VÃO QUEBRAR TODOS – 01/08/2002

A marmelada da Sauber em Hockenheim, obrigando Felipe Massa a ceder uma posição a Nick Heidfeld, não teve um milionésimo da repercussão da patuscada já assaz discutida da Ferrari na Áustria. Acho que foi ainda pior. A Ferrari, ao menos, tinha um objetivo claro: decidir o título o quanto antes, por mais idiota que seja a explicação. O motivo da Sauber? Nenhum.

Mas faz sentido a pequena atenção dedicada ao fato, afinal tratava-se de uma disputa de sexto lugar num time pequeno que não tem a menor aspiração, exceto chegar em quarto ou quinto no Mundial, o que é o mesmo que nada.

Em 1993, quando a Sauber chegou à F-1, tinha-se a impressão de que ali estava o embrião de uma grande equipe, por seu passado vitorioso em outras categorias, pela parceria com a Mercedes, pela aura de seriedade que envolvia seu proprietário, um senhor sisudo, careca e apreciador de charutos. Tudo na Sauber era sóbrio e elegante, o motorhome, o preto de seus carros, a estrela de três pontas na carenagem, “concept by Mercedes-Benz”, um charme.

Mas o tempo passou e a Sauber caiu na vala comum da mediocridade que tomou conta da F-1, perdeu a Mercedes, andou contratando caras muito ruins, como Norberto Fontana e Nicola Larini, teve de correr atrás de motor, acabou fechando com a Ferrari e vendeu a alma aos malaios da Petronas. Em 1997, Fontana chegou a fazer o jogo sujo da Ferrari, segurando Villeneuve em Jerez na decisão do campeonato para que Schumacher tivesse uma folga na frente. Bela demonstração de lisura em troca de meia-dúzia de motores.

Dois anos depois, na Hungria, o careca berrou no rádio com Diniz para que deixasse Alesi passar, ele se atrapalhou, rodou e soltou os cães no comunicado da equipe. No mesmo dia, após dois reabastecimentos frustrados, Alesi anunciou, também por escrito, que ia deixar o time. Quem conhece a F-1 por dentro sabe como é raro lavar roupa suja em público desse jeito.

Agora, a história com Massa. Não se faz isso com piloto nenhum, muito menos com um garoto estreante sem contrato, deixando-o sem opções. Felipe, que já havia se negado a dar passagem a Heidfeld em Nürburgring, contestou as ordens e depois de muita briga acatou. Ao final da prova, não escondeu o que se passou, no que fez muito bem, mesmo colocando seu futuro no time em jogo.

É esse tipo de coisa que acaba com a imagem da F-1. Ou, antes, faz com que ela se misture à de mafiosos que decidem tudo sob baforadas de montecristos regadas a conhaque, lixando-se para os debiloides que veem as corridas na TV.

Bem, vocês eu não sei, mas eu já havia decidido não comprar mais nenhuma Ferrari depois de Zeltweg, estou cumprindo a promessa, e depois do que fez a Sauber resolvi que não vou colocar meu dinheiro no Credit Suisse, nem beber mais Red Bull. Empresas que ligam seus nomes a esses degenerados, no que depender de mim, vão quebrar todas.

Advertisements

SÍNDROME DE TERCEIRA VIA – 18/01/2002

Lamento voltar a tema que eu imaginava já sepultado, pelas indisposições que causou no passado e por sua absoluta ausência de importância e consequências. Refiro-me à aborrecida cantilena de Rubens
Barrichello sobre o tratamento que a Ferrari lhe concede.

Era evidente que perguntas sobre o assunto lhe seriam feitas no rega-bofe de inverno que a equipe faz há 12 anos em Madonna di Campiglio. Jornalistas são previsíveis. E Rubens, que nitidamente não pensou previamente no que iria responder, porque se tivesse pensado não diria bobagem, inventa uma equação curiosa, chegando a resultado igualmente cômico: “A equipe me dá 30, 35% de atenção. Se me desse 50%, eu poderia ser campeão”.

Perdoe-me Rubens se as palavras não foram precisamente essas. Eu não estava lá, não fui convidado. Mas vi a entrevista na TV e, no dia seguinte, sua tentativa de consertar o enunciado matemático.

Para toda situação, há sempre mais de um caminho a seguir. Fosse eu o piloto questionado pela imprensa, minha resposta seria das mais simples: claro que a equipe me dá o mesmo tratamento, e se eu quiser ser campeão, tenho de ser mais rápido do que ele. Pronto. A polêmica estaria encerrada.
Melhor, nem começaria, não sairia do papel, a resposta frustraria os jornalistas. Outro caminho, este mais radical: olha aqui, a equipe não me dá o mesmo tratamento, e por isso vou rescindir meu contrato. Sendo verdade tal disparidade de apoio, e estivesse eu convencido de que isso me impede de ser campeão, realmente pediria o boné. E o faria com estilo, expondo as entranhas de um time desleal.
O que não é o caso, diga-se já para não pairar nenhuma dúvida no ar.

Mas, como sempre, Rubens optou pela via alternativa, a pior. Demonstrou sua insegurança, atribuiu a uma diferença de tratamento a diferença de resultados entre ele e seu companheiro, e forçou a situação óbvia: a imprensa levar a questão a Schumacher, que não costuma fugir de pergunta nenhuma.
E Schumacher respondeu o que deveria responder, a coisa mais óbvia do mundo. Que ele e Rubens têm o mesmo carro, etc. E Jean Todt fez o mesmo, acrescentando que quem determina, a partir de certo momento num campeonato, as estratégias que eventualmente podem privilegiar alguém é um negócio chamado cronômetro. “Se ele quer mais, como diz, que demonstre na pista, com o cronômetro na mão, do que é capaz”, foi o que disse o diretor da Ferrari à Ansa, agência italiana de notícias.

Rubens poderia começar o ano sem ter de ouvir tais coisas. Mas o rapaz tem um crônico problema de não saber se expressar direito. Ou, se realmente se expressou com sinceridade e é verdade que a equipe não liga para ele, fica claro que o moço não sabe como lidar com uma situação desfavorável. De novo, os dois caminhos: ou aceita calado, porque está na Ferrari, um posto de trabalho privilegiado em sua profissão, e reconhece que seu parceiro é melhor, ou vai embora. E, de novo, parece síndrome, Rubens segue sempre pela terceira via, a pior de todas: se indispor com a direção da equipe e com o companheiro, para depois tentar se desdizer. Como em Zeltweg, no ano passado.

A sorte de Barrichello é que ele guia bem, é um bom piloto. Não fosse isso, creio que a Ferrari já teria perdido a paciência.

DOZE MESES – 28/12/2001

Em 2001 me assustei com o acidente de Villeneuve e Ralf na Austrália, achei o máximo a atuação de Schumacher na chuva em Sepang, vibrei com o Montoya passando o Michael e tive pena de Barrichello em Interlagos, me diverti com o “mantenha a distância” pintado nos carros da Williams em Imola, comi uma magnífica paella em Barcelona mas me perdi na estrada para voltar ao hotel, passei mal depois de entornar litros de leite em Zeltweg, fiquei num quarto com cheiro de mofo em Mônaco, ouvi Bossa Nova em Montreal, descobri uma cerveja chamada Desperado em Nürburgring, minha mulher encheu a cara em Paris, jantamos na beira de um lago na casa do pessoal da Globo em Magny-Cours, conheci a filha do Galvão, um doce, e o Graminho, outro doce, fiquei sem a chave da casa em Silverstone, vi o Schumacher ser tetra na Hungria e não precisei subornar nenhum policial em Budapeste, aluguei um Audi TT na Bélgica, fui visitar o Burti no hospital, fiz um minuto de silêncio em Monza, vi os EUA de perto depois dos atentados, joguei bola em Suzuka, comprei um Fissore, reformei um Candango, estive em três exposições de carros antigos, fiquei horas grudado na TV em 11 de setembro, li o livro do João Pedro, escrevi para a “Quatro Rodas”, aprendi a comer peixe cru num ótimo restaurante japonês em São Paulo, fui a poucos jogos da Portuguesa, adorei ver o São Caetano na final, torci pelo Atlético Paranaense, cheguei a desejar que a seleção ficasse fora da Copa, me decepcionei com o Pelé, fui a três programas de TV, perdi meu emprego na Jovem Pan, coloquei meu apartamento novo para vender, comprei um carro para minha mulher, acompanhei o nascimento dos quadrigêmeos do amigo Dilson, compus o hit infantil “Nuvenzinha” para fazer meu filho mais velho dormir (“A nuvenzinha/que mora lá no céu/mora lá no céu/onde vive o avião…” etc.), encontrei as historinhas da Disquinho em CD, ensinei a ele o hino da Portuguesa, fiquei cinco dias no hospital com o caçula, que já está começando a falar, passei uma semana no Club Med, escrevi muito, li grandes livros, assisti à Casa dos Artistas, ao No Limite, ao Auto da Compadecida, acompanhei o sequestro do Silvio Santos a distância, montei uma rede de computadores no meu escritório, fui a um show do Caetano, tive um estiramento na panturrilha, andei de muletas, dei boas risadas, muitas, me irritei algumas vezes, ganhei amigos, perdi tempo.

Tudo em 12 meses. Vivi mais um ano. Tem outro pela frente. Que seja bom para todos.

DEIXA PARA O ANO QUE VEM – 11/10/2001

Há muito tempo minha vida é pautada pelo calendário da Fórmula 1. Minhas referências temporais, por mais estúpido que isso possa parecer, são GPs, e não dias e meses. Meu primeiro filho nasceu em Hockenheim/1998. Minha sobrinha nasceu na Argentina/1997. Fui à Europa pela primeira vez em Paul Ricard/1989. Aluguei um Lada em Budapeste/1991. A Portuguesa foi roubada por aquele juiz argentino cujo nome me recuso a escrever em Imola/1998. Coisas assim. Existe o calendário gregoriano, o judaico, o muçulmano. O meu é o “formulauniano”.

Depois de alguns anos visitando os mesmos lugares, percorrendo os mesmos caminhos, se hospedando nos mesmos hotéis, tudo fica muito familiar. Ao ponto de se criarem alguns hábitos, como tomar um expresso naquele café, buscar o jornal na banca de fulano, comprar sabonete e desodorante de certa marca que só tem naquele pequeno supermercado de bairro.

São hábitos que cumprimos, que entram, se instalam sem pedir licença em nossas rotinas, e que incluem aquelas coisas que não fazemos nunca, deixando sempre para um dia, quem sabe. Como passar diante de um restaurante bonitinho, perto de casa, e dizer: preciso jantar aqui qualquer hora dessas. E nunca ir. Ou ver aquela oficina especializada em radiadores a um quarteirão de distância todos os dias e pensar: tenho de consertar o buraco no meu jipe velho. E jamais arrumar o bendito vazamento.

Em minhas andanças por aí isso acontece com frequência. E, com a mesma frequência, costumo deixar muita coisa para o ano seguinte. Em Spa há uma loja de miniaturas que me espera há anos para gastar uns francos belgas, sempre deixo para ir na segunda-feira depois da corrida, mas sempre acontece alguma coisa e acabo não indo. Tem também uma lojinha em Heidelberg que vende relógios antigos, e sempre adio a compra para o ano que vem. Dos EUA, tenho uma lista de lanchonetes que preciso conhecer, mas no fim não dá tempo e volto para casa sem saber o que tem para comer no White Castle ou qual o sabor do hambúrguer do Wendy’s.

Bem, como já saiu o calendário de 2002, prometo que no ano que vem vou fazer tudo que tenho vontade, sem concessões. Carrinhos, relógios e sanduíches podem me esperar. Aquele livro sobre arquitetura alemã, há anos exposto na mesma estante da mesma livraria de Zeltweg, também terá novo dono. E minhas decisões já estão valendo para este fim de semana no Japão. Vi um som maravilhoso lá, no ano passado, numa pequena loja de eletrônicos na rua principal de Suzuka. Só tem lá. Se ainda estiver no mesmo lugar, vem comigo para o Brasil. Isso se houver lugar na mala. Se não, tudo bem. Compro no ano que vem.

O mesmo vale para os pilotos. Domingo acaba o Mundial e a maioria fechou o ano sem ganhar uma corrida sequer. Ainda bem que sempre tem o ano que vem.

KIRCHMICO E OUTROS ASSUNTOS – 18/05/2001

O último movimento das montadoras não deixa margens a dúvidas: elas encostaram os alemães do KirchMedia na parede, e o grupo pode virar KirchMico em pouco tempo. Resumindo, para quem ainda não sabe: as montadoras, reunidas na associação européia de fabricantes (das quais fazem parte Ford, BMW, Mercedes, Renault e Fiat), levaram adiante a idéia de uma nova categoria e formalizaram a dita cuja. Agora vão montar uma empresa para administrá-la.

A idéia é estrear em 2008, quando acaba o Pacto da Concórdia. É fácil adivinhar cada passo das fábricas. Elas são donas ou sócias de quase todas as equipes da F-1, que por sua vez estão amarradas à Slec (a holding controlada pelo Kirch) até 2007. Depois disso, fazem o que quiserem. Ou, melhor dizendo, o que as montadoras determinarem.

Daí para a criação de uma Fórmula Qualquer Coisa, com as mesmas Ferrari, McLaren, Williams & cia. que hoje disputam a Fórmula 1, é, como dizem no interior, “dois palito”. E o que sobraria para o Zé Kirch e seus comparsas? Um mico do tamanho de Spa-Francorchamps. Ele teria a F-1, só que sem equipes. Colocar quem para correr? Durango, a Coloni e a Nordic? Se for esperto, Zé Kirch, que se chama Leo, na verdade, vende rapidinho o que comprou. Se der para pegar o mesmo preço que pagou, ótimo. Se resolver esperar até 2007, peitando as montadoras, vai quebrar.

Esse assunto, no fundo, não chega a ser dos mais atraentes para o torcedor comum porque envolve jogo político e financeiro, e quem de nós, em 2008, vai estar ligando para Fórmula 1? Por isso, vamos a outros dois mais trepidantes.

O primeiro: Barrichello x Ferrari. Muito tem se falado sobre a ordem de equipe para o brasileiro em Zeltweg, e sinto uma tendência em complicar o tema com equações, cálculos de tempos de volta, projeções de classificação do campeonato, análises psicológicas do rapaz, do complexo de inferioridade do brasileiro em relação à Europa e um monte de bobagens semelhantes.

O caso é muito simples, e aqui me repito porque escrevi o mesmo dois dias atrás em outra coluna. Barrichello tem um contrato que o obriga a aceitar ordens da equipe. Ninguém o forçou a assiná-lo, colocando um punhal em sua garganta. Portanto, que cumpra o que assinou. Mas se o espírito revolucionário falar mais alto, que desrespeite o acordo e assuma as consequências. Entre elas, uma demissão sumária, ou a perda do lugar na Ferrari em 2002.

Como não desrespeitou, assuma-se que ele aceita as ordens e os termos co contrato. Portanto, não tem nada que reclamar publicamente, como fez, ou jogar a opinião pública contra o time, como também fez ao deixar Schumacher passar a metros da bandeirada. Até o alemão ficou irritado. Ele não precisa disso, como provavelmente não precisará de dois pontos no fim do ano, mas nunca se sabe. Fico imaginando se não tem a ordem e Michael perde o título por dois pontos. Dá um tiro na cabeça. Do Jean Todt.

Por fim, o toque Schumacher-Montoya no início da prova austríaca. Antes de mais nada, foram momentos muito bonitos, com 1s6 separando o primeiro colocado do sexto, naquele momento da corrida. Schumacher fez o que se espera de um piloto de verdade, tentou passar. Montoya fez o que se espera de outro piloto de verdade, defendeu-se. Ambos consideraram o incidente normal (Schumacher ficou nervosinho logo depois da corrida, mas voltou atrás ao ver o vídeo).

Se não fossem esses momentos, as corridas seriam muito chatas. Portanto, nada de teorizar demais em cima do fato (um não faria a curva, o outro podia dar um X, e por aí vai; tem gente que fala com a autoridade de campeão sem nunca ter sentado num kart). Para mim, Schumacher está testando Montoya. Fez isso em Interlagos e em Zeltweg. E já sabe com quem está lidando. Com um cara parecido com ele. Viva Montoya.

BEM-VINDAS AS NOVIDADES – 12/09/2000

Vai ser legal ver a F-1 de volta aos Estados Unidos, semana que vem. É a única corrida que, confesso, estou ansioso para ver neste ano. Como aconteceu com a da Malásia, no ano passado. Gostos de países novos. Minha visão dos GPs vai um pouco além daquilo que acontece na pista. Me interessam o comportamento do público, o envolvimento das cidades, as particularidades de cada um.

Não que GP nos EUA seja algo novo, e já conheço bem nossos vizinhos do norte, estive inclusive duas vezes em Indianápolis cobrindo as 500 Milhas quando tinha piloto de verdade correndo lá. Mas F-1 na terra do Pateta eu nunca vi, não estive em Phoenix em 91, nem antes. E estou curioso para ver se o pessoal vai entender o espírito da coisa. O treino de sexta que não vale nada, por exemplo. É apenas um estímulo visual, sem competição. Na América, como eles se autodenominam, que adora esportes de placares estratosféricos, vai ser difícil convencer o público de que a sexta-feira merece ser vista de perto, pagando ingresso.

Gosto de corridas novas, enfim, e acho Indianápolis um local bem apropriado para a F-1. É um autódromo monumental, cheio de histórias, tem um lindo museu, a reforma deve ter sido bem feita, ver uma Ferrari e um McLaren passando na contramão pela curva 1 será no mínimo um negócio diferente. E como o campeonato está bonito, uma disputa ponto a ponto entre Schumacher e Hakkinen, tem tudo para ser uma daquelas provas para guardar na memória.

Acho que a FIA deveria estimular esse tipo de coisa, novidades no calendário. Uns três GPs por ano deveriam sempre ser disputados em países loucos para ver a F-1 de perto, e que só não conseguem pela miopia dos dirigentes. Poderia haver um revezamento, para que esses países não fizessem um investimento estrondoso para apenas uma corrida. De três em três anos, a F-1 voltaria, mantendo a expectativa dos torcedores alta, estimulando pilotos e equipes.

Dá para fazer. Um calendário ideal teria as corridas clássicas, como Mônaco, Silverstone, Monza e Spa. Outras como Nürburgring, Interlagos, Montreal, Barcelona, Budapeste, Imola, Melbourne, Suzuka, Sepang, Zeltweg, Magny-Cours, Indianápolis e Hockenheim poderiam, de vez em quando, dar lugar a países como Coreia do Sul, China, Líbano, África do Sul, Argentina, Portugal, Suécia, Holanda, República Tcheca, e outros tantos capazes de fazer um autódromo, ou que já os têm.

Seria bom para todos. Até para um campeonato mais competitivo, mais afeito a surpresas do que os últimos. Porque não há nada mais previsível do que a F-1 atual. Desde o GP da Itália do ano passado, todas as corridas foram vencidas por Ferrari e McLaren. E, de 98 para cá, dá para contar nos dedos as zebras: Hill, com a Jordan, na Bélgica; Frentzen, também com a Jordan, na Itália e na França; e Herbert, da Stewart, em Nürburgring. São 11 equipes correndo. Nove, hoje em dia, ficam com migalhas. É uma situação que contraria o esporte. Qualquer coisa que se faça para mudar tal estado de coisas será bem vinda. Corridas novas poderiam ser um bom começo.

HERR MALANDRÃO – 21/07/2000

Há que se tirar o chapéu para Michael Schumacher. Além de pilotar muito bem, é um sábio da malandragem. Sua tentativa de parar a corrida domingo em Zeltweg foi o melhor que aconteceu no GP da Áustria. Claro que reforçou a antipatia que a maioria das pessoas tem pelo alemão, mas tenho certeza que qualquer piloto faria o mesmo ao perceber que a direção de prova não tinha a menor intenção de dar bandeira vermelha para começar tudo de novo. Faltou só sair do cockpit e deitar no meio da pista. O Fisichella, aliás, fez quase isso, correndo a pé pela reta, balançando os braços.

Claro que não era necessário interromper nada, é para isso que serve o safety-car, e mesmo que Schumacher conseguisse o que tentou, atravessar sua Ferrari para bloquear a pista, tiravam o carro do lugar com ele dentro – aliás, como fizeram com Mazzacane nos treinos livres, num dos momentos mais engraçados do ano, cujas imagens não devem ter chegado ao Brasil: um guindaste erguendo a Minardi,o argentino chacoalhando dentro, gesticulando e ficando mareado.

Schumacher já havia passado por situação semelhante em Buenos Aires, três anos atrás. Houve um acidente na largada, no qual foi envolvido, e um comissário desavisado meteu a bandeira vermelha no ato. O piloto viu, saiu correndo a pé para os boxes, e quando chegou lá ficou com cara de bobo porque a prova não tinha sido paralisada. Os organizadores levaram uma multa de US$ 10 mil por causa do bandeirinha apressado, provavelmente um torcedor da Ferrari.

Episódios como esse, aliás, só reforçam a tese de que essa história de marmelada na F-1 não passa de falácia, o maquiavelismo que muita gente pensa que existe na verdade é fruto da imaginação conspiracionista de alguns. Nem Schumacher, nem a Ferrari podem ser acusados de favorecimento explícito por parte da FIA – talvez apenas no caso da Malásia, no ano passado, que o time italiano tirou de letra com uma defesa, reconheça-se, brilhante. Fosse assim, teriam parado a prova na Áustria para dar uma nova chance ao piloto.

O alemão, a rigor, até tem do que reclamar. Em 94, foi desclassificado de duas corridas, tomou gancho em outras duas, e acabou ganhando o campeonato de uma maneira muito pouco cordial, jogando o carro sobre Damon Hill. Foi ali que começou sua fama de mau, embora seus críticos saibam muito bem que outros títulos foram decididos da mesma maneira – só que os protagonistas já haviam sido canonizados antes, e ao que parece na F-1 ninguém vira demônio depois de se tornar santo.

Em 97, Schumacher tentou fazer o mesmo com Villeneuve e se deu muito mal, perdeu o título e a compostura, e sua imagem está arranhada até hoje por conta do episódio de Jerez. Some-se aos dois fatos, 94 e 97, sua superioridade técnica e a tendência natural de torcer para os mais fracos, e está montada a equação que o transformou numa espécie de inimigo coletivo da F-1, a quem nada se perdoa.

Nem a malandragem da Áustria, vista pelos puritanos como mais um de seus planos mirabolantes para assassinar adversários. Fosse o Hakkinen, um anjo de candura, ninguém ousaria dizer que ele tentou parar a corrida. Elogiariam sua garra, a vontade de voltar mesmo com o carro todo arrebentado. Mas não. Como é o Schumacher, isso sequer passa pela cabeça dos analistas, ele queria mesmo era parar tudo. Inclusive este que vos fala, que partiu da tese de que tudo não passou de malandragem para ter o que escrever hoje…