Os azares de Schumacher na Áustria – 03/05/2002

Das 17 pistas que formam o atual calendário da F-1, o alemão Michael Schumacher só não venceu em uma: em Zeltweg, na Áustria, local da próxima etapa do Mundial, no dia 12. O ferrarista costuma dar muito azar no circuito: ele se envolveu em confusões nas quatro vezes em que disputou a corrida. Em 1997, ultrapassou sob bandeira amarela; em 1998, saiu da pista e destruiu o bico; foi tocado por trás em 2000 e saiu da pista com Montoya em 2001. Outro detalhe: desses quatro GPs, em dois ele largou atrás do seu companheiro de equipe (Irvine, em 1997, e Barrichello, em 2000).

Confira a extensa lista de azares do tetracampeão na Áustria:

1997 – Depois de treinos ruins, Schumacher largou apenas em nono, imediatamente atrás de seu companheiro de equipe, Eddie Irvine. Foi sua pior colocação no grid naquela temporada, junto com a da Itália. Michael partiu bem e completou a primeira volta na sexta colocação. Com o pit stop de Jan Magnussen (Stewart) na 26ª passagem, Schumacher subiu para quinto. Barrichello (também da Stewart) parou nos boxes duas voltas depois e o ferrarista pulou para quarto. O alemão passou Frentzen sob bandeira amarela na 38ª volta e assumiu a segunda colocação com o pit de Jacques Villeneuve. Schumi, porém, foi punido com um stop&go e despencou para nono. Passou Barrichello e Damon Hill (Arrows) nas últimas voltas e terminou em sexto. Villeneuve, seu grande rival na briga pelo título, venceu e ficou apenas um ponto atrás do alemão no campeonato.

1998 – Em uma classificação que alternou chuva e pista seca, Schumacher conseguiu apenas o quarto tempo. A primeira fila foi formada por Fisichella (Benetton) e Alesi (Sauber). O alemão largou bem e na primeira volta já pressionava Mika Hakkinen (McLaren), o líder. Michael, porém, forçou demais e cometeu um erro na 17ª passagem, quando ainda era o segundo. Ele destruiu o bico de sua Ferrari e foi obrigado a dar uma volta inteira com o carro avariado. Caiu para 16º e foi se recuperando até terminar em terceiro, atrás da dupla da McLaren. O pódio só foi possível porque a Ferrari mandou Irvine dar passagem ao alemão.

1999 – Não correu porque estava se recuperando do acidente sofrido em Silverstone. O alemão quebrou a perna direita e ficou três meses sem disputar um GP de F-1.
2000 – Ficou em quarto no grid, imediatamente atrás de Rubens Barrichello, e foi tocado por Ricardo Zonta (BAR) na primeira curva. O alemão tentou colocar seu carro no meio da pista para paralisar o GP, mas a direção de prova foi rápida e permitiu que a corrida continuasse.

2001 – Conquistou sua primeira pole na Áustria, mas largou mal e caiu para terceiro. Subiu para segundo com a quebra de Ralf e partiu para cima de Montoya, o líder. Schumi forçou a ultrapassagem na 16ª volta (foto) e ambos saíram da pista. O alemão caiu para sexto e se recuperou até cruzar a linha de chegada em segundo. Foi nesta corrida que a Ferrari obrigou Barrichello a ceder sua posição ao companheiro de equipe. O brasileiro só fez isso na última curva.

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O EXIBICIONISMO ÁRABE – 30/10/2009

A temporada da F-1 termina amanhã em mais um desses oásis que nada têm a ver com a F-1. Abu Dhabi faz parte da safra de autódromos de luxo inaugurada em 1999 com Sepang, que depois agregou Xangai, Bahrein, Istambul, Valência e Cingapura. E vêm por aí Coreia e Índia, possivelmente. Templos nos quais se promove o culto ao desperdício e ao hedonismo. Exageros arquitetônicos que levam a categoria – exceção feita ao circuito espanhol – a um público que nem sabe direito o que está acontecendo na pista.

Nada contra, conceitualmente falando, circuitos novos ou países sem tradição no esporte a motor. Sempre gostei, aliás – novidades são bem-vindas, em geral, na vida. Mas é evidente que essa marcha rumo ao oriente não tem outra motivação que não seja arrecadar mais, arrancar dinheiro daqueles para quem o dinheiro é fácil. Não existe nenhum projeto de incentivo ao automobilismo, nenhum apelo esportivo. É grana, e só.

Faz-se o espetáculo da ostentação, do luxo e do exibicionismo. E fica tudo com cara de sabor artificial de groselha. A corrida acaba sendo relegada a segundo plano. O astro da festa é o cenário: iates, hotéis suntuosos, construções de vidro e aço escovado, gente rica com seus relógios de milhares de dólares, o mundo que não sabe o que é crise.

Os treinos mostraram tudo aquilo que os promotores queriam. “Espetacular” será o mínimo que dirão sobre a estrutura, a funcionalidade, a iluminação, o asfalto liso como uma mesa de bilhar. Mas não tem uma árvore, uma curva cega, um relevo, uma subida, uma descida. Parece coisa de videogame. É ótimo para tirar fotos. Nada mais. O traçado é de uma mediocridade inominável.

Sou um nostálgico de nascença, e por isso não consigo simpatizar com esses monumentos caríssimos que nos últimos anos foram ocupando o lugar de circuitos tão cheios de história como Estoril, Zeltweg, Paul Ricard, Kyalami, Jerez, Hermanos Rodriguez, Magny-Cours, Imola, Montreal, Silverstone… OK, história se constrói ao longo dos anos, é preciso começar um dia, mas alguém consegue imaginar que um GP no Bahrein, por exemplo, será capaz de ter história um dia? Nada, qualquer hora dessas aparece outro xeique e tira a prova de lá, e acabou-se o Bahrein.

História se faz com paixão, sangue, suor e lágrimas. Nesses autódromos que se parecem com shopping centers, não se pode suar, nem sangrar, nem chorar. Suja o chão. Alguém vem e limpa rapidinho. Não ficam rastros, nem marcas.

MEMÓRIAS DE HOCKENHEIM – 18/07/2008

Apenas oito dos 20 pilotos que largam domingo para o GP da Alemanha conheceram a verdadeira pista de Hockenheim com um carro de F-1. Eles estavam no grid naquele 29 de julho de 2001, quando o traçado de 6.825 m foi usado pela última vez. No ano seguinte, o circuito foi mutilado e reduzido para 4.574 m, obra de, como sempre, Hermann Tilke, o arquiteto da categoria.

A título de curiosidade, eram eles: Rubens Barrichello (Ferrari), David Coulthard (McLaren), Jenson Button (Benetton), Giancarlo Fisichella (Benetton), Jarno Trulli (Jordan), Nick Heidfeld (Sauber), Kimi Raikkonen (Sauber) e Fernando Alonso (Minardi). Todos, hoje, defendem outras equipes. Alguns times já nem existem mais, como a Benetton (virou Renault), a Jordan (é hoje a Force India), a Sauber (comprada pela BMW) e a Minardi (sucedida pela Toro Rosso).

Olhando assim, parece que faz um século, mas estamos falando de apenas sete anos atrás. O que mostra que a F-1 vem passando por forte renovação, com pilotos cada vez mais jovens ocupando seus cockpits, equipes fechando e mudando de mãos, e até autódromos sendo abandonados. Das pistas que fizeram parte do calendário de 2001, Imola, Zeltweg e Indianápolis não são mais usadas. Suzuka está fora, mas volta no ano que vem. E Nürburgring se reveza com Hockenheim como sede do GP alemão.

O novo traçado não tem a menor graça. Falta-lhe personalidade, caráter. O antigo carregava os mistérios da Floresta Negra, com suas retas enormes cortadas por chicanes, que tragavam os carros depois do trecho do Estádio para devolvê-los à visão dos torcedores depois de um longo minuto de escuridão e altíssima velocidade.

O que permanece é o espírito do torcedor alemão, que faz uma festa das mais alegres do ano no autódromo durante quatro dias. Cerveja é consumida em doses industriais e a instituição do camping permanece viva nos arredores da pista. Muita gente acampa, outros levam seus trailers, holandeses, principalmente, salsichas são assadas em pequenas churrasqueiras e a camaradagem é geral. Há ainda um belo museu de carros de corrida, muitas barraquinhas com lembranças da F-1 e o clima “automobilístico” só é comparável àquele que se encontra em provas tradicionais, como em Monza, Spa, Silverstone e Nürburgring.

Foi em Hockenheim, a antiga, que Rubens Barrichello ganhou sua primeira corrida, em 2000, numa epopeia histórica a partir da 18ª posição do grid, terminando a prova com pneus para pista seca debaixo de uma chuvinha traiçoeira. Isso depois de uma invasão de pista por parte de um ex-funcionário da Mercedes, que protestava contra sua demissão e acabou mudando o rumo do GP, motivando a entrada do safety-car e anulando a diferença que o brasileiro tinha para os ponteiros.

A comemoração de Barrichello na volta da vitória, seu choro no pódio e, depois, a homenagem de Mika Hakkinen e David Coulthard, que o ergueram nos ombros, estão entre as imagens mais marcantes dos últimos anos.

São algumas das memórias de Hockenheim, de tempos que, infelizmente, não voltam mais. Não nessa pista sem sal e sem tempero.

VOLKSWAGEN VEM AÍ – 30/05/2003

É a primeira vez que ouço de alguém supostamente bem informado, portanto passo adiante.
Acabo de voltar de um jantar no motorhome da BMW. Uma vez por ano eles fazem dessas coisas. Hoje foi para o pessoal de rádio. Entre meus 15 empregos está o de trabalhar em rádio, mas isso não vem ao caso.

Estava lá Mario Theissen, o sujeito que cuida dos motores da Williams. Alemão, meio distante, aquela coisa de sempre. Sentei na frente do cara, tive de falar sobre motores.

Comecei perguntando sobre os que me interessam, dois tempos, como os dos meus DKWs. Esculhambou, disse que é algo ultrapassado. Pensei em dizer que os meus, pelo menos, não quebram dia sim, dia não, mas fiquei quieto e passei a outro tema, para parecer entendido. Outro dia um louco me ligou dizendo que desenvolveu uma vela para motor que dá 200 faíscas ao mesmo tempo e que precisava de um investidor para montar uma fábrica. Perguntei a ele o que achava. “O cara é um louco”, disse. Como concordamos, fomos ao próximo assunto e começamos a falar das dificuldades de se montar uma equipe própria na F-1.

Na verdade, meu interesse era menos na BMW, mais na Volkswagen, alemã, também. Theissen conhece a turma rival, claro, e disse que, pelo que está sabendo, a decisão de entrar na F-1 já está tomada.
Mas não é para já. O anúncio será feito no final do ano que vem. Não se sabe ainda se com um time saindo do zero, como fez a Toyota, com parceria com alguma equipe existente, como fez a própria BMW, ou a partir da compra de alguém, a Sauber, por exemplo. É o que fez a Renault, ao incorporar a Benetton.

A partir do anúncio, disse o Theissen, três anos para entrar na pista em competição. Ou seja: estreia em 2007. Questionei. Precisa de tanto tempo? Não é só fazer um motor, pegar o da Audi de Le Mans, por exemplo, e enfiar num chassi em forma de charutinho cheio de asas?

Nada disso, falou o Mario. Motor de F-1 não tem nada a ver com motor para Le Mans. Eles vão ter de começar um projeto totalmente novo. A BMW, segundo ele, iniciou seu programa de F-1 em 1997, para colocar o motor num carro de testes em 1999 e estrear no Mundial em 2000. Apressar esse processo, segundo o Theissen, é meter os pés pelas mãos e correr o risco de dar vexame.

Está dada a informação: Volkswagen, possivelmente usando a marca Audi, na F-1 em 2007. Anúncio no ano que vem. Esses jantares nas equipes rendem mais do que barriga cheia. Foi o segundo neste ano, o outro a Jaguar ofereceu em Zeltweg. Mas naquele dia a comida estava ruim e saí de lá com fome e sem notícia. Equipe grande é outra coisa. A gente come bem e ainda tem sobre o quê escrever.

QUEM SE IMPORTA? – 03/10/2002

Logo depois da papagaiada de domingo, tive uma ideia que, na hora, achei genial: republicar letra por letra a coluna que escrevi depois da corrida da Áustria, apenas trocando Schumacher por Barrichello e Zeltweg por Indianápolis. Seria minha forma de protesto contra nova marmelada, etc.

Claro que a ideia era bem estúpida, e ainda bem que não a levei adiante. Ninguém iria notar minha suposta genialidade e o texto ficaria ridículo. Afinal, se é verdade que se trata do mesmo doce, também é evidente que sua digestão foi muito mais fácil. A marmelada americana não causou indignação nenhuma, foi quase desprezada e a crítica mais severa que ouvi foi de um sujeito que me disse “como são bobos esses caras”, com o que concordo.

A troca de posições não passou de mais uma bobagem nesta temporada cheia de bobagens, um campeonato tão desigual que permitiu essa troca de gentilezas que não tem nada de esporte. Como diz outro amigo, e me perdoem o termo esdrúxulo, nada mais do que uma viadagem só possível porque as outras equipes não existem e os dois pilotos da Ferrari são amiguinhos.

E por incrível que pareça ainda houve, e há, quem continue discutindo o tema. Será que Schumacher quis mesmo deixar passar? Será que o alemão não errou a linha de chegada? Tenham dó. Ele ria que nem criança ao sair do carro e passou por aquela linha um milhão de vezes no fim de semana. Só um cretino de carteirinha erraria a linha de chegada. Tenham dó.

E tenham dó mesmo. A melhor análise que vi do fato foi, pasmem, de um colunista americano do “Indianapolis Star”, um jornal local com alguma tradição em automobilismo. “Who cares?”, ele perguntava em seu artigo de segunda-feira. É isso aí: quem se importa com quem ganhou a corrida, de que forma, com qual diferença, por quantos centímetros?

Não dá mesmo para se importar com esse tipo de coisa. Não quando vivemos sob ameaça de nova guerra patrocinada por um caubói obtuso, não quando assistimos impotentes à obscenidade do mercado financeiro que se diverte quebrando o Brasil, não quando estamos a três dias da eleição mais importante da história do país.

Esqueçam essa xaropada, a Ferrari que faça o que bem entender, assim como seus pilotos. Eles que se divirtam, que aproveitem o momento. Se quiserem brincar de roda no pódio de mãos dadas, que brinquem. Se quiserem pular amarelinha depois de estacionar seus carros enquanto os outros não chegam, que pulem. Se quiserem dançar forró agarradinhos e de capacete, que dancem.

Nós temos mais o que fazer. Tem eleição domingo, o Brasil está muito perto de reparar um enorme erro cometido há 13 anos. Isso sim importa. O resto, que me desculpem vocês que amam a F-1 acima de todas as coisas, é irrelevante.

SOMOS TODOS TOUPEIRAS – 22/08/2002

OK, jogo empatado. Se Barrichello fez questão, na Áustria, de mostrar que era ele quem deveria vencer aquela triste corrida, Schumacher igualou a disputa domingo em Budapeste num dos GPs mais bestas dos últimos tempos. Ao sair de seus dois pit stops, Rubens poderia ter sido ultrapassado pelo alemão, que quase brecou o carro para cumprir as ordens idiotas da equipe.

No final da corrida, esnobou o companheiro quando contou as circunstâncias da volta mais rápida da prova, quase 0s7 melhor que a de Barrichello. Demonstração mais eloquente de que estava andando com o pé no breque, impossível.

Em Zeltweg, Rubens deixou Michael ganhar. Em Hungaroring, Schumacher claramente deixou o brasileiro vencer. E Rubens, sabendo disso, que não teria com o que se preocupar, também não forçou o ritmo, o que torna impossível qualquer especulação sobre o que poderia ter sido esse GP da Hungria se não fosse essa camaradagem infame que, e é isso que incomoda, já está sendo encarada com naturalidade.

Se não dá para dizer quem venceria caso os dois estivessem disputando uma corrida para valer, dá para afirmar que, pelo menos, seria uma ótima prova se ambos fizessem o que deles se espera: competissem.

Mas podem esquecer. Jean Todt, com sua lógica mequetrefe, impede as disputas. Não gosta delas. É isso: Todt não gosta de corridas! Dá saudades até de Ron Dennis, um sujeito empertigado e arrogante, sim, mas que ao menos permitia que Senna e Prost se engalfinhassem na pista, porque sabia que no final o resultado seria o mesmo: vitória da McLaren.

Nem acho que Barrichello e Schumacher irão se pegar de tapa quando lhes derem a liberdade para tal. Michael, em geral, é mais rápido e, na maioria das vezes, não enfrentaria grandes resistências para ganhar. Mas de vez em quando Rubens chega muito perto, quando não o supera – como aconteceu em Zeltweg e Nürburgring neste ano, e como possivelmente aconteceria também na Hungria, a julgar pela pole e pela largada. Por que proibir isso?

Recebi algumas informações de cocheira de que as próximas etapas já têm seu destino resolvido. Como ninguém vai mesmo chegar perto da Ferrari, que fez um carro assombroso de bom, a equipe já teria decidido quem vai ganhar onde até o fim do Mundial: Bélgica e Itália, Schumacher; EUA e Japão, Barrichello.

Claro que pode não acontecer nada disso. Claro que se alguém da Ferrari ler isso aqui muito provavelmente vai dizer que é bobagem e que eu sou uma toupeira por acreditar em tudo que ouço. Bem, não me importo em ser chamado de toupeira. No fundo, sou apenas mais uma. O que a Ferrari vem fazendo com seus pilotos, torcedores e com os fãs da F-1 é exatamente isso: transformar todos em toupeiras.
Tirar a graça da competição em nome de objetivos “maiores”, como adoram dizer os de Maranello, é coisa de e para toupeiras, mesmo.

FORMULAUNZITE – 02/08/2002

Fui ao médico hoje. Desde a semana passada sinto uma incômoda dor de estômago que suspeito ter sido causada por uma única taça de vinho da Alsácia. Como é sabido, a região, fronteira entre França e Alemanha, foi alvo de disputas seculares resolvidas apenas depois da Primeira Guerra. Pelo Tratado de Versalhes, a Alemanha teve de retirar todas suas tropas da região do Reno e devolver a Alsácia e a Lorena à França.

Isso fez com que, embora franceses, os cidadãos da Alsácia se pareçam muito mais com alemães. As cidades têm nomes alemães, as meninas são todas loirinhas e a arquitetura é tipicamente alemã. E o vinho também. Eu estava em Colmar, perto de Estrasburgo, cidade que se arvora o título de “capital dos vinhos da Alsácia”, quando experimentei a indigitada taça. Vinho alemão em geral é ruim.
Portanto, vinho francês feito por descendentes de alemães também há de ser.

E era, e daí minha persistente dor de estômago, acreditei na hora, o que me levou hoje ao Carlão. Liguei para a clínica de gastro alguma coisa e pedi para falar com o Carlão, o que causou enorme espanto na secretária. Jamais alguém tinha chamado o Professor Doutor Carlos Domene de Carlão. É justo. Não é lá muito polido se dirigir a um médico de porte dessa maneira grosseira, mas lamento, o
Carlão é meu amigo há anos e eu nunca o chamei de Doutor Carlão.

Desfeito o mal-entendido, fui à clínica. Ambiente raro para mim, que apesar de desprezar todo e qualquer conselho das revistas para manter uma saúde apropriada nunca tive problema médico nenhum, exceção feita a um estiramento na batata da perna no ano passado que me deixou um mês de muletas e a uma operação de amígdalas quando tinha dois ou três anos de idade.

Bem, já tenho 38, e essa foi a explicação do Carlão: já está na hora de ter alguma coisa, ainda mais eu, que devoro hambúrgueres, tomo refrigerante, adoro caipirinha, às vezes esqueço de almoçar, tomo vinho da Alsácia, essas coisas.

Não pretendo entrar em detalhes sobre meu estado terminal, não é esse o motivo pelo qual escrevo. Quero chegar logo ao diagnóstico, que tampouco foi conclusivo, o Carlão acha que tenho uma “ite” qualquer (gastrite, esofagite, pescocite, artrite, fariginte, não guardei o nome direito), mas só saberemos depois de uma endoscopia na semana que vem. O vinho, disse o Carlão, não tem nada a ver com minha dor de estômago.

Na minha visão dos fatos, descartado o vinho, o diagnóstico mais provável passou a ser “formulaunzite”, uma inflamação na minha apreciação pelo esporte que neste ano vem batendo recordes de estupidez, começando pela marmelada de Zeltweg, passando pela vergonha da Arrows em Magny-Cours, chegando à ordem absurda da Sauber para Felipe Massa em Hockenheim.

Essas coisas me embrulharam o estômago, daí que nada mais normal do que uma dor no estômago. Farei a endoscopia. Vai dar formulaunzite, com certeza. Espero que haja medicamento para isso. Se possível genérico, que é mais barato.