GIL DA F-1 – 24/10/2003

De todos os que não chegaram, esse é o único que eu gostaria de ter visto lá. Gil de Ferran encerrou a carreira sem ter tido o gostinho de disputar o campeonato da categoria para a qual se preparou a vida toda. Circunstâncias o levaram para os EUA, onde se tornou o mais bem-sucedido piloto brasileiro no período pós-Senna, com dois títulos na Cart e uma vitória nas 500 Milhas de Indianápolis.

Com o início da decadência da Cart, a contragosto, Gil aceitou ir com a Penske para a IRL, essa trituradora de gente que arrebentou meia-dúzia e matou um neste ano. Ótimo que tenha parado. Gil não é piloto de ficar andando em círculos no meio de virtuoses como Billy Boat, Richie Hearn, Roger Yasukawa ou Jimmy Kite. É de outra turma, disparado.

Gil deu azar. Quando teve a primeira chance real de testar um F-1, em 1993, meteu a cabeça na porta do caminhão da Arrows e teve de abortar os treinos. Naquele mesmo dia, no Estoril, Jos Verstappen andou na mesma Arrows. Fez tempos melhores do que Gil, e eu perguntei a ele, no final do dia, por que não mandou o sapato para se garantir. Gil disse que não queria se meter a besta sob o risco de fazer alguma bobagem, como rodar ou bater. Verstappen bateu, e no ano seguinte estava na Benetton como companheiro de Michael Schumacher. Se meteu a besta, virou a besta holandesa, e se não aproveitou bem suas oportunidades, aí é outra história.

O título da F-3 Inglesa em 1992 não abriu portas para Gil como ele gostaria, e nem as boas campanhas na F-3000 em 1993 e 1994 ajudaram. Por alguma razão inescrutável nada encaixou, nenhuma equipe se interessou e ele acabou indo parar na Indy em 1995, num ano em que a F-1 para o Brasil virou símbolo de morbidez por causa da morte de Ayrton. Muitos pilotos fizeram o mesmo caminho, como Christian Fittipaldi, Maurício Gugelmin, Roberto Moreno, e depois ainda vieram Hélio Castro Neves, Tony Kanaan & cia. limitada.

Depois de um começo duro em equipes pequenas, tendo até de pintar seu capacete clássico de amarelo, coisa de americano, Gil engatou uma sexta marcha e fez muito sucesso, ganhou corridas e títulos, foi parar na maior organização automobilística da América do Norte, o tempo foi passando e a F-1 foi ficando distante. Fim de linha, sapatilhas penduradas, eis que surge uma possibilidade, ainda que remota, de realizar o sonho de disputar o Mundial do lado de lá do Atlântico.

Primeiro seu empresário tentou costurar um acordo envolvendo a Jordan, onde tem bons contatos, a Petrobras e a Ford, empresa da qual o pai de Gil é importante funcionário. Dias depois surgiu a informação, publicada em primeira-mão pelo jornalista Téo José, de que a Penske poderia entrar no circuito comprando as dívidas da Jordan, assumindo o time e colocando em seus carros motores Mercedes (Roger Penske tem participação na Ilmor, a empresa que faz os motores da McLaren). Um dos pilotos seria Gil de Ferran.

Se isso acontecer, o sonho estará sendo realizado, ao menos parcialmente. Gil nunca quis andar atrás em categoria nenhuma, lutou feito um louco para conseguir carros vencedores e, numa hipotética Jordan-Mercedes, não faria sucesso nenhum — iria apenas brincar com toda sua seriedade por um ou dois anos, até porque a idade está chegando. Mas mataria a vontade, sem que ninguém tivesse a coragem de cobrar dele poles ou vitórias.

Seria ótimo. Desde que Gil se mandou para os EUA, passaram pela F-1 trastes como Magnussen, Boullion, Suzuki, Katayama, Tarquini, Wurz, Nakano, Larini, Fontana, Morbidelli, De La Rosa, Takagi, Mazzacane, Firman, isso só para ficar em alguns nomes que correram por times razoáveis. Diante desse monte de porcaria, é óbvio que Gil mereceria ter tido sua chance, uma boa chance. Agora, como “ex-piloto”, seria um prêmio justo para quem construiu uma carreira brilhante ter ao menos a oportunidade de, finalmente, correr entre os seus. Ainda que com alguns anos de atraso.

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A VIDA EM COR-DE-ROSA – 06/02/1998

Ah, a vida é linda e maravilhosa! Aqui no parque de diversões do Mickey, todos os carros são muito bons e o mínimo que cada um de nós, pilotos, promete ao seu público e, principalmente, aos seus patrocinadores, é a luta direta pelo título.

Ah, este carro da Penske é o melhor que já foi feito em toda a história dos veículos de quatro rodas! Ah, estes pneus Goodyear melhoraram muito, o pessoal tem trabalhado barbaridade! Puxa, como é bom esse chassi Reynard, nunca dirigi um carro tão bom! Nossa, como o Swift é rápido em ovais longos, eficiente em ovais curtos e equilibrados em circuitos mistos! Anda muito bem em ruas de paralelepípedo também!

Olha, o motor Mercedes deste ano vai dar o que falar, pode escrever aí. A Honda, mais uma vez, mostrou o que os japoneses são capazes de fazer. A Ford não está disposta a ficar atrás, não, fez o motor mais confiável da categoria.

Ah, como ficou lindo o novo desenho de Homestead, puxa, como é bonito aquele oval no Japão, ah, como eu adoro Milwaukee e Mid-Ohio, Nazareth é inesquecível!

Veja este macacão, este capacete, este asfalto, estas arquibancadas, vamos fazer o dever de casa direitinho, nunca testamos tanto, quebramos recordes e mais recordes no circuito auxiliar B de Firebird, fomos meio segundo mais rápidos que os outros no retão Y de Cleveland, nosso pacote técnico é excelente, são dez ou vinte ou cinquenta pilotos com chances de ser campeão!

Este é o mundo da Indy, o mundo no qual aquele piloto que fica em décimo-alguma-coisa num treino garante que tem chances de ganhar a corrida, o mundo onde tudo é cor-de-rosa, sorrisos, confiança. Para mim, um grande embuste.

Será que nunca essa turma vai assumir com honestidade que tem um carro ruim, uma equipe pobre, um motor de quinta e um pneu quadrado? Será que todos são favoritos até a última prova da temporada? Será que Milwaukee é mesmo melhor do que Mônaco e Portland dá de dez a zero em Monza?

Fico com o mau-humor da F-1, o Schumacher reclamando da Ferrari, o Villeneuve esculhambando o regulamento, o Alesi espinafrando a Benetton e o Ron Dennis empinando o nariz para dizer que não, não somos favoritos.

É meio cinzento, mas mais verdadeiro.

PREVISÃO – 26/12/1997

Anote aí as minhas previsões para 98, porque não estou com vontade de fazer balanço da temporada, quem faz balanço é banco. Eu normalmente acerto todas, minha margem de erro nos últimos campeonatos tem sido menor do que 2%. E um ótimo ano a todos vocês que tiveram a paciência de me aturar em 97.
Volto em fevereiro, bronzeado pelo sol de Porto Seguro e louco para ver uma corridinha de novo. Tchau.

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Schumacher e Villeneuve vão se reconciliar. Para provar que está sendo sincero, Michael vai pintar o cabelo de amarelo. Jacques, por sua vez, doará um filhote de vira-lata para o alemão. Mas não vai avisar que está cheio de pulgas.

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Rubinho vai reclamar do motor, do pneu, do asfalto, do calor e do hotel. Vai prometer largar entre os oito primeiros e tentar chegar nos pontos. Vai lamentar o azar que o tirou do pódio e, no fim da temporada, dirá que foi um ano de aprendizado e que a equipe cresceu muito.

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Raul Boesel, finalmente, conseguirá sua primeira vitória. Será num campeonato de autorama com os filhos pequenos. Mas o mais velho entrará com um protesto junto à FIA porque o carrinho do papai tinha quatro rodas e o seu, só três.

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Gil de Ferran vai bater o carro oito vezes e no final do ano dirá que se não fossem aqueles azares, seria campeão.

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A FIA vai mudar de novo o regulamento, porque os carros estão muito rápidos. Só serão permitidos freios a lona e câmbios manuais de quatro marchas. Os carros também terão que levar estepe no porta-malas e o pit stop será feito pelo piloto sozinho.

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O Galvão Bueno vai dizer “quando surgir a luz verde” três vezes. E vai chamar Jacques de Gilles 14 vezes.

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André Ribeiro terá que fazer uma plástica para tirar o sorriso do rosto, porque se já dá risada sem ganhar nada, imagine na Penske, faturando uma corrida aqui e outra ali.

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E eu serei pai.

Até o ano que vem.

PENSAMENTOS IMPERFEITOS – 22/03/1996

Esta semana foi de intensas discussões sobre o quê é melhor: Cid Moreira ou Lillian Wite Fibe, catchup ou mostarda, Portuguesa ou Palmeiras, pizza de aliche ou de muzzarella, Rio ou São Paulo, Xuxa ou Angélica, Fórmula 1 ou Fórmula Indy.

Como estou com preguiça de escrever muito, de estruturar um texto lógico e elaborado, e como na semana que vem vou trabalhar que nem um camelo em Interlagos, resolvi dar folga aos meus neurônios e soltar alguns pensamentos incompletos e imperfeitos para que vocês também exercitem suas cacholas.

* Não dá para comparar Indy com F-1. Na F-1, uma equipe de ponta como a Williams gasta U$ 100 milhões por ano. Na Indy, a Penske precisa de U$ 20 milhões para fazer uma temporada. Um Audi custa U$ 60 mil. Um Fusca, U$ 7 mil. Qual você prefere?

* Falar que a Indy é competitiva, equilibrada etc. e tal, OK, é verdade. Imagine um Campeonato Paulista com 16 Novorizontinos. Seria também equilibrado, competitivo, disputado. Mas seria melhor do que um campeonato com dois Palmeiras e 14 Novorizontinos? Sei não.

* Quando o Alessandro Zanardi vira ídolo, é porque alguma coisa está errada. Ele fez a pole para a Rio 400, na condição de estreante. Na F-1, era um zé-mané. Na Indy, zé-manés conseguem vencer na vida. Bom, pelo menos é democrático.

* Eu gosto da Indy, fui ao Rio, achei legal a corrida, fiquei feliz com a vitória do André Ribeiro. Não tenho nada contra circuitos ovais, contra padres que usam estolas quadriculadas, contra bandeiras amarelas, contra pilotos que já passaram dos 50, contra tocarem o hino antes da largada… Nada, nada, nada contra. Só que a F-1 é, digamos, menos circense. E eu não gosto muito de circo.

* Quanto ao Rio, nota dez em tudo, até para a desorganização. Não há nada como o sol carioca e suas musas nos pontos de ônibus. São Paulo acabou, afundou numa enchente, nos seus túneis e na sua arrogância.

* E pra terminar: prefiro pizza de aliche, não gosto nem de catchup, nem de mostarda, a Lillian tem a boca torta, entre Xuxa e Angélica sou mais Adriane, e a Portuguesa é o melhor time do mundo. Até a semana que vem, direto do inferno de Interlagos.