Os azares de Schumacher na Áustria – 03/05/2002

Das 17 pistas que formam o atual calendário da F-1, o alemão Michael Schumacher só não venceu em uma: em Zeltweg, na Áustria, local da próxima etapa do Mundial, no dia 12. O ferrarista costuma dar muito azar no circuito: ele se envolveu em confusões nas quatro vezes em que disputou a corrida. Em 1997, ultrapassou sob bandeira amarela; em 1998, saiu da pista e destruiu o bico; foi tocado por trás em 2000 e saiu da pista com Montoya em 2001. Outro detalhe: desses quatro GPs, em dois ele largou atrás do seu companheiro de equipe (Irvine, em 1997, e Barrichello, em 2000).

Confira a extensa lista de azares do tetracampeão na Áustria:

1997 – Depois de treinos ruins, Schumacher largou apenas em nono, imediatamente atrás de seu companheiro de equipe, Eddie Irvine. Foi sua pior colocação no grid naquela temporada, junto com a da Itália. Michael partiu bem e completou a primeira volta na sexta colocação. Com o pit stop de Jan Magnussen (Stewart) na 26ª passagem, Schumacher subiu para quinto. Barrichello (também da Stewart) parou nos boxes duas voltas depois e o ferrarista pulou para quarto. O alemão passou Frentzen sob bandeira amarela na 38ª volta e assumiu a segunda colocação com o pit de Jacques Villeneuve. Schumi, porém, foi punido com um stop&go e despencou para nono. Passou Barrichello e Damon Hill (Arrows) nas últimas voltas e terminou em sexto. Villeneuve, seu grande rival na briga pelo título, venceu e ficou apenas um ponto atrás do alemão no campeonato.

1998 – Em uma classificação que alternou chuva e pista seca, Schumacher conseguiu apenas o quarto tempo. A primeira fila foi formada por Fisichella (Benetton) e Alesi (Sauber). O alemão largou bem e na primeira volta já pressionava Mika Hakkinen (McLaren), o líder. Michael, porém, forçou demais e cometeu um erro na 17ª passagem, quando ainda era o segundo. Ele destruiu o bico de sua Ferrari e foi obrigado a dar uma volta inteira com o carro avariado. Caiu para 16º e foi se recuperando até terminar em terceiro, atrás da dupla da McLaren. O pódio só foi possível porque a Ferrari mandou Irvine dar passagem ao alemão.

1999 – Não correu porque estava se recuperando do acidente sofrido em Silverstone. O alemão quebrou a perna direita e ficou três meses sem disputar um GP de F-1.
2000 – Ficou em quarto no grid, imediatamente atrás de Rubens Barrichello, e foi tocado por Ricardo Zonta (BAR) na primeira curva. O alemão tentou colocar seu carro no meio da pista para paralisar o GP, mas a direção de prova foi rápida e permitiu que a corrida continuasse.

2001 – Conquistou sua primeira pole na Áustria, mas largou mal e caiu para terceiro. Subiu para segundo com a quebra de Ralf e partiu para cima de Montoya, o líder. Schumi forçou a ultrapassagem na 16ª volta (foto) e ambos saíram da pista. O alemão caiu para sexto e se recuperou até cruzar a linha de chegada em segundo. Foi nesta corrida que a Ferrari obrigou Barrichello a ceder sua posição ao companheiro de equipe. O brasileiro só fez isso na última curva.

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Assuntos de sobra – 06/04/2001

Tem semana em que falta assunto para escrever uma coluna sobre F-1. Em outras, o tema é óbvio. Em algumas, raras, até sobra. É o caso desta. Sem grande esforço, daria para escrever um monte de coisas sobre Montoya, o grande nome do GP do Brasil. Ou sobre o drama de Barrichello, que culminou com uma barbeiragem histórica em Interlagos. Ou, ainda, sobre o levante das montadoras, dispostas a criar uma categoria para rivalizar com a F-1.

Bem, já que o espaço abunda, vamos aos três temas.

Começando com Montoya. É o homem, finalmente, ungido pelos céus para enfrentar Schumacher? É cedo para dizer. Mas pelo menos ele não tem medo do alemão, o que é uma boa notícia. Ultrapassou Michael com coragem e ousadia em Interlagos, e depois ainda tirou uma do rival em potencial. Contaram ao colombiano que Schumacher teria dito algo como “ele pode ser bom, mas ainda precisa aprender muito”. Juan-Pablo sorriu e respondeu: “Nem tanto”.

Legal, o cara é despachado, não se assusta com cara feia, vai para cima, quer ganhar. E mesmo perdendo, graças a uma espetacular bobagem de Jos Verstappen, não transformou o acidente em telenovela mexicana. “São coisas que acontecem”, resumiu. Pelo que fez na pista, e pelo que disse fora dela, Montoya ganhou fãs e respeito. Isso em sua terceira corrida. Assim nascem os campeões.

Falando em telenovela, Barrichello mais uma vez deu mostras de que sua falta de autocontrole pode ser um problema no futuro próximo. O GP do Brasil foi um drama para o moço. Desde o início da semana, caprichou nas declarações confusas e, algumas vezes, desastradas. Nos treinos, não foi bem. O sexto lugar no grid deixou o rapaz chateado, mais ainda porque Schumacher fez a pole.

Na corrida, admita-se, teve uma infelicidade danada de perder o carro titular momentos antes da largada. Seu esforço, e o da Ferrari, para conseguir alinhar com o carro reserva foi emocionante, daqueles momentos que entram para a história do esporte, mais ainda porque foram carregados de dramaticidade, a corrida a pé, sob sol forte, de capacete e macacão, a carona no furgão, até chegar aos boxes e conseguir colocar o carro na pista poucos segundos antes de os pits serem fechados.

Quando chegou ao grid, Rubens arfava e chorava. É compreensível. Mas seria bom para ele se nos 15 minutos seguintes conseguisse se concentrar e colocar a cabeça no lugar. O que não aconteceu. Barrichello ainda estava transtornado quando largou, e isso em parte explica a batida em Ralf Schumacher, de sua inteira responsabilidade.
Foi o que de pior poderia acontecer para o brasileiro: um fracasso diante de seu público, num erro indiscutível. Virou motivo de chacota de metade do país e de ira de outra metade, todos sempre se achando no direito de julgar atletas e cobrar deles desempenhos de antigos ídolos, como Ayrton Senna.

Julgar Barrichello pelo acidente com Ralf é um equívoco e uma injustiça. Ele não é melhor nem pior do que sempre foi por causa desse episódio. Foi apenas um acidente de corrida, como tantos outros, e assim deveria ser encarado. Dessa vez, ele teve culpa. Em Monza, no ano passado, foi acertado por Frentzen de maneira parecida. E, da mesma forma, Frentzen não virou um cretino de um dia para o outro por causa daquela batida.

Se há algo a criticar em Barrichello, sem que se faça necessária qualquer análise técnica do acidente, foi seu comportamento pós-corrida. Ele culpou Ralf e não assumiu seu erro, o que só serviu para aumentar a dimensão da batida e inflamar ainda mais seus críticos. É o tipo de coisa desnecessária. Seria mais fácil, mais simples e mais digno admitir que errou.

Por fim, as montadoras. Elas são, hoje, donas da F-1 por controlarem a maior parte das equipes. Mas não apitam nada nos destinos da categoria. É difícil imaginar que levem a cabo a ideia de criar outro campeonato. De qualquer forma, colocaram a cabecinha para fora do engradado e avisaram: “Estamos aqui”. É uma pressão considerável, partindo de indústrias do porte da Fiat, BMW, Mercedes, Ford e Renault. Serviu como aviso aos novos donos do negócio F-1, os alemães do KirchMedia, que cedo ou tarde terão de se sentar com as fábricas e, com elas, negociar e definir o que querem dessa galinha dos ovos de ouro sobre rodas.

Gorducho – 16/08/2013

Fiquei sabendo que o Chip Ganassi não vai renovar seu contrato. Acabou a mamata. Também, mais de sete anos aí e nada? Duas vitórias em 239 corridas? Fazer o quê, agora?

Tenho sugestões. Apesar dessa sua paixão pela América, pelos sanduíches, pelos refrigerantes, pela cafonice de Miami, por montanhas-russas e pelas gírias do Bronx, acho que seu lugar é a Europa. Para correr, pelo menos. Vejamos. Você está com 37 anos e meio rechonchudo. Voltar à F1 está fora de questão. Vamos ser sinceros… Ninguém mais se lembra de você por lá. Culpa sua. Saiu falando um monte e as pessoas se decepcionaram com sua decisão. Afinal, hermano, chegaste com fama e marra. Justificadas. Ganhou a F3000 num ano, a Indy no outro, mais uma temporada boa nos EUA e caiu logo de cara na Williams, estrutura de time grande, BMW por trás e tudo mais.

Já ganhou corrida no primeiro ano, teve aquele chega-pra-lá no Schumacher em Interlagos e pronto, virou ídolo. Fez um monte de poles e andou sempre na frente. Depois foi para a McLaren. Era da turma da ponta. E então, de repente, avisa no meio da temporada que não quer mais, troca a F1 por essa coisa provinciana e cafona da Nascar, queria o quê? Que te chamassem de volta? Pode tirar o cavalinho da chuva.

OK, tenho cá comigo algum preconceito com a Nascar. O “cafona” aí em cima é por minha conta. Na verdade, o preconceito é com os Estados Unidos. E vamos ser sinceros… Os caras na Nascar não gostam de forasteiros. É como naquelas cidades do Velho Oeste, em que chega um sujeito de fora, entra no saloon e todo mundo para de conversar, a música é interrompida, o sujeito chega no balcão, pede um trago e o barman ignora. Até que alguém com chapéu enorme, barba por fazer, Colt no coldre, vai até o estranho e pergunta o que é que ele está fazendo ali. E então começa a pancadaria e o tiroteio.

Não vou dizer que vi todas suas corridas na Nascar, na verdade não vi quase nada, nem sei se você levou pancada ou tiro de Colt. Mas creio que você passou pela situação do cara que chega no balcão. E nessas histórias de faroeste, se não for o mocinho do filme, não ganha. Seu caso, precisamente. Você não virou mocinho na Nascar, e não ganhou.

Ganhou muita grana, isso a gente sabe. Fiz umas contas aí e só nos últimos cinco anos, foram 23 milhões de doletas. Em prêmios. Deu para fazer uma poupança razoável. Vai gastar em quê? Em Double Whoppers?

Me diga… Se não aparecer outra jabiraca qualquer para você correr, vai fazer o quê? Parar?

Não, não pare. Apesar de um certo ressentimento na Europa, eu diria que você ainda tem espaço para algumas coisas. Não falemos mais de F1, já disse que isso acabou, você passou da idade e do peso. Se bem que cheguei a imaginar uma volta em grande estilo, como fez o Kimi. Mas no seu caso é mais complicado. Entre outras coisas, teria de fazer um bom regime. E não sei se teria saco para começar quase do zero. Não, esqueça. Mas tem o WEC aí. Equipes legais, carros grandes, poucas corridas por ano e uma enorme boa vontade de todos para trazer nomes famosos. Já imaginou você de Porsche com o Webber? Por que não bate um fio para ele? O que é bater um fio? Telefonar, Juan Pablo, antigamente a gente falava assim, bater um fio, os telefones tinham fios ligados na parede. Ainda têm, alguns. Nesses motéis de beira de estrada aí na América todos têm fios ligados na parede.

Bem, é uma ideia. A Toyota pode ser outra. Você deve conhecer gente na Toyota. Teve um ano na Indy que você andou de Toyota, não teve? Em 2000? O ano que ganhou Indianápolis? Sim, eu sei, nas 500 o motor era outro, Oldsmobile, alguma coisa desse naipe, mas no campeonato da Champ Car era Toyota. Deve ter sobrado algum amigo japa para você bater um fio.

O que eu acho é que você desperdiçou sua carreira saindo da F1. Esses anos aí de Nascar pouco mais te trouxeram do que dinheiro e calorias. Do ponto de vista esportivo, não vi grande vantagem, não. Olhei as estatísticas, porque os caras aí têm estatística para tudo, e sua posição média de largada foi 19° e de chegada, 22°. Desempenho muito próximo do meu Lada de corrida. Sim, eu corro de Lada. Não, não adianta dar risada. Tenho mais troféu do que você. Enfim, reconhece a queda e não desanima.

E Connie, como está? E as crianças? Isso a gente tem de admitir, ela parece adorar os EUA, as crianças idem, e você tem tempo para curtir a família, apesar desse monte de corrida por ano. É tudo mais o menos perto, dá para dormir quase todo dia em casa. Se você aceitar a sugestão, essa de correr de Porsche ou de Toyota, nem precisa se mudar da Flórida. Fica por aí mesmo, o WEC tem meia dúzia de corridas, é tranquilo. E você gosta dessas provas longas, andou ganhando algumas por esses dias, tenho acompanhado meio de longe.

Pense bem. Se for ficar na Nascar, vai pegar alguma trapizonga de quinta categoria e andar atrás. Você continua sendo um forasteiro, hermano. O cara do bar sempre vai se negar a te servir um trago. E sempre vai ter um caubói de chapéu e Colt para arrumar encrenca. A vida pode ser mais tranquila, acredite. Vai por mim. Endurance, Le Mans, Spa, Interlagos. É divertido e paga bem.

ACABA QUANDO? – 02/09/2011

Como estamos apenas na segunda temporada com farta distribuição de pontos na F-1, para desespero dos estatísticos, muita gente ainda não se deu conta de que Vettel pode ser campeão sem subir mais ao pódio até o final do ano. Os cálculos todos estão aqui, na matéria do Fernando Silva. Com sete quartos lugares, mesmo se o vice-líder Webber vencer todas as provas, Tião Alemão fecha o campeonato um ponto na frente do australiano.

É um baita domínio, que já nos leva a especular sobre a corrida em que o título será definido matematicamente. Olha aí a lista dos GPs que faltam: Itália, Cingapura, Japão, Coreia do Sul, Índia, Abu Dhabi e Brasil. Meu palpite: acaba em Suzuka, circuito que já consagrou muitos e muitos campeões na história. Seria um palco bem apropriado.

Palpite, mas também matemática. Vettel tem, em números redondos, uma média de 21,5 pontos por corrida neste ano. A média de Webber é de 13,9. Nesse ritmo, sempre arredondando, a diferença que é de 92 pontos sobre para 99 em Monza, 107 em Cingapura e bate em 114 em Suzuka. Aí faltarão quatro etapas para o fim do Mundial e Webber poderia marcar, no máximo, 100 pontos.

Diante da disputa até a última corrida do ano passado entre vários pilotos, parece que é um campeonato chato. Mais ou menos. Em 2010, tivemos uma temporada ótima de corridas ruins. Neste ano, a briga pelo título é fraquinha. Mas as provas têm sido bem legais.

Chato, mesmo, foi em 2004. Schumacher fechou a fatura em Spa-Francorchamps, na 14ª de 18 etapas. Ganhou as cinco primeiras corridas, perdeu em Mônaco quando foi abalroado por Montoya no Túnel (estava em primeiro), e depois venceu mais sete seguidas. Terminou o ano com 13 vitórias e dois segundos lugares. Recorde de vitórias na mesma temporada. Em 2002 foi ainda mais cedo: ganhou em Magny-Cours na 11ª de 17 corridas, com 11 vitórias, cinco segundos lugares e um terceiro. Rigorosamente todas as corridas no pódio. Vettel pode até conseguir algo parecido em termos de resultados. Mas não com a superioridade que Schumacher impôs aos seus adversários naqueles anos. Pode até não parecer, mas Tiãozinho tem tido mais trabalho agora do que seu guru teve nas temporadas de 2002 e 2004.

E vou dizer… Acho que se Michael conseguir um único pódio neste ano, ficará tão feliz quanto ficou na Bélgica em 2004, ou na França em 2002. Os dois aí da foto são feitos do mesmo material.

ELES QUEREM E SABEM VENCER – 09/04/2010

Vamos dar uma olhada na turminha que está disputando o Mundial de F-1 de 2010. Sebastian Vettel, Fernando Alonso, Felipe Massa, Jenson Button, Lewis Hamilton, Nico Rosberg, Robert Kubica. De troco, Michael Schumacher. Mais alguns veteranos de qualidade, como Rubens Barrichello e Mark Webber, e jovens bem promissores, como Adrian Sutil, Jaime Alguersuari, Kamui Kobayashi e Sébastien Buemi.
Podem se deliciar. Essa geração – ou gerações, pois tem neguinho aí que já passou dos 40 e outros que mal entraram nos 20 – é a melhor que a F-1 já teve desde os anos 80, aqueles que os mais saudosos costumam acoplar a “Mansell, Senna, Piquet e Prost”. E eu colocaria Lauda nesse grupo.

É uma F-1 que surge depois do vácuo do que se seguiu à morte de Senna e às aposentadorias de Piquet, Mansell e Prost. Período que varreu da história outro punhado de pilotos que poderiam ter sido muito bons, não fosse o inacreditavelmente longevo auge de Schumacher, que durou bem uma década. Sim, a F-1 teve ótimos pilotos nesse período, também. Não dá para dizer que eram ruins Mika Hakkinen, David Coulthard, Eddie Irvine, Heinz-Harald Frentzen, Jean Alesi, Jacques Villeneuve, Olivier Panis, Giancarlo Fisichella, Nick Heidfeld, Juan Pablo Montoya, Ralf Schumacher, Kimi Raikkonen…

O problema deles tinha nome, sobrenome, endereço na Suíça e boné de patrocinador impronunciável, e foi só quando ele decidiu parar que a garotada perdeu a inibição e, agora, deixa o alemão a ver navios. Schumacher pode não estar decepcionando na volta, está longe de ser um ex-piloto em atividade, vai reencontrar a competitividade, mas os tempos são outros e ele sabe disso.

Tanto sabe que já se tocou que está diante do maior desafio de sua carreira: brilhar de novo em meio a jovens tão talentosos e sedentos como esses que têm oferecido grandes espetáculos nas últimas corridas. Parece pouco para quem conseguiu tirar a Ferrari de uma fila de 21 anos, mas não é.
Quando assinou com o time italiano, Schumacher sabia que conquistar títulos seria uma questão de tempo. A equipe tinha uma estrutura forte e sólida, um comando firme e eficiente, com Jean Todt e Ross Brawn à frente, e quando tudo se encaixasse, seria só alegria – como foi.

Essa galerinha que tomou a F-1 de assalto quando ele parou, no entanto, não tem o menor respeito pelos mais velhos, no que faz muito bem, e está doida para inscrever seus nomes, coletivamente, nos anais da categoria. Daqui a 20 anos, vamos olhar para 2010 e suspirar, com ar nostálgico, que bom mesmo eram os tempos de Vettel, Massa, Alonso, Hamilton…

Bom que seja assim. É saudável a troca da guarda, a renovação. E é igualmente bom saber que são todos mais ou menos do mesmo nível, não tem nenhum que possa se gabar de ser tão melhor que os outros como Schumacher logrou ser no seu período mais fértil.

São três corridas até agora nesta temporada, e três vitórias de equipes diferentes, algo que não acontecia em início de campeonato desde 1990. E serão muitos os vencedores neste ano, podem apostar. Por uma simples razão. Ao contrário da geração dizimada por Schumacher, essa de hoje não vai para a pista derrotada por antecipação.

Querer vencer e saber que é possível é o que faz toda a diferença. Nas pistas e na vida, se me permitem a baratíssima filosofia de botequim.

CASOS ESTRANHOS – 17/07/2009

O começo da semana foi duro para Nelsinho Piquet. Ele estava praticamente demitido da Renault por conta de seu mau desempenho neste ano. Ao lado de Fisichella e Sutil, da Force India, e de Nakajima, da Williams, o brasileiro virou a metade da temporada fazendo parte do indesejado grupo dos pilotos que ainda não marcaram pontos no campeonato.

Por contrato, poderia ser mandado embora. Há uma cláusula de performance que permitia à Renault substituí-lo se não tivesse feito pelo menos metade dos pontos que Alonso no mesmo período – o espanhol marcou 13 até agora.

O que segurou Nelsinho no time foi o argumento de que para conseguir cumprir o prometido, ele precisaria ter ao menos o mesmo equipamento que o companheiro de equipe. E, em algumas provas, não teve. Para evitar uma briga que poderia ser levada aos tribunais, Flavio Briatore aceitou prorrogar sua permanência até, pelo menos, o GP da Hungria.

Nelsinho tem sido um mau piloto de F1. Bem-sucedido nas categorias menores, rival duro para Lewis Hamilton na GP2, o filho do tricampeão Nelson Piquet não se encontrou neste ano e meio em que faz parte da elite do automobilismo mundial.

É fraco em classificações, pouco efetivo em corrida, parece meio distante de tudo, disperso, sem espírito de equipe. Neste momento em que ganhou uma sobrevida, tem de repensar o que quer da carreira. Mesmo que chegue ao final da temporada, precisa ter em mente que já está desempregado para 2010.
Seu desafio, agora, será mostrar não à Renault, mas às outras equipes, que merece uma vaga no ano que vem. Para desmentir a tese defendida por muitos de que, no automobilismo, quase nunca filho de peixe, peixinho é.

Porque se continuar nessa toada de absoluta falta de resultados, encerra precocemente seu ciclo na F1 e corre o risco de se transformar num piloto errático, daqueles que passaram pela categoria sem deixar saudades e que tentam, depois, encontrar um rumo em outras pistas, com outros carros.

O começo da semana foi igualmente duro para Sébastien Bourdais. Ainda no autódromo, em Nürburgring, foi flagrado pelas câmeras de TV dando um caloroso abraço num cara das antigas, Giorgio Ascanelli, engenheiro da Toro Rosso. Era sua despedida do time que, no ano passado, lhe abriu as portas da Europa. Sim, porque apesar de francês, Bourdais fez sucesso, mesmo, nos EUA. Foi tetracampeão da Champ Car, reeditando o caminho feito por Alessandro Zanardi anos antes.

Zanardi também voltou à Europa, e igualmente fracassou. Como fracassaram Michael Andretti e Cristiano da Matta depois de glórias em solo americano. Como não seguraram o rojão, apesar de resultados muito melhores, Jacques Villeneuve e Juan Pablo Montoya, de certa forma. Ambos voltaram à América.

É outro caso estranho, esse dos pilotos que ganham tudo nos EUA e, quando chegam à F1, ou voltam a ela, se dão mal. Seria o automobilismo americano tão mais fraco? A essência das competições não é a mesma, acelerar e chegar na frente dos outros?

Não sei. Até um cara sair dos EUA e se dar bem na F1, a sensação será sempre a de que a categoria mais importante do mundo é, no fundo, um moedor de carne.

GENTE COMO A GENTE – 03/07/2009

A febre do Twitter pegou os pilotos em cheio. Nas últimas semanas, Nelsinho Piquet e Rubens Barrichello reuniram mais de 40 mil “seguidores” em seus miniblogs, iniciando um relacionamento com seu público que jamais tiveram.

Nelsinho foi, digamos, o pioneiro entre a turma da F1. Sabe usar a ferramenta como poucos. O filho do tricampeão mundial é ágil na escrita e nas atualizações de sua página. No GP da Inglaterra, por exemplo, tirou fotos durante o desfile dos pilotos e poucos minutos depois já tinha colocado as imagens no ar. Fez o mesmo com fotos de Nelson-pai dando uma de churrasqueiro em Silverstone. E mais: quando perguntado pelos fãs sobre as chances de Alonso correr na Ferrari, tirou uma onda de todo mundo. “Eu sei o que ele vai fazer, mas não conto!”, escreveu.

Empolgadíssimo, Nelsinho “twitta” o dia todo, onde quer que esteja. E agora deu para fazer promoções entre seus seguidores, sorteando viseiras autografadas, luvas, capacete e até macacão. É um sucesso na rede. Barrichello entrou um pouco mais tarde, mas já pegou o espírito da coisa. Por suas mensagens no Twitter, seus “seguidores” souberam, por exemplo, que ele passou os últimos dias em Orlando, levou a família à Disney, marcou um jantar com Tony Kanaan (outro “twitteiro” de primeira), vai todos os dias à academia e pretende correr na Stock quando deixar a F1. Aproveitou para perguntar aos torcedores qual capacete eles preferem que use em Nürburgring, o tradicional com laranja e azul, ou o amarelo com as cores da Brawn GP. Fará promoções também, distribuindo camisetas e bonés da equipe. E prometeu homenagear Michael Jackson se for ao pódio na Alemanha, trocando a infame sambadinha pelo passo “moonwalker” que o ídolo pop eternizou. Barrichello, no Twitter, é @rubarrichello; Nelsinho atende por @NelsonPiquet. João Paulo de Oliveira, Lucas di Grassi, Danica Patrick, Tony Kanaan, Massimiliano Papis, Antonio Pizzonia, Juan Pablo Montoya e Alex Tagliani são outros que eu tenho “seguido”, nos últimos dias. É diversão garantida.

Alguns até cometem indiscrições engraçadíssimas. Montoya, por exemplo, só fala de comida. Diz que está com fome e que quando está com fome não é lá muito simpático. Sonha com a hora em que vai terminar o treino para mergulhar de boca em hambúrgueres, fritas e “ribs”, espera pela hora do jantar com enorme ansiedade e faz o tipo “supersized”, devorador de fast food americana, fazendo jus à fama de gorducho que sempre teve na F1. E o que é melhor: são eles mesmos que escrevem, sem assessoria de imprensa, controle externo, nada. Ligação direta, com graça e simpatia.

Estão conseguindo mudar a imagem que sempre tiveram de estrelas distantes, inacessíveis, entediadas, aborrecidas com a rotina da profissão. No fundo, é tudo gente como a gente. E o Twitter é um golaço da internet.