Car era Toyota. Deve ter sobrado algum amigo japa para você bater um fio.

O que eu acho é que você desperdiçou sua carreira saindo da F1. Esses anos aí de Nascar pouco mais te trouxeram do que dinheiro e calorias. Do ponto de vista esportivo, não vi grande vantagem, não. Olhei as estatísticas, porque os caras aí têm estatística para tudo, e sua posição média de largada foi 19° e de chegada, 22°. Desempenho muito próximo do meu Lada de corrida. Sim, eu corro de Lada. Não, não adianta dar risada. Tenho mais troféu do que você. Enfim, reconhece a queda e não desanima.

E Connie, como está? E as crianças? Isso a gente tem de admitir, ela parece adorar os EUA, as crianças idem, e você tem tempo para curtir a família, apesar desse monte de corrida por ano. É tudo mais o menos perto, dá para dormir quase todo dia em casa. Se você aceitar a sugestão, essa de correr de Porsche ou de Toyota, nem precisa se mudar da Flórida. Fica por aí mesmo, o WEC tem meia dúzia de corridas, é tranquilo. E você gosta dessas provas longas, andou ganhando algumas por esses dias, tenho acompanhado meio de longe.

Pense bem. Se for ficar na Nascar, vai pegar alguma trapizonga de quinta categoria e andar atrás. Você continua sendo um forasteiro, hermano. O cara do bar sempre vai se negar a te servir um trago. E sempre vai ter um caubói de chapéu e Colt para arrumar encrenca. A vida pode ser mais tranquila, acredite. Vai por mim. Endurance, Le Mans, Spa, Interlagos. É divertido e paga bem.

Checo, mi hijo – 26/04/2013

Buenas.

Acalmou? Muito bem, então presta atenção, cabrón. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. E você deu ao povo diversão e arte domingo, sem dúvida. Foi divertido vê-lo partindo pra cima do bonitão lá. O bonitão lá, porém, no entanto, contudo e não obstante, não gostou muito. Não de você ter partido pra cima. Isso é normal, faz parte do jogo. Mas do jeito. O jeito, cabrón. Tem de ter jeito para fazer as coisas.

Que fique claro: nós, do lado de cá, curtimos pilotos que partem pra cima. Há, porém, no entanto, contudo e não obstante, alguns limites. Um deles é: não bata no carro da frente. Muito menos se o carro da frente tiver a mesma cor que o seu. Não se passa por dentro de ninguém. É possível fazer tudo que você fez com mais arte, sacou? Seu carro era mais rápido. Dava para partir pra cima de outra maneira, sem correr o risco de os dois ficarem de capacete na mão. Sugiro assistir a alguns vídeos no YouTube para ver como se faz, se não quiser pedir para o pessoal do arquivo da equipe. Mas, se preferir, peça para a mocinha do arquivo a fita “Turquia 2010”.

Sua equipe é a melhor do mundo para fazer essas coisas. Libera a briga, deixa que vocês resolvam na pista, é o ideal dos mundos. Mas é preciso ser inteligente. Uma coisa é disputar posição e brigar por ela. Outra é querer ganhar na marra como se estivesse numa batalha de vida ou morte. Ser combativo é diferente de ser agressivo. Combater é uma coisa, agredir é outra. Creio que você exagerou.

Até aí, tudo bem. Todos foram jovens um dia. Button também já aprontou das dele quanto tinha vinte e poucos. E ele compreenderia se vocês tivessem uma conversa depois da corrida. Era só procurá-lo. Mas aí leio que você não pediu desculpas porque achou que não precisava…

Ora, ora, mas que macho, hein, cabrón? Vou te dizer um negócio. Demonstrar respeito a quem merece é virtude que deve ser cultivada permanentemente. Button é um cara que merece respeito pela história de vida que tem e por tudo aquilo que já fez na F-1. Não há a menor necessidade de vê-lo como inimigo. Uma das maiores besteiras que se fala na F-1 é que “meu maior inimigo é meu companheiro de equipe”. Bobagem pura. Ninguém tem de ser inimigo de ninguém. Criar clima, ainda mais você, que acabou de chegar, é burrice.

Continue sendo assim: combativo, aguerrido, disposto, esforçado. Mas não compre brigas desnecessárias.
Não olhe para o cara do carro ao lado como alguém que você tem de odiar. Não leva a nada, apenas ao ódio. Seja amigo do seu companheiro de equipe. Ele tem muito a te ensinar, pode ter certeza. E você, muito mais a ganhar tendo um sujeito como Button como amigo do que como rival, adversário, inimigo, essas coisas. Além do mais, vocês não vão muito longe este ano. Cresça com o time, mostre que pode ser útil e que é capaz de trabalhar em equipe. Não se comporte como se fosse um guerreiro solitário no meio de uma gente hostil. Se te contrataram, é porque viram que você é capaz de virar alguma coisa. Não te pagam para bater no outro carro.

Li também algumas entrevistas que você deu no México. “O povo mexicano está comigo”, você disse. Algo assim. Ah, cabrón… Que tontería, larga esse discurso patriótico pra lá. Já vimos coisa parecida aqui no Brasil com aquele rapaz que foi te entrevistar no grid, conhece ele? Pois é. Esse negócio de “o povo está comigo” é muito antigo e, sobretudo, uma cascata federal.

Você não é um mexicaninho contra esse mundão todo, em resumo.

Suerte.

Caro Hamilton* – 08/03/2013

Fala, brother, tudo blz?

Não, não se deve usar “blz” numa carta. Esta é uma carta, de papel e tudo, escrita à mão. Usarei “blz” quando te mandar um e-mail. Ou uma tuitada. Aqui, nesta carta de papel, vamos manter a compostura.

Como estão as coisas na casa nova? Já sabe onde fica o banheiro, a salinha da tia do café? Conhece o cara da portaria? Já te deram um crachá com foto, ou continua usando com aquele onde está escrito “provisório”?

Não é fácil, eu sei. Todos sabem. Você talvez não soubesse, porque afinal de contas te adotaram ainda no ultrassom. Mas vai ser bom. É bom sair das asas, um dia. Foi assim quando as coisas com seu pai-empresário azedaram. É bem melhor que ele seja só seu pai, pode apostar.

Está todo mundo apostando em você. Os analistas, de Bagé a Brackley, acham que sua equipe vai mudar de patamar neste ano. E tudo por sua causa. É, negão, a responsa é grande. Se alguém aí perguntar quem é que vai fazer do seu time um grande de verdade, é você quem vai ter de responder que “esse cara sou eu”. Te vira, agora.

Mas vai ser bom. Mudança de ares, novos colegas, aquela estagiária bonitinha que talvez você nunca conhecesse se tivesse ficado lá onde estava, a comida diferente, a camaradagem de quem você nem sabia da existência… Tudo isso é bom, acredite. Pode ser meio complicado no início, mas aos poucos você vai se adaptar. Todo mundo se adapta.

O carro parece ser bom, não? Esquece esse papo de “falta pressão aerodinâmica”. Corrida é corrida. Todos os outros têm seus problemas, também. No fim, entre quase iguais, que são vocês, o que resolve boa parte de tudo é a cuca. Essa turma aí que vai trabalhar para você conhece o riscado. Sabe como ganhar. E como perder. Aliás, isso é o mais importante de tudo: saber perder, para poder ganhar um dia. Você já ganhou um campeonato e uma penca de corridas. Também sabe como se faz.

Não tenha medo do futuro, e exercite a paciência. Vai dar tudo certo.

* O asterisco é para vocês, caros e caras, que insistem em ler o que escrevo. De uns anos para cá, esse negócio de fazer coluna semanal se tornou um transtorno. Porque a velocidade das outras mídias (no meu caso, do blog) fez com que esperar por um dia específico da semana para escrever se transformasse numa agonia. Chegava o dia de escrever e… Cadê assunto? Já falei de tudo! E, assim, o blog passou a ser um depósito de várias colunas “instantâneas”. Não guardo temas numa caixinha. Publico na hora o que penso e o que quero. E é ótimo. Assim, desde o ano passado venho matutando sobre um formato decente para uma coluna semanal num site. Vou tentar algo não muito original neste ano, mas que pode funcionar: “cartas” que nunca chegarão ao seu destino, mas que se um dia fossem chegar, eu escreveria. Cartas ou e-mails, ou tuitadas, ou qualquer outra coisa que permita uma comunicação com alguém. E cartas que eu poderia receber de alguém, também, e que igualmente jamais serão escritas. A coluna Warm Up, a partir de hoje, e sabe-se lá até quando, porque se eu perceber que está uma merda mudo de novo, vai ser isso. “Face to face”, uma coisa menos macro, mais micro. Não é preciso falar para todo mundo, “compartilhar” tudo. Sejamos mais íntimos e diretos. Como eram as cartas de antigamente. Eu adorava escrever cartas. De volta para o futuro, pois.

HISTÓRIAS DE PIQUET – 17/08/2012

Piquet pode não ter sido o melhor, nem o mais importante piloto brasileiro. Mas foi, certamente, o mais interessante. E na minha escala de valores, muito particular, interessante vem na frente de importante e de melhor. E nessa mesma escala de valores, bastante particular, Emerson foi o mais importante e Senna, o melhor.

Isso posto, porque é óbvio que quando se fala de Piquet em tom laudatório a malta de sennistas se ouriça, assim como se ouriça a súcia piquetista quando o tom laudatório é dirigido a Senna, falemos um pouco de Nelson Piquet.

(Mas antes vale um parêntese para os mais jovens, que talvez não compreendam bem essa história de sennistas e piquetistas. Isso existia — ainda existe, mas existia em manifestações, digamos, mais agudas nos anos 80 e 90 do século passado. Hoje essa briga se dá em fóruns, blogs, redes sociais. Uma coisa meio estúpida. Piquet e Senna eram os esportistas brasileiros mais bem-sucedidos de um tempo em que o futebol, carro-chefe esportivo do país desde que o dia em que o primeiro tupinambá deu um bico num coco numa praia de Trancoso, estava em baixa. A seleção havia conquistado o tri em 1970 e a decepção de 1982 fez com que outros ídolos ganhassem algum espaço na mídia e no coração amanteigado de nossa gente cordial. Assim, dois caras que ganhavam corridas e títulos numa modalidade de ponta, como a Fórmula 1, conquistaram uma notoriedade ímpar. Era vinhetinha pra lá, Tema da Vitória pra cá, bandeira no pódio e Hino Nacional o tempo todo. Na falta de outra coisa, servia bem ao propósito de manter a autoestima das pessoas em níveis aceitáveis — aquela babaquice de sempre, de misturar esporte e patriotismo. Isso não vem ao caso, porém. Com dois caras para torcer, era natural que a escumalha se alinhasse a um ou a outro. Senna era a encarnação do Bem. Piquet, a do Mal. Claro que estou simplificando as coisas. Mas era mais ou menos assim.)

Piquet e Senna foram igualmente competitivos por pouco tempo: de 1985, quando Ayrton foi para a Lotus, até o fim de 1987, quando Nelson deixou a Williams. Antes e depois, foram apenas contemporâneos, mas não duelistas. Os últimos quatro anos de Piquet na F-1 foram totalmente ofuscados pelo sucesso estrondoso de Senna. E isso contribuiu para acirrar a rivalidade, que ocorria “a nível de” paddock, imprensa e papos de botequim. Era bem divertido.

Nelson completou 60 anos hoje. Sua trajetória é das mais ricas, construída a partir de uma oficina em Brasília, passando por viagens de Kombi, por motores “emprestados” dos clientes, por categorias de base como a Super Vê (que era belíssima), por muita mão na graxa, muita inteligência, esperteza, capacidade de observação, aprendizado constante, F-Ford na Inglaterra, F-3, títulos, vitórias, dedicação, esforço, empenho, entrega, comprometimento, confiança no taco e tudo mais que compõe a figura completa de um grande piloto.

Na F-1, conviveu com gênios de todos os tipos e áreas, como Ecclestone, Murray, Head, Williams, o pessoal da BMW (Piquet fala “bê-eme-vê”, como se deve), da Honda, das fábricas de pneus, mecânicos, engenheiros, projetistas, e sempre foi um deles, um igual, um gênio para um monte de coisa. Correu, ganhou, bateu, foi para a Indy para correr as 500 Milhas, bateu de novo, quase morreu, parou, casou um monte de vezes, encheu o mundo de descendentes, tornou-se empresário e colocou um filho na F-1.
Nessa vida louca toda, Piquet sempre manteve o ar moleque e os olhos rápidos e faiscantes, parecia não envelhecer nunca, até 2008, quando Nelsinho fez a cagada do século em Cingapura e ele, o pai, se envolveu até a última célula. Aí, envelheceu. Acho que nada na vida incomodou Nelson, nada foi capaz de derrubá-lo, de deixá-lo magoado ou triste por mais de cinco minutos. Mas o filho bater o carro de propósito, a mando de um crápula como Briatore, acabou com ele.

Convivi bastante com Piquet, de 1988, quando comecei a cobrir F-1, até 1993, quando fez sua última corrida importante, em Indianápolis. Guardo poucas histórias, como a do boné que me deu no grid das 500 (e pode ser lida aqui: http://flaviogomes.warmup.com.br/2012/05/piquet-20/), das brincadeiras de pivete, como pegar meu gravador e jogar longe, para vê-lo se espatifar no chão e cair da cadeira de tanto rir, das boas entrevistas e de um ou outro encontro fora das pistas. Num deles, em Cumbica, o vi desembarcar com duas rodas enormes nas mãos e perguntei por que não tinha despachado aquilo, para ouvir dele que tinha medo que o despacho se extraviasse, eram para alguém que precisava dar um upgrade na sua cadeira de rodas, e aquilo era importante demais para se perder numa esteira de aeroporto.

Em 1989, em Monza, Senna brilhava na McLaren e Piquet se afundava numa Lotus medíocre, quando cruzei com ele no paddock e o chamei timidamente. Ele virou-se e disse que não queria falar com ninguém, estava puto dentro do macacão e sem saco para nada, soltou um palavrão e seguiu em frente. Tomei coragem e gritei: não quero falar com você, é que tenho um recado do Crispim! Nelson estancou na hora, voltou-se para mim e perguntou: você conhece o negão? E eu contei que sim, que conhecia o negão, ele mexe nos meus DKWs, tirei um pedacinho de papel do bolso com um número de telefone e dei a ele. Puta que pariu, o Crispim, quanto tempo que eu não vejo esse negão filho da puta, me dá esse telefone aqui, e abriu um sorriso enorme, esqueceu a Lotus, a desgraça do carro, o sucesso do rival, as pentelhações da ex-mulher. Miguel Crispim Ladeira, mecânico-chefe da equipe Vemag nos anos 60, era quem lhe emprestava um quarto para dormir em São Paulo quando Piquet despencava de Kombi de Brasília trazendo suas peças e ferramentas para correr de Super Vê, era quem lhe dava uma mão em Interlagos, era um irmão e um amigo. Dei o pedacinho de papel para ele, que me abraçou e disse puta que pariu, vou ligar pra ele já.

E consta que ligou, mesmo.

CAMPEONATO DE SONHOS – 25/05/2012

Acho que ainda não rabisquei nada sobre este campeonato incrível em que todo mundo ganha corrida. Ainda é tempo. Pode ser que domingo acabe a festa estatística, que uma hora vai mesmo terminar. Afinal, são só 12 equipes. Cedo ou tarde, alguma delas ganha pela segunda vez.

Mas ainda há duas chances de ampliação desse recorde de diversidade, com a Lotus e a Sauber, entre as equipes capazes de vencer corridas. Não seria absurdo nenhum Raikkonen ou Grosjean em Mônaco e Pérez ou Kobayashi no Canadá. São provas meio malucas, às vezes, embora em Monte Carlo, nos últimos anos, as surpresas tenham sido raras. Normalmente chega em primeiro aquele que larga em primeiro. Por isso, uma chuvinha seria bem-vinda. Já em Montreal, depois que Button saiu de quase último para primeirão a, sei lá, umas dez voltas do fim no ano passado, acredito em qualquer coisa.

A F-1, que a gente costuma xingar bastante, tem se esforçado para melhorar, isso não se pode negar. Pode-se gostar ou não das muitas mudanças de regulamento levadas a cabo nos últimos anos, mas é preciso reconhecer que na maioria das vezes a intenção é boa. Contra o samba de uma nota só de Schumacher, naqueles anos meio cansativos de Ferrari, mudaram a pontuação e acabaram com a troca de pneus. Quando a Brawn ameaçou virar o mundo de cabeça para baixo com seu difusor duplo, proibiram. O mesmo com os difusores soprados (ô nome feio) da Red Bull no ano passado. E se aparecer alguém com mais algum truque, neguinho corta as asinhas numa canetada.

É verdade que na maioria dos casos essas medidas podem ser interpretadas como repressão à criatividade dos engenheiros e projetistas, mas olhando para o esporte pelo ponto de vista do público, azar dos projetistas e engenheiros. É disso que o povo gosta. Faz-se aquilo que no futebol já não ocorre, com o abismo de verba entre os clubes mais populares, eleitos pelas emissoras de TV que pagam as contas (isso no mundo todo, com algumas exceções), crescendo a cada ano. Na F-1, mesmo equipes com orçamentos monumentais, como a Ferrari, não conseguem ganhar de times mais pobres que, por alguma razão, tenham sido mais competentes na hora de desenhar um carro.

É exatamente isso que estamos vendo neste ano. A Williams ganhar uma corrida “fair and square”, como fez em Barcelona, é algo para se celebrar. A austera Sauber cutucando os líderes, como fez nosso Chapolin Colorado na Malásia, é um negócio que não tem preço. Longa vida aos pequenos!

OK, entre os cinco ganhadores deste ano quatro são grandões e ricões, Ferrari, McLaren, Mercedes e Red Bull. Mas não é que neste cenário tão incomum até a vitória de Alonso em Sepang foi recebida com alegria? Afinal, a Ferrari, com toda sua grana, pompa e circunstância, começou o ano como coitadinha de novo. Há uma tendência de se torcer para o mais fraco de vez em quando, e a turma de Maranello, em 2012, está nesse time dos mais fracos. E, ainda assim, lidera o Mundial com Alonso. Não é demais? Os caras abrem o campeonato dizendo que nunca tiveram carro tão ruim e depois de cinco provas estão em primeiro!

Que venham, pois, mais resultados surpreendentes, pódios inesperados, que troféus sejam erguidos aos céus por mãos improváveis, que rolem lágrimas de incredulidade por rostos extasiados. Porque, no esporte, a alegria daquele que não está esperando vencer é sempre mais autêntica e real. Passa longe do enfado dos que estão habituados com as glórias, daqueles que já não têm mais medo de perder porque nem sabem qual é o sabor da derrota.

E, de carona nisso tudo, nessa esperança de ver algo raro que nos abra um sorriso na bandeira quadriculada, vem a consciência dos protagonistas de que, neste ano, qualquer mísero ponto vale ouro. Assim, brigas por sétimo, oitavo e nono serão encarniçadas até os últimos metros das últimas voltas de todas as corridas, estejam nessas lutas pilotos obscuros ou astros candidatos ao título.

O pacotão asa-móvel/pneu-farelo/restrições-técnicas deu muito certo, e ainda contou com o acaso de ninguém ter feito, neste ano, um carro espetacular, temível, imbatível. Está todo mundo arisco, sonhando com vitórias, tentando entender o que está acontecendo. Cenário ideal para o campeonato que, no fundo, a gente sempre sonhou. Ele está aí, diante de nossos olhos. Aproveitemos.